Frase do dia


segunda-feira, 13 de julho de 2009

Pássaros na cabeça




Teve uma época em que vivia desenhando cabeças com pássaros, como essa. Depois, enjoei da idéia.

sábado, 11 de julho de 2009

Ao vencedor, as buzinas II

Ali, na lojinha, uma multidão de sujeitos de capacetes, luvas, óculos escuros e tênis especiais foram se juntando dentro da loja para acompanhar, ao vivo, o grande prêmio de ciclismo da França ou seja lá o que fosse aquilo. Isso também complicou a aquisição da bicicleta da minha filha, porque o dono da loja era um torcedor fanático de alguém chamado Latour, ou Latourfe, não entendi direito. Então a coisa ficava assim:
_Vai Latour! E o CPF?
_Meu?
_Latour!Latourfe, cést lê melhér! É o seu.
_Meu o quê?
_CPF! Latour, olha a frente!É à vista?
_Já falei o CPF.
_Pode repetir? Latour, Latourfe! Vai! Pode?
E assim por diante. Demoramos duas horas para adquirir a primeira bicicleta. E isso só ocorreu porque a corrida acabou e a malta de ciclistas torcedores saiu da loja. Afinal de contas, estava ficando tarde e a turma da bicicleta gosta muito de pedalar ao sol. Quando estávamos saindo, minha mulher fez uma pergunta ao vendedor.
_Cadê a fita que parece o cinto de segurança da cadeira de boneca?
_Não tem isso, senhora.
_Tem, sim. Pega lá o manual que eu mostro.
E lá se foi o vendedor e dono da loja a buscar o manual. Ele não sabia com quem estava se metendo. Minha mulher desenvolveu naquele coitado os famosos golpes secretos ninjas que humilham o oponente, derrubam o moral e fazem o ser humano desejar ser um mero roedor de queijo. Basta dizer que, no final, ele pediu desculpas balbuciantes e babuínas sob o olhar triunfante da minha mulher e da minha filha. As duas sabiam tudo o que havia na bicicleta, no manual e na caixa do manual e da bicicleta.
Já eram onze e meia e quando eu achava que tudo estava resolvido, minha filha faz uma pergunta ao vendedor.
_Não tem buzina?
Dessa vez, já vacinado, o vendedor e dono da loja correu a buscar uma buzina linda, colorida e bem feminina na prateleira da loja. Custava uma grana, a danada da buzina.
_É um brinde.
Ao vencedor, as buzinas, eu pensei comigo mesmo. Mal sabia eu que ainda era muito cedo para cantar vitória, embora já fosse tarde pra dedéu. Na verdade, já havia meia hora que a luz do sol já não era recomendável para camelos e beduínos e eu não havia saído de boné. Mesmo assim, enfrentando os riscos de uma insolação, resolvemos estender os trabalhos até a próxima loja de bicicletas, onde já havíamos feito o mapeamento do terreno e descoberto uma bicicleta considerada perfeita para o meu filho.
Felizmente, eu pensei, as duas horas de aprendizado intensivo de como funcionam as lojas de bicicletas já haviam me preparado para o que me aguardava.
_Vou querer aquela aro 20 ali, para o meu filho. Nem precisa embrulhar, nem nada. Ele vai pedalar daqui pra casa. Vou pagar em três vezes neste cartão e aqui está a minha carteira de motorista com o meu endereço, identidade e todas as informações necessárias.
_E qual é mesmo o seu CPF, senhor?
Mas antes que eu respondesse, escutei as vozes atrás de mim.
_Ei, você tem capacete cor-de-rosa?
_Tem câmbio shimano?
_Freios...

Ao vencedor, as buzinas I

Ao vencedor, as buzinas I

As crianças esperaram quase trinta dias pela manhã deste sábado. E ele nasceu perfeito. O sol brilhou, o céu estava azul e com nuvens, os passarinhos cantavam e os Secos e Molhados cantavam na minha cabeça (Leve, como leve pluma, leve e pousa...). Maravilha, nós fomos comprar as bicicletas novas. Fomos a pé, é lógico. O plano era comprar as bicicletas previamente examinadas, cheiradas, observadas, testadas, sentadas e namoradas e voltar para casa a pedalar. E assim foi feito. Mas não exatamente como o planejado.

Acontece que não é possível alguma coisa sair como o planejado numa loja de bicicletas. Isso é dessa maneira porque não existe nada mais amador do que o mais profissional dos lojistas de bicicletas. Isso é lógico, para começar, porque se o cara fosse realmente um profissional, ele estaria vendendo veículos de verdade. Não que os caras das lojas de carros sejam o supra-sumo do glacê do marrom-glacê. Eles não são. Mas os vendedores de automóveis, na maioria das vezes, se concentram numa única venda. Numa loja de bicicletas, isso não acontece.Os vendedores ficam atrás do balcão. É atendido primeiro quem tem a venda mais rápida e ao alcance da mão. Como resultado, você espera muito e é mal-atendido ao mesmo tempo. Foi mais ou menos assim que aconteceu.

Entramos na loja confiantes, já havíamos localizado a primeira das bicicletas a serem adquiridos na manhã de sábado. Uma bela bicicleta aro 16, com rodas, cor-de-rosa com lilás, com cesto à frente e banco para boneca atrás. Minha filha, de quatro anos, já havia definido que aquela era a bicicleta dela há muito tempo, então não tivemos nenhum problema de indecisão. Enquanto minha mulher perscrutava a bicicleta em busca dos detalhes perdidos, eu iniciava via crucis do pagamento. É que não basta estar disposto a pagar numa loja de bicicletas. Você tem que esperar para o sujeito do caixa parar de atender qualquer pessoa que chega.
_Qual é o seu nome, senhor? – perguntou o sujeito no caixa, com pinta de dono da loja.
_Meu nome é .... – comecei.
_Desculpe, o senhor vai querer uma câmara de ar? – perguntou o mesmo cara.
_Não, eu vou levar...- eu dizia.
_Não, senhor, é com o senhor atrás do senhor, quer uma câmara? Ah, uma bomba de ar?
_Ei, você tem capacete cor-de-rosa? – disse uma mulher com algum excesso de peso que também surgiu de repente no balcão.
_Tem rodinha avulsa? – disse um sujeito com uma barriga maior do que a minha.
_Claro, o capacete é da Hello, Kitty? E o seu CPF?
_O meu CPF é...
_Não, não é o seu CPF, é o da senhora do capacete.
_Eu também quero um capacete.
_Tem câmbio?
_É shimano? Mas o dólar voltou a subir, então está mais caro.
_Você consertam corrente quebrada?
_Depende. Olha, ainda tem da Hello Kitty, vai querer?
_Nãum, da Hello Kitty não quero. Tem da
Para resumir, levei cerca de quarenta minutos para que o dono da loja preenchesse meu cadastro com nome, telefone, endereço, identidade, cpf e número de série da bicicleta. Essa última informação, sozinha, levou vinte minutos para ser obtida, porque a toda hora chegava um freguês novo na loja. E eram sempre coisas mais importantes: regulagem de freios, ajuste da pressão de pneus, uma capa de banco nova, dois pitos de pneus, uma garrafinha dágua que precisou ser substituída e um cara que queria ver quem tinha levado a volta da França. Aliás, eu nem sabia que as provas de ciclismo tinham tantos fãs na pátria amada. Mas aparentemente, em qualquer assunto, temos fãs e especialistas brasileiros. Até mesmo na Volta da França. (continua )

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Corre Jacaré!



