quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Carta nada exemplar para o meu sobrinho

Querido Sobrinho,
Você é uma espécie de herói lá em casa. Não é uma coisa que acontece naturalmente, você sabe. Os heróis têm que batalhar muito, é dureza. Você é o sobrinho mais velho, o primo mais experiente, maior e mais forte. E as coisas acontecem primeiro com você. Isso começou, eu acho, com as fraldas. Você foi o primeiro a usar fraldas descartáveis na família. E também o primeiro a deixar as fraldas. O que foi ótimo. Seu tio demorou muito mais tempo com as fraldas, pelo menos dois anos a mais. Você também foi o primeiro a ganhar aquela famosa bola que faz barulho de presente. Você sabe, aquela bola maluca. Ela solta uns barulhos esquisitos quando muda de posição. E ela sempre muda de posição. Parece o anúncio de uma invasão planetária, a explosão de um sapo reclamando. Você foi o primeiro bebê da família a ganhar aquela bola. E também foi o primeiro a fazer todo mundo enjoar dela, em menos de uma hora. Felizmente, eu mandei a bola para o seu tio, que a enterrou no quintal.

Isso aconteceu mais vezes, esse pioneirismo. O lance das fraldas, por exemplo, foi bem interessante. Sua mãe, que é minha irmã, a pretexto de ensinar aos irmãos as coisas que todos nós deveríamos saber, fez questão que trocássemos pelo menos uma fralda sua. Pra valer. Com conteúdo. A experiência foi muito gratificante. E, sem dúvida nenhuma, me inspirou a demorar a ter filhos. O que foi um erro. Eu deveria ter iniciado logo a minha produção de filhos e feito a sua mãe trocar pelo menos umas dez fraldas, com conteúdo, em represália. Hoje tenho uma saudade danada dos tempos dos bebês. Você mesmo era um bebê muito bacana, gostava de morder o dedão do próprio pé. Era muito inspirador. Seu tio também gostava de morder o dedão do pé, dos outros.

Você é o sobrinho mais velho, o primeiro, o exemplo. Embora não tenha pedido para ser o exemplo, você não tem fugido dessa responsabilidade, o que é ótimo. E tem se saído super-bem, o que é melhor ainda. Você é um bom exemplo. Seu tio, para citar um outro tipo de exemplo, sempre foi mais refratário a enfrentar corajosamente as situações. Talvez isso tenha acontecido porque nós gostávamos de deixá-lo um pouco confuso. Era fácil, muito fácil.

_Foi você! – a gente dizia para seu tio.
_Eu? Eu o quê? – ele perguntava, aturdido.
_Nem vem dar uma de santo, foi você! Foi sim! – a gente insistia. E depois de algum tempo, nós o convencíamos de que havia sido mesmo ele. Qualquer coisa. Era fácil, muito fácil. Teve também uma época em que a gente o convencia de que além de adotado, ele, na verdade, era ela.

_Sim, você é uma menina. Vá pegar a sua boneca. Por quê está sem o vestidinho cor-de-rosa? Como andam as aulas de balé? E esse cabelo? Vem cá, deixa eu fazer uma trança.

É difícil ser exemplar. Todo mundo presta muita atenção, não se pode enfiar o dedo no nariz, coçar alguns lugares. É um saco, às vezes. O mais chato de ser “exemplo” é também o mais legal. Você tem imitadores. Seguidores. Exerce uma liderança. Influência. E você tem sido uma influência positiva. Mas tudo isso também pode ser bastante embaraçoso se você não estiver a fim de ser imitado, ou se não quiser influenciar ninguém. É verdade. Mas ninguém tem muita certeza de nada. Às vezes é bom ter dúvidas. Dívidas, não. Encontramos respostas a vida inteira. O difícil é entender as perguntas.

Bom, nós amamos você. Continue a fazer coisas boas. Você é do bem.
(Entregue ao meu sobrinho em setembro de 2009)

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