terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Corujas

Duas corujas "buraqueiras" se instalaram aqui em casa. Elas passam horas sobre uma luminária da janela do escritório e de vez em quando vão checar o ninho, feito dentro de uma saída pluvial no meio-fio. Acho que o cano deve estar entupido, pois tem chovido um bocado e as corujas continuam a entrar e sair do cano quando bem entendem.

É ótimo ter duas corujas em casa, o único inconveniente é que às vezes me esqueço delas. Outro dia, por exemplo, abri a janela do escritório distraído e comecei a escutar um barulho estranho, um "toc-toc-toc". Quando olhei para cima, uma das corujas estava com as asas abertas e ameaçava me atacar, fazendo "toc-toc-toc", um barulho que parecia vir de um bicho maior e mais violento do que uma coruja.

Tenho quase certeza de que uma delas é a mesma coruja que expulsei da oficina no final do ano passado, que eu fiquei chamando de Matilda. A outra, mais gordinha e um pouco menor, eu chamei de Gertrudes. Minha filha foi a primeira a observar que eu precisava mudar os nomes.

_Paiê, isso não está certo. É um casal de corujas. Um pai e uma mãe. Não pode ter dois nomes de menina - ela disse.

_Pensei nisso, pensei nisso. Mas veja bem. Eu não sei, e nunca vou saber, se essa que eu chamo de Matilda é uma menina ou menino. Pelo jeitão, pela agressividade - ela faz "toc-toc-toc" o tempo todo pra mim - ela bem que pode ser o homem da casa. Mas não tenho certeza. E se você quer saber, gostei de Matilde. Por outro lado, a Gertrudes é bem fofinha, parece que vai botar uns ovos, mas também pia forte e já me deu um rasante quando esqueci das duas e fui pegar o jornal na calçada. Então não dá pra ter certeza de que ela é ela. Ela pode ser ele. Por isso, ao invés de Gertrudes, eu pensei em um nome neutro, tipo Valdeci, que pode ser homem ou mulher, mas achei que não ficaria bem numa coruja. Pensando melhor, um nome neutro não fica bem em criatura nenhuma, né?

_E se a gente chamasse a Matilda de Alexandre? - ela disse.

_Ué, pode chamar. Mas para mim, vai continuar a ser Matilda.

_Mas aí não vale. Tem que ser um nome só.

_Aí é que você se engana. As duas são selvagens, a gente pode chamar do que for que elas nunca vão atender. Não é que nem o Rafa, elas nunca vão brincar de buscar e trazer com a gente.

_Bem que seria legal.

_E a Gertrudes, não vai trocar de nome? - eu disse.

_Harry - disse a minha filha.

_Harry? Como assim? Não foi você mesmo que disse que era um casal?

_E foi você que disse que não dá para saber o sexo de nenhuma das corujas.

_Não é sexo que se diz, é gênero - eu disse.

_Ah, sei lá, paiê, vai ver é um casal gay, ué.

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