quarta-feira, 30 de maio de 2012

Canseira

Um dos heróis da minha infância foi o Didi, dos Trapalhões. Eu sabia aquele nome inteiro do personagem do Renato Aragão. Eu o imitava dizendo ei, psit e ô da poltrona. Eu também deixava as coisas cair no chão para falar com alguém sobre alguma coisa que ninguém mais poderia ouvir, mas que todos poderiam escutar. Eu também queria me dar bem no final de todas as piadas.

Didi foi provavelmente o sujeito que arrancou minhas mais sinceras risadas infantis. Mais do que Jô Soares. Mais do que Chico Anysio. Mais do que o Trinity de Terence Hill e Bud Spencer. Mais que Jerry Lewis. Mais do que Chaplin e qualquer outro comediante do cinema e da TV. Didi e os Trapalhões foram os campeões que forjaram o meu senso de humor durante o final da infância e da adolescência.

Didi era a encarnação do Jeca na cidade, era o Malasarte com tiradas desmoralizantes: Audácia da pirombeta! Machucou, Santa! Hum, mas que rapaz feliz! Didi foi um dos poucos sujeitos que conseguiu me deixar bem humorado e predisposto ao riso durante um período de pelo menos seis anos. Mas um dia aquele humor simplório deixou de me agradar. E pior, muitas vezes comecei a achar o personagem chato e grosseiro. Didi deixou de ser um campeão do riso para mim. Ficou sem graça. Não era culpa do Renato Aragão. Ele ainda conseguia fazer muita gente rir. Era o personagem Didi que havia se esgotado para mim, só isso. Eu me cansei das imitações. Daquela coisa boba de pegar um lápis e jogar no chão, ao lado do sujeito, dizendo "Caiu aqui, caiu aqui". Parei de rir daquela coisa de fazer o Dedé de bobo, quando ainda havia Dedé no programa, antes do alcoolismo e da redenção religiosa. Cansei de ver o Didi derrubar a peruca do Zacarias ou esconder a garrafa de cachaça do Mussum.

Talvez aquilo tudo estivesse mesmo datado e pronto para ser superado. Didi, o Malasarte nordestino, retirante com resposta pra tudo e muita ginga para vencer qualquer um, inclusive os ricos e poderosos. Dedé, a escada pronta para ser pisada, o auxiliar direto da maioria das piadas. Mussum, o bêbado incorrigível e feliz. Zacarias, o maricas com o coração de ouro.

Acho que isso também aconteceu com o próprio Renato Aragão. Cansou do personagem.

Coloco o ex-presidente na mesma categoria dos humoristas superados. Há anos me cansei do seu lero-lero e das suas bazófias, simplesmente não tenho mais paciência para suas futricas e baixarias. Vejo com preocupação que ainda recebe muito apoio. Mas depois fico observando melhor e vejo nas declarações de muita gente aquele quê de tolerância que costumamos reservar para alguns coitados. Acho que ele sempre se aproveitou disso.






Um comentário:

Paulo Bono disse...

Gostei pra caralho desse texto, carecone.
E sim, eu tb curtia Didi. Mas hoje, coloco Renato Aragão numa dessas unanimidades do bem, chatas e hipócritas do Brasil e da Globo, como Xuxa, Pelé e Ronaldo. Mas ainda assim, o respeito pela minha infância.

abraço

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