Outra imagem de jacaré. Tenho desenhado muitos crocodilos, também. Deve ser influência do Senado Federal. Aquilo está parecendo terra de crocodilo albino.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

As corridas de São Firmino

Esse meu amigo, de vez em quando, falava nas corridas de touros. Ele se lembrava, é claro, de ter visto uma corrida pela TV. Mas não se lembrava de quando se imaginou, pela primeira vez, descalço, correndo a plenos pulmões na frente dos touros. Mas era assim que se via. Ultimamente, era só assim que se via. Um lenço vermelho amarrado no pescoço, como os espanhóis. Uma camisa branca e uma calça preta, enrolada à marinheiro. Ou então, com os sapatos de sola de borracha, terno e gravata. Pra dizer a verdade, a maneira como estava vestido não importava.

_No meio de umas quinhentas pessoas! – ele dizia. Ele tinha uma fixação com o número quinhentos.

Em geral, quando esse meu amigo falava nas corridas de touros, a mulher dele sorria. As filhas também achavam aquilo uma loucura engraçada do pai. Ninguém levava a sério. Era só mais um devaneio do marido. Mais uma coisa engraçada que o pai dizia na frente dos amigos.

Mas a verdade é que as corridas de São Firmino, em Pamplona, sempre estiveram em seus planos. Ele não se lembrava de como a idéia tinha aparecido na cabeça. Parecia apenas que sempre esteve lá. Era uma coisa que tinha que fazer. Como fazem, todos os anos, os milhares de turistas que vão a Pamplona. É bem verdade que muitos não se atrevem a correr à frente dos touros. Mas ele não desperdiçaria a oportunidade. Não, senhor. Ele correria. Nossa, como ele correria. Ele vivia dizendo isso.

Mas naquela noite, não. Naquela noite esse meu amigo estava tomando cerveja. Muita cerveja. A maioria dos homens enche a cara de birita quando está triste. Uma boa parte também enche a cara de birita quando está feliz. Então fica difícil saber se o cara bebe porque está feliz ou se está triste e por isso bebe. Mas no caso desse meu amigo, ele não estava feliz. Eu sabia o motivo. Eu e todos os outros. Mas os homens não falam sobre isso, você sabe.

Homens falam muito pouco sobre as coisas do coração. E o que não falam geralmente é mais importante do que o que dizem. O único problema é que tem muita adivinhação e chute errado sobre o que não é dito. E sobre algumas coisas é melhor não errar.

Por causa disso, eu estava em silêncio, perto desse meu amigo. Era óbvio que ele estava sofrendo. Era óbvio que falar sobre a mulher não estava nos planos dele. Também não estava nos meus planos mencionar alguma coisa sobre as meninas. Longe de mim. É triste. Separação é uma coisa muito triste.

_Rapaz, eu poderia muito bem correr na frente daqueles touros! – ele disse, batendo a mão na coxa, com muita força. Achei que podia ser efeito da cerveja, aquela emoção extravasada. Talvez fosse apenas uma maneira de encher o silêncio com o som de alguma coisa. Afinal, estávamos todos calados.

Esse meu amigo acabou cochilando um pouco. Nós, os outros amigos, os caras que tinham ido ali, falamos de outras coisas, de rock, de filmes piratas, de música, política, de filmes que a gente queria ver. Ninguém mencionou as corridas de touros. Acho que foi por respeito.

Depois, quando eu já estava em casa, um pouco bêbado, dormi pesado, aos roncos. Sonhei que estava à frente dos touros. O que importava, a única coisa que importava, era correr mais do que aquele sentimento no peito. Correr mais do que aquele desespero. Mas é impossível.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Sobre voar

Li ontem, mais um conto do Joe Hill, chamado “A Capa”. Conta a história de um rapaz que voa. É de arrepiar. Falta uns dois ou três contos para acabar o livro. Estou relendo alguns dos contos, prolongando o tempo do livro, antes que desapareça na minha estante.
Acho que todo mundo que escreve tem uma história de gente que voa. Dos contos brasileiros, tem um chamado “O iniciado do Vento”, que é uma maravilha. O cinema está cheio de história de vôo. Eu já vi uma porção no cinema, uma das melhores, é claro, é a da bicicleta do ET. Mas tem muitas. Tem, por exemplo, aquela cena memorável do “Birdy”, um filme de Alan Parker. Naquela época, em 1984, Nicholas Cage e Mathew Modine, que fazia o papel do rapaz que pirava e imaginava que era um pássaro, eram só dois garotões. É mais uma história de Vietnã, coisa recorrente naqueles tempos. Os americanos começavam a cutucar as feridas. E o cinema ianque começava a fazer uma revisão radical de como retratar uma guerra perdida.
A cena memorável é a última cena do filme. Modine, o rapaz passarinho, está correndo por cima do teto do hospital psiquiátrico, junto com Cage. De repente, ele se empolga e dispara a correr batendo asa. Cage se desespera porque acha que Birdy vai tentar decolar de cima do prédio. Na poltrona do cinema, eu torci para que ele realmente decolasse.
Eu também tinha uma história de gente que voa. Era bem curta. Era a história de um menino que deseja muito voar. Ele rezava. Chorava. Fazia promessa. E nada. Tentava construir asas igual a Ícaro. Não funcionava. Nada dava certo. Ele não voava nem a pau. E em cada tentativa quebrava alguma coisa. Quebrava o nariz. O braço. A perna. A outra perna. O outro braço. O nariz, de novo.
Aí, um dia, já é quase noite, esse menino está andando no meio da rua e começava a levitar. Quando ele se dá conta, está passando por cima de um semáforo. Ele tenta se agarrar ao semáforo. Mas não consegue, parece que está sendo puxado para cima. Tudo o que consegue fazer é ficar por alguns segundos na frente das luzes. Ele provoca a maior confusão no trânsito. E depois continua a subir. Ele sobe muito alto, mas bem devagar. E depois, lentamente, começa a descer. E aí aterrissa, suave. Ninguém acredita nesse menino quando ele conta que voou.
E pelo resto da vida ele vai tentar voar de novo. Sempre se quebrando todo. Até que um dia o médico alerta o ex-menino, que agora é um tiozão.
_Olhaí, ô Mané, você não tem mais nenhum osso inteiro no corpo. Sua coluna não agüenta mais nenhum tranco. A sua próxima queda poderá ser fatal.
O tiozão não se emenda, mesmo assim. A vida inteira ele só fez aquilo. Perseguiu o sonho de voar igual ao menino que um dia foi. Ele não pode parar. Então ele se prepara para saltar de uma montanha. Coloca um para-quedas e vai para a beira de um precipício. E quando ele vai pular percebe que está levitando, igual àquela vez, só que muito mais rápido. Ele começa a subir vertiginosamente e só quando está no meio das nuvens é que descobre o segredo. O que o fez levitar foi um pensamento, uma coisa em que pensou uma única vez, quando era criança. E nessa hora ele percebe que está caindo em grande velocidade. E já é tarde demais para abrir o para-quedas.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Ainda antes que cresçam

Ainda antes que as crianças cresçam, sinto falta de quando eram pequenas. É uma ausência sentida das mesmas coisas que, de vez em quando, também me deixam cansado. Acordar de noite por causa de menino, por exemplo, é meio chato. Mas também é muito bom ajeitar o cobertor até a medida do ombro do seu filho e observá-lo dormir novamente, com um sorriso nascendo no canto da boca.

