quarta-feira, 5 de março de 2014

A arma Zeta 04 de março

Na quarta-feira de cinzas, o enterro do meu primo Vini foi rápido. Não havia quase ninguém. Os dois coveiros fizeram um serviço displicente. Nos filmes nós vemos os americanos em ternos e vestidos impecáveis, as covas geometricamente abertas em gramados perfeitos, se despedindo dos falecidos com elegância e sobriedade. Não se vê barro e lama, há orações e música da melhor qualidade. Nada poderia ser mais contrastante com nossa realidade. Por aqui os coveiros espalham terra para todo lado, o caixão fica imundo antes de descer à cova, não existe um lugar para se pisar que não seja grudento. As pessoas em suas roupas de supermercado se despedaçam em lágrimas e desespero. Berram súplicas desesperadas em direção ao céu.

Eu fitava os pombos entre os túmulos. Ninguém sabe quem inventou o conceito de síndrome do pombo enxadrista. O que não diminui a genialidade embutida nessa definição. De acordo com essa situação hipotética, discutir com algumas pessoas é como jogar xadrez com um pombo. A ave derruba e espalha as peças do jogo, defeca no tabuleiro e estraga a partida. No final, o pombo ainda sai cantando vitória, aos arrulhos, com o peito estufado. Rru, rru.

Eu era um pombo quando discutia com Manoela. Mesmo assim, ela sempre conseguia me convencer do que dizia. Eu fazia tudo o que ela queria. Eu era o pombo enxadrista que perdia todas. Ou talvez estivesse vendo as coisas sob um prisma errado. Quem poderia saber como seria uma partida de xadrez entre dois pombos?

Os coveiros terminaram o serviço e saíram lentamente arrastando as pás. Ao olhar para um canto mais distante de onde estávamos, julguei ter visto Manoela fantasiada de índia. Os coveiros desapareceram. Manoela ria de mim e apontava a arma Zeta para onde eu estava. Uma a uma, todas as pessoas presentes ao enterro viraram fumaça, até que só restaram pequenos montinhos de roupas e eu.






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