terça-feira, 11 de setembro de 2012

Maguila



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Houve uma época em que torci para o Maguila. Eu acompanhei a carreira dele meio de longe e caí na propaganda enganosa da tv. O cara era porteiro de boate, tinha treinado duro e andava ganhando todas as lutas que arrumavam para ele. Algumas vitórias foram bem doloridas, com o nosso campeão trocando pernas e ganhando por pontos. Ele também tinha umas duas ou três derrotas na carteira. Mas o meu afã de torcedor era cego para esses detalhes toscos. Eu acreditava que Maguila era o campeão do povo, um sujeito que havía superado todas as adversidades na marra e, contra tudo e contra todos, na porrada, ia mostrar todo o valor da raça brasileira.

Eu torcia de verdade para o Maguila. E não era só eu. Os caras na TV devem ter sentido que era importante aproveitar aquele histórico momento de cegueira coletiva. Acertaram umas lutas com uns argentinos e mexicanos, o queixo agüentou as porradas com dignidade e acertou alguns golpes. Ganhou, deu sorte, não sei. Da noite para o dia, Maguila virou ídolo nacional, era a pátria de luvas e calção samba canção. E de alguma maneira inexplicável, a cegueira coletiva se expandiu e ultrapassou a barreira dos 200 km da costa.

Os caras da TV conseguiram emplacar nosso porteiro pancador além da sul-américa. Mas sabiam que lá não basta parecer campeão, tem que matar a cobra e mostrar o pau. Os caras da TV disseram então que suas vitórias haviam chamado a atenção dos técnicos do box internacional. Falaram que houve uma disputa(?!) entre eles e o baixinho Ângelo Dundee, que havia sido o treinador do incomparável Muhammad Ali resolveu tutelar o fenômeno sul-americano. O agente vivaldino de Mike Tyson, que diziam ser o Midas do Box, também entrou na jogada. Das boates brasileiras para o ringue do estrelato, uau. Com seu novo treinador de campeões e seu agente sem escrúpulos, Maguila alcançava a condição de lutador de calibre e fibra e se preparava para conquistar o título mundial. Eu e milhares, talvez milhões, tínhamos sonhos de grandeza: um brasileiro campeão do mundo de pesos-pesados. Rá, moleque.

No Brasil, a galera ia ao delírio. Todo mundo fazia troça do QI do Maguilla, mas o delírio coletivo continuava. Era o operário do Box. O lutador que havia treinado na base da estiva, carregando sacos de cimento, socando calça jeans com argamassa de obra. Maguila subia, lutando com os gringos. Muita gente, inclusive eu, acreditava que a conquista do título era uma possibilidade. O delírio fervilhava. Em 1989, Adilson Maguila Rodrigues era o segundo no ranking da WBC. Evander Holyfield era o primeiro. Quem vencesse teria o direito de desafiar Mike Tyson pelo titulo dos pesos pesados das 3 principais entidades do boxe. Tyson! O lutador fenomenal que conquistou o título aos vinte anos de idade! Rá, moleque.

Não lembro onde estava durante a luta. Não lembro mais do horário em que a luta foi exibida. Não me lembro se assisti só ou acompanhado. Mas eu me lembro de comparar brasileiro e americano no ringue. Nosso campeão parecia flácido e franzino perto do musculoso e elástico Holyfield. Maguila usava um bigodinho de cantor de forró de sacanagem. Ele ta de olho é na butique dela. Ele ta de olho é na butique dela, eu pensava, vendo a luta. Até do que eu pensava, eu lembro, mas não lembro da luta. Só das duas fenomenais pancadas que derrubaram Maguila. Ver o replay dos socos e da queda do boxeador só serviu para ampliar uma das mais terríveis sensações de vergonha que senti na minha vida. Maguila não sofreu apenas um nocaute, foi um blecaute com apagão duplo carpado, as pernas tremendo, seu corpo chacoalhando como se estivesse em convulsão, alguém enfiando os dedos em sua boca para evitar que sufocasse com o protetor dos dentes. Morria ali, soterrado pela vergonha, a pretensão de ter um compatriota campeão mundial dos pesos-pesados.

Acho que Maguila era sincero, ele também acreditou que era possível ser campeão. Ainda lutou contra George Foreman(não vi)e perdeu a chance de virar nome de grill. Dizem que foi um inocente útil e que chegou onde nenhum outro lutador brasileiro chegou, na categoria peso-pesado. Para mim, não importa. Sempre lembro do Maguila quando sinto um frio na barriga e uma vergonha infinita, quando parece que estou perto demais de ser nocauteado por alguém que,sem dúvida nenhuma, está bem mais preparado para essa luta do que eu.

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