domingo, 20 de maio de 2012

Cena de um filme



Etta James - Damn your eyes

Nesse filme que eu vi de madrugada tinha uma cena legal e chocante. É um filme meio do tipo que você já viu, com um cara muito calado, mas que é do bem. A partir da primeira cena você já sabe que o cara é do bem, é o mocinho. Ele tem a postura e os sapatos certos, não importa. Você sabe que provavelmente ele não irá morrer, não no início, pelo menos. Talvez seja o olhar, não sei. Você olha para o sujeito e já sabe que ele carrega um grande segredo e que pode ser violento e imprevisível. Talvez eu também queira ser assim, talvez eu queira confiar no meu instinto como aquele cara do filme. Pode ser que seja isso que me faça de alguma maneira me identificar com o personagem, que me faça gostar dele. E há também a mocinha, a heroína. Ela usa cabelo curto, chanel, é loira e tem um sorriso enorme e maravilhoso. É linda, frágil, carente e tímida. Eu gosto dela e a acho atraente desde a primeira cena. Talvez os estúdios de cinema façam pesquisas para descobrir o que os homens acham de mulheres de cabelos curtos. Ou talvez sejam os olhos dessa atriz. Ou a boca. Não sei. O que importa é que desde a primeira cena você sabe que os dois vão se apaixonar. E este não é um filme romântico, é um filme sobre bandidos, com tiros, lutas, violência e perseguições de carros. Mas você sabe também que é em filmes assim que as cenas românticas são mais românticas.

A cena legal e chocante acontece dentro de um elevador. Eles estão conversando no corredor do prédio onde moram. O filme já passou da metade e caminha para um final com muita ação, você sabe que a qualquer momento as cenas de grande impacto vão começar. Os dois estão saindo e a verdade é que tudo está desmoronando nesse momento do filme, os dois já sabem que não vão ter a chance de ficarem juntos e que qualquer esperança de final feliz está descartada. É sobre isso que conversam no corredor. É tudo impossível, é o fim, mas ainda não querem desistir, não aceitam a separação. Bom, talvez ele aceite, mas não quer dar o braço a torcer. Ela ainda está aturdida, são muitas notícias ruins, talvez não entenda direito o que aconteceu.

E o que acontece é que o elevador acaba de chegar e há um homem dentro dele. Está de chapéu e terno. É um matador e veio matar a mulher de cabelo curto. Ele pergunta qual é o andar e o mocinho sabe que ele é um assassino desde o primeiro instante. Mas a mulher de cabelo chanel não tem essas manhas, ela entra no elevador e aí o mocinho também entra. Então estão os três dentro do elevador. O casal que sabe que não tem mais um futuro e o matador. O elevador está subindo ou descendo, mas já não importa porque agora a câmara está no nível dos olhos de cada um dos três. E você vê que o matador está escolhendo o melhor momento para sacar a arma e matar a dupla de amantes. E também que o mocinho já viu a arma do bandido e está pensando no que vai fazer quando o sujeito sacar a arma. A mulher de cabelos curtos não parece saber ou se importar se a sua vida está em perigo. De qualquer forma, ela não está bem, está desconsolada. É então que acontece o beijo.

A cena é feita em câmara lenta. O mocinho está à esquerda, a mulher de cabelos curtos está ao centro, colada na parede de fundo do elevador. O bandido está à direita, na mesma linha do mocinho. O herói estica o braço esquerdo e puxa a mulher para as suas costas, gira e a beija longamente. É o primeiro e único beijo dos dois. O beijo termina quando o elevador chega ao térreo e é nesse instante que o bandido saca a sua arma. Rapidamente, o mocinho o derruba no chão do elevador e o mata a chutes ali mesmo, como se pisoteasse uma barata, sem a menor piedade. A mulher de cabelos curtos está fora do elevador os dois se olham. Ela está chocada, horrorizada e ao mesmo tempo feliz por estar viva. Os dois se olham e a porta do elevador se fecha.

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