A mesma coisa quando um deles vem dormir na cama de casal. Estava tão confortável e quentinho antes da menina chegar e mudar a geografia dos corpos na cama. Mas sentir o perfume do cabelo encaracolado é um sonífero dos mais gostosos. Ou então prestar atenção na respiração e perceber que o nariz não está mais entupido ou que agora ela está tendo bons sonhos, só pode ser, porque agora ela parece brilhar no escuro.
Da época em que eram bebês, tenho saudades de dar banho, de cuidar do umbigo, de tomar cuidado com a moleira e de cortar as unhas, para evitar que se ferissem com as mãos desajeitadas. Unhas finíssimas e tão afiadas quanto papel.

Embora não sinta muita saudade de trocar fraldas, até mesmo disso guardo boas lembranças, boas risadas e até uma pequena vingança. Lembro daquela vez em que troquei a fralda do meu filho na poltrona do avião lotado, só porque os caras da frente fizeram careta quando viram as crianças. Foi uma vingança barata, é verdade, mas não quis esperar a fila do banheiro. Em todas as viagens as crianças se comportaram super-bem, nem dor de ouvido tiveram, porque a minha mulher sempre usou os macetes para evitar dor de ouvido.

De todos os banhos dados na banheira, tenho saudades. De embrulhar o bebê, com o fraldão em triângulo, fazendo um pacotinho que só deixava o rosto de fora. Tento recordar como é mesmo que se dobra a fralda e no filme da minha memória vem a lição da enfermeira, repassada na voz da minha mãe.

_Olha, é assim que se faz, tem que ficar um “xarutinho”, para que o nenê se sinta aquecido e seguro – e era isso mesmo, porque se fizesse errado, se ficasse bambo, o bebê disparava a chorar.

Também gosto muito de lembrar dos banhos de luz, dos bebês ainda de olhos puxados se esticando para absorver o sol. Toda aquela luz do início dos dias, na varanda. Era tão bacana apoiar os calcanhares para que se arrastassem e esticassem. Era o prenúncio de um engatinhar. Era tão gostoso.

E ainda é, com as pequenas coisas de agora. Vejo o entusiasmo do meu filho, que lê tudo o que se coloca na frente, empolgado por ter conseguido ler as placas dos nomes dos bichos do zoológico. E também a menina, com sua tagarelice fantástica. Ela emenda as frases uma na outra para chamar a atenção até se esquecer do que está falando. É puro nonsense, mas os olhos brilham inteligentes e ela abre um sorriso lindo, deliciada de perceber que eu presto atenção e a vejo, só a ela, naquele instante. E ela se orgulha de si mesma, eu noto. Eu também me orgulho.

Não é verdade que ter filhos encha as pessoas de amor e que isso transborda e se espalha e torna as pessoas mais humanas e, de alguma maneira, melhores, mais gente e mais transcendentais. Mas quero acreditar que isso um dia poderá acontecer comigo.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Cristiano Ronaldo e a crise na Europa

Oitenta mil espanhóis foram ver a apresentação desse cara no Real Madri.

Ou a crise atingiu a Espanha em cheio, ou tem muitcha gente com tempo livre à beça na capital espanhola.

A lingüística enquanto vetor dos laços familiares

No domingo, eu, minha mulher e as crianças fomos a outro circo peba que está na cidade. Esse tem mais estrutura, um letreiro mais caprichado, mas também é peba que só.

É bem verdade que gostei de dois números. O primeiro foi o de um palhaço, que fez uma homenagem ao Michael Jackson. Muito engraçada. O segundo foi do mesmo palhaço, que fez uma apresentação hilariante numa cama elástica. Ele fazia um Vagabundo Chaplin bebum e todo cambaleante. Fez as coisas mais incríveis, pulando e quase caindo o tempo todo.

Ao final, quando perguntamos para as crianças qual tinha sido o número predileto, venceu o Chaplin bebum. Meu filho, de seis anos, não economizou elogios ao acrobata.

_Foi i-ra-do! – ele disse.

_Foi muitcho lôko! – disse a minha princesinha.

_É véi, foi i-ra-da-ço! – eu disse.

_Careca! – disse a minha mulher.

_Pôxa, estou tentando me enturmar, ué?!


Boas perguntas

“Onde estão os cientistas sociais que demarcaram os debates públicos em anos passados? Por que se refugiaram no comodismo das universidades públicas e se conformaram à domesticação de seu papel crítico? Por que se confinam, cada vez mais, aos estudos hiperespecializados, ao hermetismo narcísico ou à produção estéril que se repete em guetos de autoexaltação?”

Este é só um trecho do artigo “ A ciência da sociedade está à deriva”, de Zander Navarro, publicado na Folha de São Paulo de hoje, dia 06 de julho. As perguntas são excelentes e extrapolam o nicho da sociologia.
Acho difícil escapar da imposição de uma superficialidade cultural e do culto à celebridade que vivemos nos dias de hoje. Mas quem sabe um dia o “cada um na sua” volta à moda?

domingo, 5 de julho de 2009

A estafa de museu do Cabeça

O meu amigo multimilionário e bon vivant Cabeça pediu desculpas, ele não conseguiu trazer a pizza que eu pedi da Itália. Ele e a Esposa do Cabeça foram a Lisboa, Roma e Florença. Passaram vinte dias viajando e chegaram muito cansados de torrar grana em euro.

_Além disso, extraviaram a minha mala - ele me disse, no sábado, quando nos encontramos.

_Tudo bem, Cabeça, na próxima vez traga uma torre inclinada, já que a pizza é tão difícil.

Ele e a Esposa gostaram muito da viagem.

_Foi uma das melhores viagens que já fizemos. Só estou um pouco estressado de ver museu.

_Como assim? - eu perguntei. É importante subir nas escadas que os amigos colocam pra gente.

_Bom, nós visitamos o Museu do Vaticano e aquilo é realmente maravilhoso. Você vai andando nos corredores e ali estão as estátuas, os quadros,as tapeçarias, toda aquela arte e é lindo, magnífico. Até o primeiro quilômetro. Depois começa a doer o pescoço. Mas aquilo é um mar de gente e tem as estátuas do Michelangelo, que eles guardam para o final, então você continua. E depois tem os vigias de foto. Não pode tirar foto de nada, mas todo mundo sempre tenta tirar uma foto ou outra, especialmente na estátua do Davi. E ali tomei um berro de guarda na orelha, porque tentei tirar foto daquela estátua maravilhosa e não pode. Mas pô, eu nem tinha flash nem nada, era foto de celular. Mas o Museu do Vaticano foi assim, como direi, o início de uma maratona de história e arte. Nós andamos uma barbaridade todos os dias, fizemos uma verdadeira peregrinação na estatuaria clássica, nos aquedutos, coliseus, teatros, domos e anfiteatros.

_E Florença? - eu perguntei.

_É a cidade mais bonita do mundo, é claro. E uma das mais cheias de história também. Mas foi ali que bateu o cansaço de Museu na gente. Depois dos muitos dias de arte e museu de Roma, eu fiquei com estafa de ver coisa histórica e artística. Começou a me dar dor-de-cabeça, coceira, erisipela. No final, bastava alguém falar em Leonardo da Vinci e eu começava a espirrar e me abanar todo. Uma coisa de louco. Aí resolvemos voltar.

_Caravaggio!- eu disse, ainda incrédulo. E o Cabeça começou a espirrar feito doido. Espirrou tanto que a Esposa do Cabeça veio para a sala, ver o que estava acontecendo.

_O que aconteceu?


_O Cabeça começou a espirrar na hora em que eu falei Caravaggio!

