sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Menáge à troís


Nós quatro havíamos escapado juntos do Exército. Éramos maiores de idade e já sabíamos tomar montes de cervejas sem cair no chão ou babar na roupa. Só o Digão, que desde os 15 anos era do mesmo tamanho que o armário da cozinha, ainda não tinha completado a maioridade. Mas em dois meses isso estaria resolvido. Era até um contra-senso, pois o maior de nós, o único que agüentaria porrada para valer, que daria conta de correr 20 km com um fuzil e uma metralhadora nas costas, era justamente o caçula da turma. E também o gigante mais gentil e inofensivo que já passou pela face da terra. Descanse em paz.
Perigoso mesmo era o Jô, todos nós sabíamos. Era o menor, o mais fraco, o mais sacana, o mais irascível e, por tudo isso e menos um pouco, o mais suscetível. Era melindroso como um gambá passeando entre as grades de um canil. O Jô era terrível. Imprevisível. Sabe o baixinho de “Os Bons Companheiros”. O Jô fazia tudo aquilo, mas deixava os sujeitos vivos. Eu o vi enfrentar três caras de uma só vez e levar a melhor. E não é porque lutava bem. É porque lutava sujo, usando dentes, unhas, areia, pau, bengala e cacete: tudo o que a adolescência ainda achava que não podia usar numa briga. Quando o Jô apelava, o melhor era sair de perto. Depois, quando virou adulto, parou de brigar porque percebeu que dali pra frente só encontraria adversários do mesmo nível, que brigariam tão sujo quanto ele. Era parar ou morrer.
O segundo mais perigoso era o Sumbrái. Era o oposto do Jô. Frio. Mau. Cruel. Calculista. Curto. Grosso. Rápido. Direto. Econômico. Desviava de golpes com uma agilidade incrível. Encaixava joelhos e cotovelos como se fosse um ortopedista. Também sabia brigar sujo, mas sem abusar de dedos nos olhos. Ele gostava mesmo era de acertar o pomo de Adão dos oponentes. Nunca perdeu uma briga. Depois, quando virou adulto, parou de brigar porque percebeu que adultos que apanham podem querer se desforrar com armas de fogo. Virou advogado. Depois delegado. Acho que ainda é polícia.
Por último, havia eu. Nunca me saí muito bem em brigas. E se o Jô e o Sumbrái não tivessem me ajudado, acho que não teria sobrevivido. Valeu, amigos.
Nós quatro, portanto, estávamos entrando no mundo adulto com a fantasia acelerada pelo que ouvíamos dos outros caras e até das garotas. Os rumores chegavam distorcidos, exagerados, mas sempre excitantes. Nós queríamos sexo. Heterossexual. E nós também queríamos transar com duas mulheres ao mesmo tempo. Eu gostava de brincar, inclusive, de que esse era o verdadeiro significado da palavra bissexual. Mas queríamos sexo sem pagar. Ninguém tinha grana. Isso deveria significar assexual. Mas nós éramos jovens e não ligávamos para o significado das palavras. Aliás, não ligávamos para muita coisa.
Talvez por isso tenhamos feito a aposta de um engradado de cerveja para o primeiro que transasse com duas mulheres ao mesmo tempo. Teria que ser registrado. Foto. Isso era complicado, porque ninguém tinha câmara. E as câmaras digitais não passavam de minúsculas idéias nas cabeças de japoneses ainda não nascidos.
Ou teria que ser testemunhado. Isso também era complicado porque três testemunhas, um cara e duas garotas entupiriam um quarto comum. Mesmo assim, foi apostado. E aposta séria, com cuspe na mão e tudo. Logo depois que escapamos do Exército. Nós saímos dali, do quartel improvisado no Parque da Cidade e fomos tomar uma cerveja. E lá mesmo, naquele boteco de madeira, numa barraquinha clandestina nas costas do Colégio Santo Antônio, fechamos a aposta.
Nunca soube quem ganhou. Nem mesmo soube se houve um vencedor. Em menos de 3 meses minha vida mudou completamente. Meus três amigos inseparáveis, de vida inteira, sumiram. O gigante se mudou para outra cidade, de repente. Sumbrái entrou para a universidade, ficou importante, desconhecia os conhecidos. E o Jô ficou doente naquele ano. E depois, de seis em seis meses, passava temporadas internadas em sanatórios e hospitais.
Jamais voltei a ter amigos como eles. Nunca mais faria pactos. Mal sabíamos que a nossa geração pegaria tudo pela metade e que aqueles seriam os estertores da revolução sexual. Estávamos em plena ascensão da era da Aids e ainda com vergonha de comprar camisinha na farmácia. Talvez o vencedor tenha sido o Sumbrái. Ele não precisava de testemunhas. Ele não precisava de ninguém.

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