segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Eu voei para Pasargada

Faz um bom tempo que eu não sonho que sei voar. Deve haver uma penca de boas explicações psicológicas para esse tipo de sonho. É complexo de superioridade. É sublimação de complexos. É pura satisfação. É um orgasmo sem ejaculação. Não importa. Seja isso ou seja aquilo, o fato é que faz um bom tempo que não sonho que sei voar.
Acho que todo mundo já teve esse sonho. É um troço bem popular. Basta reparar no número de músicas de sucesso sobre o tema. Ou na quantidade de heróis de quadrinhos, de filmes, e de um monte de ícones da cultura de massa que voam, com ou sem penas. Lembro de uma história em quadrinhos do Laerte, publicada na extinta re vista Circo, que trata do vôo com penas. O personagem principal descobre umas peninhas nascendo nos braços e que pode voar. Faz parte de uma turma que é metida a dona do mundo. Não lembro como termina.
No meu caso, não tem penas. Sonho que, quase do mesmo jeito que Peter Pan, eu preciso pensar numa coisa boa para começar a levitar. É uma coisa boa específica, que sempre funciona. Mas é mais do que uma coisa, um fato. É um sentimento que deve me envolver completa e verdadeiramente para que as engrenagens da levitação comecem a funcionar. É algo muito tênue, específico, como um sabor de vinho gostoso que fique rumorejando no fundo da garganta e você não quer comer mais nada para que aquele gostinho não suma.
E é sensacional saber voar. Começar a levitar devagar, como se fosse homem-balão, com o peso caindo de mim como sacos de areia. Aproximar a cabeça do teto e tocá-lo, de leve, como se fosse um astronauta no vácuo. Aí, sem gravidade, deixar os braços flutuando, tocar os nós dos dedos na luminária. Depois, também devagar, concentrar o pensamento no calcanhar, contrair os músculos da barriga, como se estivesse na piscina, boiar de barriga para baixo.
Só então é que olho para baixo. Vejo a cama, a estante, o armário, o pequeno tapete, o criado-mudo e o telefone de uma nova perspectiva. Em cima da estante, quase alcanço aquela revista que procuro há meses. Pressiono os nós dos dedos contra o teto, sou um homem flutuante. Não é isso que eu quero. Eu quero é voar rápido. Ser veloz. Mas só flutuo. E se não fosse o teto, talvez flutuasse até me perder na atmosfera. No ar rarefeito. Não seria nada bom. No sonho eu penso sobre o que fazer para voar depressa. É um outro sentimento, é uma outra coisa que deve envolver o meu coração. (Continua)

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