E a Esposa do Cabeça começou a espirrar também. Aí minha mulher me chamou para ir embora.

_Eu te conheço, Careca! Você está com aquele sorriso maquiavélico... - disse a minha mulher. E do elevador ainda dava para ouvi os espirros.

sábado, 4 de julho de 2009

A unanimidade não-musical

Sou fã do Caetano Veloso. Acho um grande artista. E aí outro dia estava lá no cafezinho do trabalho, conversando com o Mr.Flowers quando, sem querer, falei no Caetano.

_Caetano é unanimidade - eu disse.

_Detesto - disse o Flowers.

_Peraí, Flowers. É o Caetano. Super artista, cara!

_Acho ele um mala rebolador - disparou o Mr. Flowers.

_O cara é um gênio, Flowers!

_Só se for para as meninas do tabuleiro da baianidade. Não colocaria moeda naquele chapéu.

_E de que artista você gosta,ô Flowers?

_A maioria já morreu. Dos vivos, acho que só o Lobão.

_Lobão? Boa, também gosto do Lobão.

_E João Bosco, é claro!

_Também gosto muito - eu disse.

_João Bosco é unani...

_Detesto - disse o C3PO, entrando na conversa.

Saí de banda. Duas horas depois, voltei ao cafezinho.

_Chico Buarque - disse o Mr. Flowers, chegando em seguida.

_Chico é unanimidade - eu disse.

_Detesto - disse o C3PO, entrando na conversa.

Saí de banda, novamente. Depois, lá no meu cubículo, o Mr. Flowers veio dizer, baixinho.

_O C3PO é uma unanimidade não-musical. Um dia ainda vão amarrar uma caixa-preta no pescoço desse infeliz para que ele desapareça no oceano.

Mr. Flowers é um poeta.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Uma foto da Internet




Gosto muito de brincar com imagens. E hoje estou com preguiça de pensar.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

O curió/sabiá subterrâneo

Falando de pássaros, não falei do famosíssimo curió subterrâneo. João Ubaldo inventou esse bicho numa crônica de 1984 de "O Globo". Fiquei anos com a história na cabeça. Um dia comprei o melhor livro de crônicas que eu li na minha vida, "Arte e Ciência de Roubar Galinha", do João Ubaldo, e lá estava ela, a história do curió subterrâneo. Ou sabiá, não lembro. Na verdade, é só um parágrafo de crônica. Mas é um dos melhores parágrafos de crônica que já li. Nele, João Ubaldo sintetiza a quintessência da ornitologia. É super-engraçado.

Passei meia hora procurando o livro na estante. Não encontrei. Desisti.

Caramba, preciso organizar os livros. Preciso dar uma geral no depósito da garagem. Também preciso ler e escrever mais. Também preciso parar de enrolar e dedicar mais que alguns minutos ao blog. Só que hoje não vai dar.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

O meu passaredo

_Fiu – eu assobiei, olhando da varanda do restaurante, no Parque Nacional de Itatiaia.
Centenas de observadores de pássaros de todo o mundo passam pelo parque, todos os anos. Vêem da Europa, dos países sem-floresta. Ávidos por escutar o canto dos pássaros ou só vislumbrar o colorido das aves e disparar clics das máquinas -binóculos gigantescos. Em geral, são mais velhos. São os velhos das cidades da Europa que ainda tinham pássaros. Que um dia ainda puderam escutar as aves ao amanhecer, na hora do almoço, no retorno do trabalho. Trazem os filhos adolescentes, branquelos, aquosos, que muitas vezes não disfarçam a insatisfação de estar ali. Mas não penso em nada disso, nessa época. Ainda faltam dois anos para o casamento.
_Aquele ali, como chama? – ela pergunta.
_Sanhaço – eu respondo de bate-pronto, sem um milésimo de vacilo.
_E o outro que canta bonito, lá naquele galho?
_Rouxinol, é claro.
_E aquele ali, pequenino?
_Pintassilgo.
_Nossa, você sabe todos?!
_Sei tudo de passarinho.
_Aquele de asa preta e amarela, como chama?
_Xexéu.
_Xexéu?
_Isso mesmo.
_Não tem esse passarinho. Você está inventando.
_Também é chamado de Japim. Ou Japuíra. Em alguns lugares chamam de João-conguinho.
_Boa, essa! Eu aqui pensando que você sabia tudo de passarinho e você me fazendo de boba.
_Mas é verdade.
_Conta outra.
_Olha o colibri!
_Que mané colibri, que nada. Vá chatear outra.
_Nossa, olha ali, olha ali. É um pixarro, também conhecido como João-Velho. “Saltator similis”. Esse sim é o verdadeiro trinca-ferro.
_Que trinca-ferro é o cacete! Perdeu a graça. Chega.

Passaredo- Composição: Francis Hime e Chico Buarque
“Ei, pintassilgo, Oi, pintaroxo, Melro, uirapuru, Ai, chega-e-vira, Engole-vento, Saíra, inhambu, Foge asa-branca, Vai, patativa, Tordo, tuju, tuim, Xô, tié-sangue, Xô, tié-fogo, Xô, rouxinol sem fim, Some, coleiro, Anda, trigueiro, Te esconde colibri, Voa, macuco, Voa, viúva, Utiariti, Bico calado, Toma cuidado, Que o homem vem aí, O homem vem aí,O homem vem aí. Ei, quero-quero, Oi, tico-tico, Anum, pardal, chapim, Xô, cotovia, Xô, ave-fria, Xô, pescador-martim, Some, rolinha, Anda, andorinha, Te esconde, bem-te-vi, Voa, bicudo, Voa, sanhaço, Vai, juriti, Bico calado, Muito cuidado, Que o homem vem aí, O homem vem aí, O homem vem aí.”

terça-feira, 30 de junho de 2009

Tcham-tcharam-raaam, tcham-tcham-tcharam

Uma das minhas cenas prediletas do cinema é de um filme com o Harrison Ford, acho que é “Os Caçadores da Arca Perdida”. Indiana Jones está cansado de perseguição e pancadaria e um gigante com um turbante começa a agitar uma cimitarra e a gritar com o nosso herói. Ele observa, com quase desdém, o homenzarrão girar e regirar a espada. Dá uma olhada para você, o espectador sagaz. E, então, com um sorriso de lado puxa o revólver e manda bala no gigante. E depois ajeita o chapéu.

O chapéu de Indiana Jones é um Fedora Safari-Brown, custa trinta dólares e pode ser comprado on-line.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

El consertador de puertas

O homem que conserta portas

Neste final de semana, fiz a maior pose do mundo para colocar as portas nos armários da cozinha.

As duas outras portas , nos quartos das crianças, eu já havia consertado.

Aproveitando que a minha mulher foi levar as crianças para o exame médico da aula de natação, corri até a loja de mequetrefes para comprar dobradiças, aldrabas e lingüetas. Comprei uma porção. Aí coloquei "Eye Of the Tiger" pra tocar, fiz umas flexões de braço, amarrei uma faixa vermelha na testa, preparei a caixa de ferramentas e sorri para o meu espelho. O melhor sorriso "o-iluminado-jack-nicholson" que eu treino, desde os dezesseis anos.

_It´s too bad she won´t live, but anyway, who does? - eu pergunto, repetindo a última frase de Blade Runner, aquela que a música do Vangelis engole no final.

