sábado, 12 de maio de 2012

Dia de Judô



Tame Impala - Expectation

Acordamos às seis da manhã neste sábado. Em geral, aos sábados preferimos acordar uma hora mais tarde, mas hoje foi dia de competição no judô. Os professores avisaram que a pesagem começaria às oito horas em ponto e que os atrasos não seriam tolerados. As crianças acreditaram. Nós duvidamos um pouquinho, é claro, nosso nível de organização está um pouco atrasado quando se trata de pontualidade. Basta observar as obras da copa. Todas estão atrasadas, algumas estão muito atrasadas, outras estão muitíssimo atrasadas. As que estão pouco atrasadas entraram em greve, então sabemos que em breve estarão de acordo com o cronograma, meses fora do planejado.

Chegamos ao ginásio da competição com dez minutos de antecedência. A primeira preocupação foi com o pagamento da inscrição na competição: 15 mangos. Esperei trinta e sete minutos numa fila de duas pessoas para resolver essa questão. Eu estava atrás de um sujeito grandalhão, que foi substituído por outro, e mais outro, e mais outro, até eu perder a conta. Quando comecei a ficar impaciente por estar sendo literalmente passado para o fim da fila, um sujeito de dois metros e vinte de altura me pediu muito educadamente para examinar a possibilidade de ceder a minha vez para ele.

_É claro que não - eu disse.

_É rapidinho - ele disse, enquanto me afastava com o mindinho.

A pesagem da turma de seis a sete anos começou cinquenta minutos depois. Minha mulher acompanhou a pesagem da minha filha, num banheiro feminino. Eles são bem científicos quando se trata de pesar crianças, então foi preciso tirar o quimono e a camiseta. Desse jeito, ela conseguiu pesar míseros 23,3 kg. Com o quimono, a faixa azul e os chinelos ela chega a 24.

_Filha, em dias de vento forte vamos precisar de uma botas de chumbo para você - eu disse. Ela não entendeu.

Por volta das nove e cinquenta, começaram a pesar as crianças de oito a nove anos de idade. Meu filho correu logo para o local da pesagem dos meninos: o banheiro masculino do ginásio. Nada contra, estava tudo muito limpo, embora três boxes de chuveiro estivessem com as portas de vidro dependuradas, terrivelmente danificadas. A pesagem teve início com mães e pais dentro do banheiro, o que provocou uma certa confusão com as pessoas que entravam para usar o banheiro para os seus devidos fins. Então os organizadores da competição se lembraram de que talvez fosse bom manter só as crianças dentro do banheiro e um grandalhão comandou a retirada dos parentes berrando do lado de fora. Eu não podia ver quem era, mas o sujeito começou a fazer uma contagem regressiva de dar medo e num instante todos os pais e mães deram o fora. Eu não, fiquei petrificado. Para disfarçar, fingi que era um cabide segurando quimono, faixa e chinelos feito um espantalho, mas não deu certo.

_Olha só quem está aqui, o sujeitinho que diz não - disse o grandalhão.

_Sim, quero dizer, não está mais aqui quem falou - eu disse, e também dei o fora.

O ritual da pesagem demorou cerca de trinta segundos. Meu filho está com nove anos e pesa 27,29 kg sem o quimono, a faixa e os chinelos. Ele ficou só com um calção grande para a pesagem, então ele deve estar com 27 quilos líquidos.

_Filho, em dias de vento forte vai ser melhor você usar uma corda grande como cinto - eu disse. Ele não entendeu.

Quando estávamos saindo, chegaram minha cunhada, marido e o casal de filhos para a pesagem. Olhei no relógio e eles estavam com pelo menos duas horas de sono bem dormidos na minha frente. Raios.

Com as crianças devidamente pesadas, só nos restava esperar as competições. Elas começaram pontualmente às 10 e 30. Minha filha ganhou duas e perdeu uma. Lutou com bravura. Mas queria a medalha de ouro e chorou um bocado quando perdeu. Ficou inconsolável na premiação e só se acalmou depois que fomos beber água no bebedouro.

_Filha, no judô não tem empate - eu disse.

_Eu sei, paiê, mas eu queria muito ganhar a medalha de ouro - ela disse.

_O que importa é lutar com vontade de vencer, respeitando o adversário. E além disso, não é ouro de verdade, é só dourado - eu disse.

_Sério?!

_Hum-hum.

_E a de prata? É de verdade?

_Não, é só metal prateado.

Tive medo de ter dinamitado o espírito competitivo da menina, mas em seguida ocorreu a luta da prima, de oito anos de idade. É uma das meninas mais valentes que eu já vi. É pequenina e leve e enfrentou adversárias bem mais altas e pesadas. Foi combativa e resistiu bravamente, mas não conseguiu nenhuma vitória. Torcemos feito loucos, com berros e assobios, e quando tudo acabou minha filha foi correndo abraçar a prima, que também chorava desconsoladamente. Enfrentamos então um longo período de espera para a luta do meu filho. Há um grande número de meninos e meninas entre oito e nove anos fazendo judô e participando de competições. Contei mais de 80. Eles entraram em formação pela quadra e fizeram aquecimento juntos, um belo espetáculo. Foram distribuídos pelas quadras e então as lutas começaram. Por volta de meio-dia meu filho lutou a sua primeira. Durou mais ou menos uns sessenta segundos. O outro garoto simplesmente lhe deu um puxão forte e o jogou no chão, caindo em cima para imobilização. Ele ficou chateado e fez força para não chorar de raiva e frustração. Conseguiu se conter e só isso já valeu ter acordado às seis da manhã de sábado. A segunda luta durou alguns segundos a mais, mas ele se superou em contenção de choro e cara triste, caminhando com resolução para a área de concentração. Esperamos longamente por uma terceira luta, mas acho que os segundos de resistência contaram pontos e ele não ficou em último lugar na bateria. Fomos correndo buscar a medalha de bronze e num instante ele estava animado e sorridente.

As lutas do meu sobrinho ocorreram quase uma hora depois. Ele começou com uma derrota, mas não desanimou e lutou muito bem a segunda luta, com uma vitória sensacional. Mais uma vez esperamos longamente a terceira luta. Era uma da tarde quando os organizadores anunciaram que o seu adversário já havia perdido duas lutas e que, portanto, ele já estava em terceiro lugar na bateria. Famintos, batemos em retirada até o restaurante mais próximo.



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