terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Em busca de um colchão



PM DAWN - GOT ME FLOATIN

Eu e a minha mulher passamos as tardes dos últimos dias visitando lojas à procura de colchões novos para crianças. Fomos numas vinte lojas e ouvimos pelos menos vinte e um vendedores. Sim, numa loja conversamos com dois vendedores, um se cansou logo da gente. Numa das primeiras lojas, quando ainda prestávamos atenção, a vendedora foi bem instrutiva ao nos dar uma aula sobre o tempo de vida dos colchões.

_Agora o tempo de vida estabelecido pela ABNT é de cinco anos - disse a vendedora.

_Como assim? Lá em casa o colchão já tem mais de dez anos e está novinho - disse a minha mulher, que me deu uma olhada que significa "você não vai falar nada?".

_É. Novinho - eu disse.

É bem mais forte do que eu, não tem jeito. Todas as vezes que minha mulher joga esse olhar de "você não vai falar nada?" para cima de mim eu me transformo num eco humano. É como se eu entrasse no "modus operandi coadjuvante", onde tudo o que eu preciso fazer é sorrir nas horas certas e repetir a última palavra, à la Barbosa.

_Acredito, acredito - disse a vendedora. E sorriu para pegar fôlego.

_Lá em casa o colchão também tinha mais de dez anos. Mas desde que eu me tornei vendedora de colchões, troco o colchão de cinco em cinco anos e vale a pena, não me arrependo. Já visitei fábricas e mais fábricas, sei como são feitos e já vi como fica, pelo lado de dentro, um colchão com mais de dez anos. É pior do que aquelas fotos que colocam em maço de cigarros. É um horror - disse a vendedora.

Ela falou da cor e dos cheiros do colchão com mais de dez anos. Minha mulher ficou impressionada com a descrição. Então ela começou a enfatizar as qualidades dos colchões novos e do tanto que os colchões velhos favorecem o aparecimento de alergias, especialmente em crianças e casais jovens.

_Nossa! - disse a minha mulher. E me olhou de novo com aquele olhar.

_Ssa! - eu disse.

_Acho que também vamos ter que comprar um colchão novo - disse a minha mulher.

_Novo?! - eu disse.

_É, o colchão da gente já tem mais de dez anos - disse a minha mulher.

_Mas está novinho, a Rose vira de seis em seis meses - eu disse.

_É, eu também fazia isso, mas não adianta nada, vai por mim. Por dentro, é um horror - disse a vendedora.

_Horror - dissemos eu e a minha mulher.

Excelente vendedora. Ela nos deu o maior susto e nos convenceu de que realmente precisávamos de colchões novos. O único problema é que nos convenceu bem demais e decidimos no ato que os colchões deveriam ser para pronta entrega. Na verdade, ficamos tão impressionados que se a loja tivesse pelo menos um colchão disponível teríamos saído com ele, eu mesmo carregaria. Mas o melhor que ela poderia fazer era nos entregar em 45 dias, e nesse tempo o mundo dá muitas voltas.

Ao sairmos da loja os efeitos persuasivos da vendedora começaram a se dissipar e nós fomos recuperando a consciência, aos poucos. A nossa educação sobre colchões foi se formando rapidamente, e nos últimos cinco vendedores, já sabíamos das vantagens e desvantagens de um monte de colchões que estão no mercado.

Então eu me lembrei de uma vez que saí com minha mãe para comprar um colchão novo para mim. Na época, eles recomendavam um colchão que tinha uma tábua sobre espumas e molas. Era duro pacas o colchão recomendado. E também muito caro. Mas era muito bom para a coluna, a formação moral e cívica e bem-estar social do jovem que dormisse sobre ele. Minha mãe ouviu aquela arenga sobre o colchão e acreditou. Acabou encontrando um mais em conta e, como resultado, dormi sobre uma placa dura de madeira do final da infância até o início da vida adulta. Então eu contei essa historinha para a minha mulher, sugerindo que talvez essa história de tempo de vida não fosse bem assim e no final que talvez fosse melhor a gente manter o colchão grande e comprar só os novos para as crianças.

_É claro, estamos em contenção de despesas nível cinco alerta vermelho - disse a minha mulher.

Na tarde de ontem, resolvemos dar um tempo de ver colchões, até porque é muito chato ficar ouvindo aquela arenga sobre tempo de vida, conforto, alergia, qualidade, espuma, mola coberta e o escambau. Fomos ao cinema ver "O espião que sabia demais". Então, ó minha kombi de leitores, nós cronometramos direitinho e conseguimos chegar no shopping vinte minutos antes da fita começar a rodar. Por isso, resolvemos passear um pouco antes de comprar as entradas e as pipocas. Foi então que vimos ali, na área de saldão dessa loja, um colchão igual ao que a gente queria para uma das crianças com um megadesconto, pronta entrega e limpinho. Eu mesmo carreguei até o carro. Quase perdemos o filme, mas valeu, metade do problema já está resolvido.

Pelo menos era o que eu achava até acordar na manhã de hoje como se não tivesse dormido direito, até porque não dormi. A verdade é que não consegui deixar de pensar no que a vendedora falou sobre o interior dos colchões de mais de dez anos, sobre o horror e tudo mais e tive um pesadelo. Nele, eu demorava a descobrir que durante anos dormi sobre um colchão velhaco, que me roubava os meus mais belos sonhos, além de servir de criadouro de ácaros e outros bichos microscópicos comedores de pele e me fazer espirrar. Mas nem adianta sonhar com um colchão novo. Afinal, estamos em contenção de despesas nível cinco alerta vermelho.

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