domingo, 10 de julho de 2011

O livro na gaveta

Estou com um livro de contos do Norman Mailer na minha gaveta. Chama-se "A Maior Coisa do Mundo". Comprei há muitos anos, quando ainda morava no apartamento junto com os meus pais. Naquela época eu podia ver um sebo de livros da janela do meu quarto. O sebo era um dos meus lugares prediletos. Ia tantas vezes lá que sabia onde estavam os melhores livros. Na verdade eu vivia escondendo livros que eu queria comprar, mas não tinha grana, em prateleiras diferentes.

Esse livro de contos foi um desses livros. Escrito à lápis, no canto direito da primeira página, está a sigla MX. Por cima está escrito 1,5. Devo ter ficado umas duas semanas mudando esse livro de lugar no sebo. Economizava a mesada para comprar cada livro da minha estante. Às vezes pedia para levar fiado e depois acertava com um sujeito que trabalhava no sebo. Mas isso não era frequente. O sujeito era muito mal-encarado. Usava barba e fumava feito louco. Naquele tempo ninguém se importava com fumaça dentro de loja.

Por quê eu escondia o livro em outras estantes temáticas dentro do sebo? Ora, outros malucos também frequentavam muito o local. Tinha o Mauro, que sempre entrava na loja de casaco, fizesse sol ou chuva. Ele acreditava que ninguém percebia seus furtos de livros. Felizmente ele gostava de livros de História, especialmente da II Gerra Mundial. Tinha o Estevão, que era viciado em livros de xadrez. Honesto, Estevão pechinchava centavos. Havia ainda o Tonho, que era metido a filósofo e o mais perigoso de todos, o Humberto.

Esse Humberto era um grandalhão que andava de boina. O cara era um rato de sebo, com interesses variados, mas gostava muito de literatura norte-americana. Ora, eu também adoro. Então eu escondia o Norman Mailer nas outras estantes. Lembro que enfiei esse livro na estante dos livros de xadrez. Dei azar. O Estevão, honestíssimo, localizou o exemplar e o levou para o balcão. O barbudo fumante o recolocou na estante da literatura norte-americana.

No dia seguinte, procurei o Norman Mailer na estante dos livros de xadrez e nada. Demorei duas visitas ao sebo para tornar a localizá-lo na estante de origem. Já havia até desistido, imaginando que o Humberto tivesse levado o livro. Mas continuava sem grana, tive que escondê-lo novamente. Então eu o levei para a estante de História. O Mauro era um larápio furtivo, mas não iria levar um livro de contos para casa debaixo do casaco. O negócio dele eram os livros sobre Himmler, Goebbels e a frente russa.

Uns dias depois, com checagem do exemplar quase diária, eu finalmente estava com os 1,5 ou MX para comprar o livro. Corro ao sebo e quase piro. O Humberto está no balcão, com o livro na mão, conversando com o barbudo fumante.

_...com a capa muito suja. Não tem outro? - disse o Humberto.

_Está muito boa essa capa. E não, não tem outro. É pegar ou largar - disse o balconista barbudo e fumante.

_Então eu largo - disse o Humberto.

E deixou o livro em cima do balcão. Refugiado na estante dos livros de xadrez observei a saída triunfal do Humberto e o balconista recolocar o livro de contos de Norman Mailer na estante correta. Depois que fez isso, ele me olhou e sorriu com o cigarro na boca.

Naquele dia eu acabei comprando um excelente livro em espanhol sobre aberturas de xadrez e uso de cavalos. Só comprei o livro do Norman Mailer uma ou duas semanas depois.

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