segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Complexo de vira-latas

Os dissidentes russos se preocupavam demais com o seu país. Fora dele, na Europa e nas Américas, se reuniam em guetos para falar mal do tzar. E depois da revolução, para falar mal de Lênin. E depois dele, de Stalin. E depois de Stalin, do comunismo. Eram malas saudosos do que não tinha jeito nem solução.
Brasileiros são iguaizinhos. Fora do país, reúnem-se em guetos para comer feijoada e falar mal do governo de plantão. Sentem saudades do que já funcionou e agora não tem mais jeito de funcionar. Éramos uma república de favores entre poucos conhecidos. Agora já não pode ser mais assim. Mas ainda temos saudades do jeitinho, da gentileza de quem era simpático e nos deixava passar na frente na repartição pública. Do quebra-galho que arrumava uma solução de última hora. Do arranjo do esquema que nos poupava tempo, mas que encrencava a vida de quem não tinha a mesma sorte. E isso está acontecendo porque a tolerância contra os fura-filas está diminuindo. Até mesmo nessa cidade, onde isso sempre foi notório. Ninguém buzina. Ninguém protestava contra o fura-fila. Agora já não é assim.
Outro dia eu estava lá no final da fila para fazer um retorno em frente ao Hospital da Universidade. Lá existiam até alguns bloquetes de concreto para impedir os furadores de filas. Mas algum destruidor do patrimônio público tratou de marretar os bloquetes. Já não existe obstáculo para se furar fila. E alguns espertinhos se aproveitam disso. Mas não naquela segunda-feira mal-humorada. Lá do final da bicha, como se diz em Portugal, eu vi um Tucson cruzar a pista para pegar o retorno e furar a fila. O carro que estava lá na frente não deixou, apesar do Tucson tentar enfiar o para-choque. Era um Fiat 147, bege, provavelmente de 1981. Ele não só impediu o Tucson de entrar como forçou um pouquinho e emparedou o carro fura-fila. Ele só passaria se fosse por cima do Fiat 147. Deu para sentir uma corrente elétrica de “perigo-lá-vem-briga” entre os motoristas, que mexiam as cabeças e olhavam pelos retrovisores, inquietos. A matilha sentiu o cheiro de confusão no ar. Eu desejei ter um binóculo no carro para assistir ao espetáculo.
O segundo movimento foi feito pelo motorista do Tucson. Ele abriu a porta do carrão e exibiu um belo par de botas de couro. Eu estava longe. Minha vista turvou. Mas pelo que percebi, o sujeito era um pouco menor do que aquele ator que fazia o papel de um super-herói verde e furioso na televisão. Não entendi o que ele gritou mas deve ter sido ofensivo. O motorista do Fiat, por sua vez, também saiu do carro. Para ficar nas comparações com velhos seriados de TV, o segundo motorista era pouco maior que o Tatu, aquele anãozinho que gritava “Patrão,um avião, um avião” numa ilha paradisíaca. Os dois se encararam por alguns segundos. O incrível motorista do Tucson exibiu alguns músculos que eu não sabia que existiam ao apontar para o anãozinho. O motorista do Fiat, que eu vou chamar de Tatu, não se intimidou. Lá de trás eu vi Tatu chutar o pneu do Tucson. O motorista musculoso, que eu vou chamar de Arnold, deu um tapão no capô do Fiat. O pára-choque do Fiat caiu no chão. Tatu ficou furioso. Pulou e arrancou os próprios cabelos, igual àquele pirata ruivo do desenho do Pernalonga. Arnold voltou para o carrão. Tatu foi pegar o para-choque. Arnold engatou uma ré. Tatu tentou acertar a frente do Tucson, mas só pegou de leve. Mesmo assim, a galera vibrou quando o farol de Arnold foi estilhaçado. Tatu brandiu o para-choque por alguns segundos enquanto o Tucson sumia no horizonte. Sob aplausos, Tatu colocou o pára-choque no carro e seguiu caminho. O anãozinho pobre colocou o gigante endinheirado e pilantra para correr. O vira-lata ganhou.
É lógico que não aconteceu assim. Depois que a minha vista turvou, o Arnold enfiou o para-choque cromado na lateral do Fiat 147. Xingou Tatu de filho de uma mãe que faz sexo por dinheiro. Avançou acelerado e impune. Furou a fila e ainda ligou uma buzina ridícula de música para chatear os que ficaram para trás. A maioria dos brasileiros se preocupa demais com o país. Mas um punhado de idiotas não está nem aí. Infelizmente, são esses que mandam. E que não deixam o país melhorar.

Moral da história:
Os vira-latas não ganham. Não adianta ter razão. O mundo é mesmo de quem tem grana.

2 comentários:

Anônimo disse...

Obrigado por Blog intiresny

Anônimo disse...

Obrigado por intiresnuyu iformatsiyu

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