Depois que Eye of The Tiger terminou, iniciei o gigantesco trabalho de consertar as portas dos armários. Foi bem mais fácil do que eu pensei, mas suei um bocado.
Ao final, minha mulher foi compreensiva. E só fez cara de paisagem para uma porta mal-colocada. Tive que concordar, em silêncio. Dei uma guaribada, ajeitei, mas ainda está ruim. Depois vou ter que colocar novamente. É que já estava de noite, e eu não queria mais fazer barulho. Outro dia arrumo. De verdade. É vero.

Coisas bestas sem o menor sentido

Ao mesmo tempo em que eu procuro me concentrar nas coisas banais e tirar algum proveito dos afazeres cotidianos, eu também me pego fazendo coisas bestas sem o menor sentido.
Por exemplo? Descobri que eu faço caretas para o espelho antes e depois de escovar. São caretas caprichadas, de verdade, com a língua para fora, olho arregalado, dá para ver aquele sino da garganta. Minha filha me surpreendeu, no meio de uma careta, e propôs um concurso. Ela gostou muito da brincadeira. E agora propõe novos concursos de caretas a todo instante, especialmente na hora do almoço.
_Paiê, olha essa! – e ela esbugalha os olhinhos e estica a língua para o lado, franze a testa e puxa os cantos da boca com as mãos.
Ela fica linda de qualquer jeito mas eu faço cara de sério e digo:
_Horrível ! - e repuxo as minhas orelhas, pisco um olho e finjo morder a língua como se fosse um desdentado.
_Argh! – e meu filho também entra na disputa, dobrando as orelhas, pondo a língua para fora, repuxando os olhos igual a um chinês.
Minha mulher assiste a tudo em silêncio. De repente também faz uma careta impressionante.
_Mamãe ganhou! – diz a minha princesinha.
Tenho que concordar com ela.

Todos de férias, menos eu, é claro

É visível a diferença, pela manhã. Todos os três estão radiantes, descansados, brilhantes. Só eu estou com a minha cara de sempre, com o meu terno e gravata de sempre. Meu filho e minha filha acordaram espontaneamente, sem nenhuma reclamação. Mas toda essa felicidade é contagiante. Eu fico feliz por osmose.

domingo, 28 de junho de 2009

Putz, não é que ganhamos!

O futebol é um esporte extraordinário porque nem sempre a melhor equipe vence.
Na Copa das Confederações, o ditado funcionou às mil maravilhas. Não havia uma única equipe boa. Ninguém deu show de bola. E assim, a seleção de Dunga ganhou. O futebol de Lúcio fez a diferença e triunfou.

Dá pra perceber que tem alguma coisa errada porque não escutei um único foguete. Nem sequer um traque. Em termos de empolgação da torcida, a coisa foi chinfrim, chinfrim. Tudo bem, não é copa do mundo, mas sequer um foguete?!

Ô coisa chué.

sábado, 27 de junho de 2009

Dois projetos

Projeto 1 - O melhor do Careca Volume 1
Anteontem falei em projeto e não disse o que era. É bem simples. Uma compilação de crônicas e textos do blog, junto com algumas ilustrações selecionadas dos moleskines.
Já comecei, estarei fazendo aos pouquinhos, todas as noites. A idéia é deixar tudo pronto em PDF e disponibilizar no blog. Serão vinte crônicas e vinte ilustrações.


Projeto 2 - Mário Salimon e o rock de Brasília
Um dia, não foi ontem, faz algum tempo, li no blog do meu amigo Mário Salimon a história da sua trajetória musical. É também um pedaço da história do rock de Brasília e também da minha geração nessa cidade. Mário cantou e conviveu com boa parte dos músicos que se projetaram nacionalmente a partir do cenário musical de Brasília, na segunda metade dos anos oitenta. Um dia tenho que conversar com o Mário sobre a possibilidade dele escrever um livro sobre essas coisas. Só de fotos, ele, o Dulcídio e o César Mendes têm um arquivo enorme.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Um projeto para esse ano

As pessoas costumam virar o ano com projetos para os doze meses seguintes. Mas eu sou meio devagar. Então, finalmente, estou com um projeto para o resto desse ano.

Bié, Michael Jackson
Esse cara sacolejou o planeta com seu pop, com o "andar da lua" e outras esquisitices. É um artista de tirar o chapéu. Mas prefiro lembrar de Michael Jackson ainda menino prodígio, cantando "Ben" ou "ABC", num desenho pop psicodélico que passava na TV da minha infância. "Ben", para quem não sabe, era uma música de filme de terror. Era um rato, o melhor e único amigo de um menino. Não lembro mais do filme. Mas no desenho, toda hora aparecia um ratinho, o Ben. A música é de cortar o coração. E "ABC" é super legal.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Joe Hill é o novo Stephen King

No dia dos namorados, minha mulher me presenteou com um monte de livros. Achei ótimo, é claro. Um desses presentes está me deixando com um medo danado. É a nova fera dos contos de terror. O incrível Joe Hill, com o seu fantástico livro de contos "Fantasmas do Século XX".

Como todos que acompanham este blog sabem, sou um cara que lê no banheiro. Leio em outros lugars, também. Mas durante a semana, predomina o banheiro. E só consigo ler em dois períodos. No período da manhã, das seis às seis e vinte. À noite, é possível estender a leitura por quarenta minutos, mas somente depois das crianças já terem ido pra cama. Se eu leio mais, não consigo atualizar o blog ou só acochambro a atualização.

Mas para conseguir ler alguma coisa, eu preciso despistar a Rose, a cozinheira-governanta-secretária-faxineira-babá-quebradora-de-portas-universitária que trabalha aqui em casa. A Rose não pode ver um livro solto no banheiro que coloca na estante. E como a minha estante é uma bagunça, demoro um tempão para encontrar um livro ali.

Por isso, para despistar a Rose, eu sempre coloco dois livros no banheiro. Desse modo consigo induzir a Rose a pensar que um dos livros pode estar sendo lido pela minha mulher. Como a Rose não é louca de esconder um livro que a minha mulher está lendo na estante, ela acaba deixando os dois livros em paz, no banheiro.

Mas dessa vez não precisei disfarçar. Minha mulher está lendo a bela autobiografia do Isaac Bashevis Singer. Eu leio o Joe Hill.

Recomendo a experiência a quem gosta de suspense. Os contos são absurdos, fantásticos, assustadores, envolventes. E assustadores, também. Joe Hill é um craque. É daqueles escritores que criam uma empatia contigo a partir da primeira frase. Você começa a ler e não para mais. São 17 contos. Até agora, li apenas três contos. E ja estou com pena de ler o próximo porque aí só vão faltar 13 contos. É raro encontrar um escritor que você sabe que é muito bom só de ler umas coisinhas. Joe Hill é um desses caras. Se encontrar numa livraria, compre que é bom mesmo. O livro é da Editora Sextante.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Bié,bié, diploma

Eu poderia ficar de fora dessa, afinal já deixei o jornalismo há alguns anos. Mas resolvi deixar a minha opinião sobre o fim da exigência do diploma.

Quem sair da faculdade hoje, só com o diploma de jornalista, é um sério candidato a virar outro tipo de profissional. Já era difícil, mesmo com a exigência do diploma: poucas vagas, competição brutal, pouquíssimos veículos concentrados em rede e controlados por pequenos grupos políticos, acúmulo de funções, horas extras não remuneradas a dar com o pau e baixos salários.

Agora, sem a exigência do diploma: poucas vagas, competição brutal, pouquíssimos veículos, acúmulo de funções, horas extras a dar com o pau, baixos salários e concorrência com especialistas de outras categorias.

