terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Inocentes

Meu filho saiu da pequena escola nem tão alternativa assim, que fica a apenas dois minutos e meio daqui de casa. Mas minha filha continua lá. Às seis e meia da manhã, eu e meu filho partimos em missão atravessando a cidade até o Maristinha. São trinta e cinco minutos de percurso com todos os semáforos verdes. Quase sempre pegamos dois sinais fechados, o que aumenta o tempo em cinco minutos. Às sete e dez ainda é possível escolher um lugar para estacionar e acompanhar o menino até o grande portão da escola. Às sete e doze é impossível. Quinhentos automóveis chegam praticamente juntos por volta das sete e quinze, na marca do pênalti para o primeiro sinal. Depois do segundo, nenhuma criança entra em sala de aula. No caminho ultrapassamos e somos ultrapassados por dezenas de automóveis na mesma situação: pais e filhos voando baixo para não chegarem atrasados, desviando de buracos e sacolejando sobre uma pista multi-remendada. O sol está raiando quando estamos na altura do Iate Clube e dos Fuzileiros Navais, olhando para Esplanada dos Ministérios. O céu está sempre esplendoroso e magnífico, com aquarelas inimitáveis, estupefaciantes. Amanhã levarei a câmera para uma foto durante o trajeto.

É lógico que seria muito mais fácil e confortável manter o menino na escola nem tão alternativa assim, mas resolvemos vencer a inércia e decidimos apostar numa escola tradicional, com uma boa estrutura e que tem a fama de possuir e cultivar um bom quadro de professores. Até agora vem dando certo, o menino gostou da mudança e está entusiasmado com o novo colégio. Minha filha, no entanto, resistiu e continua avessa à idéia de mudar de escola. Todos os dias, agora é a mãe que a leva à escolinha. Eu busco. Quando apareço, os antigos colegas de sala do meu filho se juntam no portão da escola para saber notícias do amigo.

_Ele foi pra qual escola?

_Ele está gostando?

_Aposto que ele não está gostando - diz um menino gordinho.

_Ele pode ir lá em casa?

_Aposto que ele não pode mais ir lá em casa.

_Ele ainda lembra de mim?

_Aposto que ele não lembra mais de ninguém.

_Nós estamos torcendo por ele. Tenho certeza de que ele mudou para uma escola legal e que ele deve estar feliz. Eu também estou feliz por ele. Diga que todos nós estamos torcendo por ele.

É lógico que tive que prestar atenção neste último. É um garoto tímido e um pouco franzino, que sempre suspeitei ser possuidor de uma condição especial. Em seus olhos claros é possível ver a inocência em seu estado mais puro. É como Pinóquio pedindo do fundo do coração que a Fada Azul o transforme em menino.

_Aposto que ele deve estar bem infeliz - diz o gordinho.

Eu respondo a um monte de perguntas e levo a minha filha para casa. Somente vinte minutos depois estaremos juntos para a refeição. É uma nova rotina, mas já estamos praticamente adaptados.



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