quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A Arma Zeta IX


_Eu não fico bem de smoking cor-de-rosa - eu disse.

Isso era a mais pura verdade.

Naquele dia conversamos horas e horas. Manoela me contou das suspeitas do trisavô sobre a origem da Arma Zeta. Ela acreditava que o artefato tinha sido mantido por indígenas paraguaios durante centenas de anos até ser encontrado pelo seu parente na prisão, erguida sobre as antigas ruínas de um templo qualquer.

_Meu trisavô escondeu o objeto por achar que era valioso e que poderia ser usado para comprar uma fuga ou algum privilégio na prisão. Mas uma noite, tal como aconteceu com a lâmpada de Aladim, ele descobriu como a arma funcionava. Ele esperou com paciência, treinando o uso da arma todas as noites, sozinho em sua cela. Numa noite de lua cheia, com a ajuda da arma ele construiu um túnel e escapou. Ficou meses perdido na floresta, mas a arma Zeta lhe garantia tudo o que precisava, comida e abrigo, segurança e proteção. Tornou-se amigo de uma tribo de índios esquecidos pelo tempo, que se escondiam numa grande pirâmide escondida na floresta de um pantanal. Virou xamã, mágico e curandeiro, dono de uma grande riqueza em ouro só com os presentes ofertados pelos índios agradecidos. Mas era um homem obcecado pela vingança da traição sofrida dos compatriotas, que o entregaram aos paraguaios só porque o invejavam. Tinha estudado na França e lido "O Conde de Monte Cristo". Planejou a desforra durante anos e quando voltou à Província de São Paulo havia adotado o nome de Edmundo Mondego, porque seria ardiloso como o primeiro e crudelíssimo como o segundo.

_Ué, pensei que seu nome também fosse Alencar - eu disse.

_É Alencar Mondego - ela disse.

Manoela contou como o velho antepassado envolveu almirantes, marechais, coronéis e figuras de patentes menores numa trama que culminou com um terrível massacre oculto da história oficial. Os traidores de Mondego foram degolados por índios fiéis ao xamã durante o último baile da Ilha Fiscal. Depois, sem mencionar como sua trisavó tinha entrado na história, Manoela diz que o trisavô foi brutalmente assassinado por um dos índios, que acabou fugindo para a Europa. Nesse meio tempo, a família perdeu o rastro da arma Zeta, que só foi reencontrada anos depois pelo tio-avô no Monte Castello.

_Depois de três meses de batalha, quando o general Cordeiro de Farias comandou o ataque final, meu tio-avô participou de um grande tiroteio com subordinados do tenente-general von Gablenz no cume do monte, onde havia um ninho de metralhadoras. Um dos alemães estava moribundo, já havia sido atingido diversas vezes, mas continuava a resistir bravamente. As baixas do batalhão brasileiro tinham sido terríveis e continuavam a aumentar. Os homens do pelotão tiraram a sorte e meu tio-avô foi escolhido para seguir sozinho até o atirador numa espécie de missão suicida, para detonar o ninho de metralhadoras. Eles amarraram explosivos em seu peito e o mandaram correr até lá. Meu tio-avô não teve escolha. Mas teve sorte. Ao invés de explodir no meio do caminho, encontrou o ninho de metralhadoras abandonado, com apenas um único alemão, terrivelmente ferido - ela disse.

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