O diploma era uma reserva de mercado num mercado autofagista, mas que estabelecia, a seu modo, uma competição entre jornalistas. Mesmo assim, via de regra, jornalista morria cedo, sem grana, cheio de dívidas e com um monte de processos nas costas.

A partir dos trinta anos comecei a ir a enterros dos caras que tinham cinquenta, que eram os chefes diretos. Aos trinta e três, fui a quatro enterros no mesmo ano, todos de jornalistas amigos, na faixa dos cinquenta. Dois deles, Mário e Fausto, foram meus chefes e gurus profissionais. Sabiam tudo, tinham testemunhado e coberto todas as grandes histórias de suas épocas, fumavam feito caiporas e morreram de ataques fulminantes.

Ambos eram ferrenhos adeptos da objetividade.
O fim da exigência não impede:
.um aviltamento salarial ainda maiord.
.o canibalismo e a competição desenfreada por vagas nas empresas de comunicação com outras categorias, como médicos, economistas, advogados, cientistas políticos, etc.

Isso já ocorre há muito tempo na área de publicidade, onde a palavra final é de quem paga.
.a concentração de poder e influência de alguns veículos.

O fim da exigência também não garante:
.maior qualidade dos profissionais de comunicação.
.informação isenta e equilibrada.

O fim da exigência do diploma também não modifica a lógica brasileira da concessão de rádio e tv. O poder costuma premiar os já poderosos com as concessões.

O mundo passa por uma crise de empregos. Muita gente acha que a desregulamentação é uma excelente solução.

Eu tenho as minhas dúvidas.


Go, Gary, go!

O mundo também passa por uma transformação gigantesca do papel e da forma de atuação dos veículos de comunicação. Recentemente, o ilustrador Gary Taxali fez um protesto que atraiu alguma atenção na Internet. Foi contra o Google. O maior site de buscas da Internet, que movimenta bilhões de dólares, enviou a Gary um convite para que ele fizesse uma ilustração para o Google.

_Sim, e o quanto ganho com isso?
_Não lhe pagaremos nada. Ganharás a divulgação do seu trabalho para zilhões de pessoas no planeta.
_Vão se f... - respondeu Gary.

No final, tudo o que ele ganhou com a recusa foi o mesmo que o Google disse que ele ganharia. Mesmo assim, fiquei fã do Gary. Ele fez o que todo mundo adorava ver o Carlitos fazer. Chutou a bunda do cartola.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

As portas que caem

Como a minha kombi de leitores já sabe, a Rosenereide está fazendo faculdade. A Rosenereide é a governanta, cozinheira, babá, doceira e secretária daqui de casa. E as coisas estavam indo muito bem. Mas os primeiros efeitos da educação superior já começaram a se fazer sentir. As portas dos armários daqui de casa estão todas caindo. É o efeito "portageist". Em duas semanas, três portas de armários da cozinha e duas dos armários dos quartos dos meninos já se foram. Cinco portas em 14 dias. Uma proporção altíssima de queda de porta por dia da semana.

Hoje consegui arrumar duas. As três portas da cozinha não dou conta de consertar, só chamando um marceneiro. As dobradiças se foram. O lugar das dobradiças se espedaçou. Felizmente, as férias da faculdade da Rose estão chegando. Começam na semana que vem. Só me restavam três portas de armário intactas.

domingo, 21 de junho de 2009

Uma ligação internacional

O Cabeça e a Mulher do Cabeça estão na Itália, uma diferença de quatro horas a mais no relógio. Por isso, aproveitando o fato de que fiquei acordado até a meia-noite de sexta-feira, resolvi ligar para o Cabeça só para ver se ele lembrava da minha encomenda. O Cabeça é meio esquecido.
_Alô, Cabeça?
_UOm,,,mdslmçlkhjçoçl çlmçmçl,mlçlkjuta!
_É o Careca, Cabeça. Quantas horas aí na Itália?
_JLkjlkjlkajçlkjçalkjçdfaoeihjoihq´éiouroie´riwej´rjcquta!!
_A ligação está meio ruim, Cabeça. Parece que você está falando com uma fronha na boca. Está tudo bem, Cabeça? Bom, deve ser o fuso horário. Aí devem ser umas quatro horas da manhã, certo?
_Podsueojpoeipeoiviaypodoiupoiqu´´qoe´powiqjfkjçflqiwejpqoywipfuehphççlkjçlkjlkjtuta!
_Tá legal, bicho. A conversa está muito boa, mas não quero mais tomar o seu tempo, amigo...
_Tlçakjçlkjeoijpoiqjpoijepijproijqepofjçalkjlçkamvnvoahuiuivaitomarklhjoqjóiejauta!
_Sim, agradeço muito. Olha, e se não for muito incômodo, não esquece aquela pizza quatro queijos, hein?
_Pouquehknçkhaçljlkjfoijaçlkfqueopajljhçlakhlkjroriuseufikjlakjlviahlajlkjflaçljlkjçlkjuta!
_Isso mesmo, gruyere, muzzarela, gorgonzola e parmesão. Até lá.


Hoje, com o três a zero sobre a Itália, quase liguei de novo. Afinal, o Cabeça é meio esquecido. Além disso, talvez seja melhor pedir uma napolitana. Rá!



Esse é o meu post de número 600. Eu não sabia que teria tanto a dizer num blog. Muita bobagem, é verdade. Mas também faço sérios exercícios de criatividade e, às vezes, risíveis reflexões sobre as coisas que me acontecem ou deixam de acontecer. De qualquer modo, não imaginei que receberia mais de vinte e seis mil visitas. Considero isso um tremendo privilégio e agradeço especialmente à minha kombi de leitores. Sem vocês, isso já teria perdido a graça. Obrigado.

sábado, 20 de junho de 2009

São João Ninja e a Quadrilha Jazz

Neste sábado fizemos os preparativos para ir à Festa Junina da escola das crianças. Eles mudaram de uma escola alternativa mais perto de casa para uma outra escola um pouco menos alternativa, que é bem mais longe. O estranho é que demoro menos tempo para levar os dois para essa escola. A distância é maior, o trajeto é mais reto e o trânsito é bem menos intenso.

O meu filho e a minha filha, de seis e quatro anos, respectivamente, ensaiaram as quadrilhas exaustivamente nas últimas semanas. Estavam super-animados e felizes. E nós corremos com a preparação para chegar na hora certa, na escola alternativa. A menina quis sardas e trancinhas. Ficou uma caipirinha muito linda com o vestido de chita, cheio de fitas vermelhas e laços. O Chapéu de palha deu um toque todo especial.

A calça jeans do meu filho estava pra lavar. Então tivemos todo um trabalho de convencimento para uma outra calça comprida e para uma camisa de botões. O menino não quis a pintura de bigode fajuto, nem costeleta, nem nada. Só o chapéu-de-palha. Também fez questão de um lenço vermelho. E também ficou um caipira super-bonito com um par de botinas e um cinto com fivela grande, que eu havia feito ainda no ano passado.

A minha mulher preparou uma bandeja enorme de cachorro-quente e um bolo de milho. Também levamos uns quatro litros de suco. Como no sábado o trânsito é bem tranqüilo, chegamos com folga. O clima da escola, de festa caseira, estava muito bom.

E as quadrilhas das crianças foram super-legais, com aqueles meninos todos se atrapalhando com as mímicas e mesuras, os gestos e gentilezas, e errando os passos. Mas todos curtiram, não teve nem choro e nem menino parado no meio da quadra, fazendo beicinho. As crianças estavam se divertindo e a platéia também. Super-legal.

Aí entrou a turma da quarta série. Os meninos vestidos de calça e camisetas pretas. As meninas de colant preto.

_Gente, acho que vai rolar uma quadrilha jazz! – eu falei, só para levar uma cotovelada dolorida da minha mulher nas costelas. Com os olhos, ela me indicou a professora da turma da quarta série. A professora também estava de colant preto e sapatilhas de balé pretas. Ela me olhava como os pitbulls olham para os seres humanos. Ela também disse alguma coisa em iídiche ou sânscrito na minha direção, enquanto batia o pé esquerdo, com as mãos na cintura. Temi pela minha existência medíocre sob aquele olhar rotweilleriano. Se a música não tivesse começado eu teria que ser levado para uma farmácia e submetido ao tratamento contra a raiva e tétano.

A música não era xote, nem baião, nem xaxado e nada que tivesse sanfona, triângulo e zabumba.Em seguida, assisti, escandalizado, à mais terrível demonstração de que a educação infantil caminha rapidamente para a mais corrupta degringolação lisérgica e porra-louca. As crianças não fizeram coisa nenhuma que tivesse a menor parecença com uma quadrilha, com festa junina, ou com pula-fogueira. Parecia um balé Pink Floyd. Uma alegoria para um poema de William Carlos William. Uma dança para los lobos de la marijuana amarga. Mas não falei nada. Aplaudi com todo mundo. Sorri para as crianças. Acenei. Dei tchau. Só no final é que não pude resistir:

_Viva São João Ninja! Viva!!

E dessa vez minha mulher nem me deu cotovelada.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Um poeta entre os canibais

Eles estão por toda parte. Eles estão lá fora. E eles são Canibais. É muito fácil ver todos daqui de cima, pela janela do apartamento. E os canalhas ficam me vigiando.

Aí toca a campainha e chega o Poeta. Nunca avisa, o Poeta. É sempre uma surpresa.

_Pronto, chegou quem faltava! – ele diz e vai correndo abrir uma cerveja, fazer uma bandeja de queijo temperado de tira-gosto. Os poetas são entrões, todo mundo sabe disso. E adoram cerveja, vinho e tira-gosto.

O Poeta examina a geladeira e reclama das coisas que vê.

_Pô, só tem comida saudável! Cadê as salsichas? Cadê as guloseimas?

O Poeta vasculha a geladeira.

_Não tem vodka no congelador?

O Poeta examina os armários.

_Cadê o baconzitos? E o amendoim? Castanha-do-pará? Cadê a macadâmia? O pistache? Pô? Cadê os belisquetis?

E o Poeta, com uma bandeja de gulodices e com a cerveja gelada caminha para o sofá.

_Tem vídeo novo aí? Lá no bolso do meu casaco tem um pirata do novo Transformers, quer ver? Tem um vídeo da Beyoncéé também, do outro lado do casaco. Ué, não curte essas coisas? Que cara mais desantenado. E aposto que nem tem canal adulto da TV a cabo! Acertei!

_Cadê a mulher? Embarangou-se? Tenho de tirar o boné para o Caetano. “Mulher não pode embarangar” é uma das melhores frases do século. O Caetano é demais! O Caetano é um sábio! E viva Paulinho da Viola! E viva Paulinho da Viola!

Mas tem dia que eu não tenho paciência com o Poeta.

Hoje coloquei o Poeta entre os Canibais.

Daqui de cima estou vendo ele tentar convencer os Canibais, na base da metáfora.

Coitado.

Não sobrou nem a unha.

Poetas são descartáveis. E alimentam os Canibais.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

O anti-magnetismo animal

_Acho que amanhã vai chover.
_Que nada, vai fazer o maior sol!
_Fiu!
_...!
_De onde vem esse barulho de martelada? Só pode ser desse vizinho de cima, o ex-síndico! Aquele cara é o maior criador de caso.
_Nada disso. O ex-síndico mora do outro lado da prumada. O barulho de quebradeira vem daquela loura esquisita, que desce com o cachorro pelo elevador social.
_Você está enganada. A loura é que mora do outro lado da prumada. E isso é martelada.
_De jeito nenhum. E o ex-síndico era muito gentil. Nunca tive o menor problema com ele. Era solução, aquele cara. Nota dez!
_Xurinbindão,dubiru, dão, dão, era um garotão do... Martelo!
_...! E você vive reparando na loura, hein? Piso quebrado. Isso é barulho de quebra-dei-ra!
_Fiu!
_...!Loura, loura,loura...
_Foi você que falou da loura. Eu nem sabia do cachorro ascensorista.
_Cachorro...
_Amanhã o Brasil vai dar um chocolate nos Estados Unidos. O Robinho vai arrebentar, joga demais aquele chupador de polegar!
_A seleção está numa tremenda maré de sorte. O Robinho não desencanta nem com reza braba.
_Pé-de-pato mangalô! E três vezes!
_....!Viu. Parou a quebradeira.
_É o cachorro da loura que está berrando no chuveiro ou é o ex-síndico?
_Se for o cachorro, ele canta muito bem!
_De que lado você está, afinal?
_Ai, como você é paranóico e chato! E além de tudo é do contra! Não posso falar nada que você vira do avesso. Se eu falo que a nuvem é branca você diz que é preta! Eu não sou obrigada a concordar com tudo o que você fala, ouviu? Vou dormir, boa noite!
_Fiu!
Dizem que os opostos se atraem. Mas dá um trabalho...

terça-feira, 16 de junho de 2009

Auto-sabotagem do Careca

Auto-sabotagem é um tema que vem me cercando nas últimas semanas. Nas minhas navegadas pela Internet, tenho percebido aqui e ali o assunto surgir, na penumbra das telas. Naqueles pixels mais do canto, fugazes e velozes.
Auto-sabotagem é um assunto muito furtivo, que escapa entre os dedos. Por isso também fugi do tema por algum tempo. Mas aí me dei conta de que é melhor falar sobre isso antes que eu seja apunhalado pelas costas por mim mesmo.
A auto-sabotagem é um vício. E para se curar de qualquer vício, o primeiro passo é admitir que você é viciado. Então , para me livrar desse vício, comecei pelo “mea culpa”.
Achei exagero bater no peito e arrancar tufos de cabelos. Até porque só tenho tufos de cabelo no peito e na barriga, sobrancelha não conta. Além disso, ia doer pra caramba.
Então eu olhei para o espelho do banheiro, que está meio ruim, vai ser preciso trocar. Fiquei ali, olhando para o fundo dos meus olhos, nossa, estou com uma verruga nova. Aí esqueci o que eu estava fazendo. Minha memória é uma droga.
Fiz um esforço gigantesco para lembrar o que eu estava fazendo ali. Tentei associar as coisas logicamente. Espelho .Barriga. Tufo. Banheiro. Eu. Verruga. Não deu certo.
Tentei uma outra associação. Sobrancelha. Espelho. Tufo. Barriga. Banheiro. SETBB. SOESTUBARBAN.
_Já sei – eu berrei, completamente cheio da mesma razão diabólica que recheia os enredos de Código da Vinci e Anjos e Demônios .
_ Estou aqui para fazer a barba e tomar banho! Mas é claro! É lógico!
E então eu tomei banho e fiz a barba. Depois, uns trinta minutos depois, eu me lembrei que estava determinado a fazer alguma coisa urgente para me livrar do meu vício de auto-sabotagem. Aí deixei isso pra depois, como faço com a maioria das coisas urgentes.
Isso foi há seis meses, é claro. Hoje foi diferente. Decidi encarar o meu vício de auto-sabotagem na frente do espelho do banheiro e com um mantra.
_Deixe de sabotagem – eu disse, uma vez.
_Deixe de sabotagem – eu disse, outra vez.
_Eu não estou te ouvindo, Careca – disse a minha mulher, fora do banheiro. Tem papel no armário.
_Deixe de... mas que coisa mais besta, ficar falando alto no banheiro – eu disse.
_É besta mesmo – disse o vizinho de cima. O duto de ventilação do banheiro do meu apê é um atentado à privacidade humana. Mas deveria ser estudado por engenheiros de som. Desse meu banheiro, sou capaz de escutar descargas e pei...outros sons de outros 47 banheiros.
Mas do que é que eu estava falando mesmo?

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Diálogos com o telemarketing

_Alô, é o Seu Careca?
_Sou eu mesmo.
_Aqui é do Banco TAL, quem está falando é a Jaqueline, e a partir de agora, para sua maior segurança, nós vamos gravar esta conversa. Está tudo bem, Seu Careca?
_Sim, tudo ótimo, obrigado por perguntar.
_Pois então, Seu Careca, nós gostaríamos de confirmar umas informações, é possível?
_Nós quem?
_O quê?
_Não, QUEM. Você disse “nós gostaríamos de confirmar”. Quem é nós?
_Nós, do Banco, né, Seu Careca?
_Ah, você trabalha no banco? Engraçado, não me lembro de ver nenhuma Jaqueline aí na agência.
_Não, eu trabalho PARA o banco, Seu Careca. E estou confirmando algumas informações, tudo bem?
_ Tudo bem, Jaqueline. Já vai gravar?
_Já, já. Já está gravando, Seu Careca, e nós gostaríamos de...
_”Tranquei a vida, nesse a...partamento...”
_Seu Careca? Está tudo bem?
_Pô, Jaqueline, atrapalhou a gravação. Vou ter que começar de novo.
“Tranquei a vida, nesse a...partamento...”
_Seu Careca?
_Pô Jáqui. Você não gosta de Fábio Júnior, é?
_Seu Careca, nós gostaríamos de...
_Tudo bem, eu troco de música.
_Mas Seu Careca!?
_”Eu sou apenas um rapaz, lati no americano, sem dinheironubolso, sem parentes importantes, e vim do interior...”
_Seu Careca?
_Também não gosta de Belchior, Jáqui? Ele é mais fanho do que eu. Pelo menos isso você tem que admitir. Se bem que o fanho do Belchior não é um fanho qualquer, é um diferencial, é marca personalizada, mais até que o bigode...
_Seu Careca?
_Pois não, Jáqui?
_Nós poderíamos ligar um outro dia, num horário mais conveniente?
_Claro. Amanhã, nessa mesma hora. Eu já vou ensaiar desde já...
_Clic.

_Alô, é o Seu Careca?
_Jáqui, é você?
_Não, aqui é do Banco TAL, meu nome é Sandra e a partir de agora, para sua maior segurança, nós vamos gravar esta conversa. Está tudo bem, Seu Careca?
_Tudo ótimo, você conhece a Jaqueline?
_Desculpe, Seu careca, mas já estamos gravando e precisamos confirmar umas informações.
_Pode ir falando que eu confirmo.
_Precisamos do seu nome completo, CPF...
_Pois então, lê daí que eu falo sim ou não.
_Não, é o Senhor que vai dizer.
_Não, eu não dou informação por telefone.
_...Ahnn, nós poderíamos ligar um outro dia, num horário mais conveniente?
_Talvez sim, talvez não.
_...Ahn, e qual seria o melhor dia e o melhor horário?
_Amanhã, nessa mesma hora.

_Alô, é o Seu Careca?
_Jáqui? Sandra? Já está gravando?

domingo, 14 de junho de 2009

Uma peruca para ser MAD Beethoven

A minha vida inteira, percebi outro dia, eu desejei ter um busto de Beethoven na estante. Músico genial, cantado em verso e prosa, homenageado por Chuck Berry e pelos Beatles, Beethoven sempre fez falta aqui em casa. Embora eu só tenha notado essa ausência flagrante depois que eu comprei um kit “aprenda-a-fazer-escultura-sozinho”. Eu ando muito artístico, desde que comecei esse blog.

Ocorre que eu aproveitei um mega-ofertão de uma loja e trouxe um kit desses pra casa, no ano passado. O kit-escultura ficou dentro de um armário, pegando poeira, um tempão. E aí, num dia perto do carnaval, enquanto eu procurava os meninos durante mais uma seção de “Monstro do Armário”, tropecei no kit-escultura.

Depois, passaram mais algumas semanas, o kit empoeirou de novo. E teria ficado mais tempo empoeirado se não fosse o último feriado. É que, no sábado, liguei para o meu amigo Cabeça, para combinar o almoço tradicional de todo sábado.
_Pô, Careca, isso são horas? – ele me disse, à guisa de alô.
_Acorda, vagal, vamos almoçar – eu emendei, de bate-pronto.
_Estou em Lisboa, animal, sofrendo intensamente de jet-lag – ele me informou.
_Pô, Cabeça, o Brasil em crise e você torrando os reais em pastéis de Belém e vinho do Porto, que falta de patriotismo!
_Portugal é só o primeiro pit-stop. Dessa vez, vamos para a Itália – esnobou o Cabeça.
_Aproveita a viagem – falei, desligando o telefone. Só então me toquei da diferença de fuso horário. Então deixei passar mais cinco minutos, que era o tempo do Cabeça voltar a dormir e liguei novamente, é claro.
_Desculpe estar ligando novamente, Cabeça, mas é que senão depois eu esqueço. Aproveitando a sua ida à Itália, pode me fazer um favor?
_Tudo bem, ô Careca, fala aí – ele disse, prestativo.
_ Traz uma marguerita? Não, traz uma quatro queijos!
Considerando a diferença de fuso horário, até que ele não me xingou muito.

O que me traz, novamente, ao assunto da escultura. Bom, eu e minha mulher ficamos sem companhia para o almoço tradicional com o Cabeça e a Mulher do Cabeça, por isso acabamos por almoçar rapidinho. E depois, voltando mais cedo para casa, eu acabei abrindo o kit-escultura. E a primeira lição do kit escultura é fazer uma escultura de uma pessoa que você conheça bem, que é você mesmo. Eu segui todas as instruções cuidadosamente. Usei espelhos. Observei a minha própria cara com atenção. Amassei papel alumínio. Fiz uma base legal. E aí mostrei para a minha mulher:
_Quê ce acha, amor?
_Sei não, me lembra alguém, mas não me lembra você – ela disse, cautelosa.
_Vou ler o manual de instruções de novo – eu disse, resignado.

Fiz mais um esforço artístico e coloquei mais daquela massa plástica. Com a espátula, tentei reforçar relevos, detalhar nariz, boca e olhos. Aí desisti. Sem querer derrubei a cabeça no chão, junto com uma tinta e outros badulaques que estavam sobre a mesa. Enquanto eu lavava as mãos eu escutei ela comentar:
_Agora ficou parecido com o Mad, amor – ela falou, rindo como se me consolasse ter feito um busto ficar parecido com o Alfred Newman sem cabelos.
_E se você colocar uma peruca, vai ficar igualzinho àqueles bustos do Beethoven – ela continuou.
_Acho que eu não me conheço direito – eu falei, a título de desculpa.
_Ou então está ficando surdo – ela completou.
_Vai ver, meu dente da frente vai cair...