quarta-feira, 31 de julho de 2013
terça-feira, 30 de julho de 2013
Sapatos
Usei botas ortopédicas durante uma porção de muitos anos. Era uma forma de tortura, é lógico, mas as mães não sabiam disso. E eu usava as tais botas. Eram brancas, as bandidas. Lembro de um modelo, especialmente incômodo, que tinha uma fivela no final do cano alto, Frankenstein aprovaria. Meus pés inchavam e doíam. Eu reclamava, mas os médicos diziam e as mães repetiam que aquilo era necessário para evitar um monte de outras coisas ruins. Eu não sabia quais eram as outras coisas ruins. Devia ser um terrorismo relacionado a escoliose, hérnia de disco ou coisa que o valha. Mas não importa. Na época das botas ortopédicas, eu queria liberdade. Eu odiava Ferrugem, o garoto propaganda dos calçados Ortopé. Minhas pragas rogadas, bem como de milhares de outras crianças torturadas, surtiram efeito. Ferrugem foi condenado a ser uma eterna criança obrigada a conviver com o refrão do seu comercial: Ortope, ortopé, tão bonitinho. Eu achava horrível, é claro. As botas, baixinho, franzino e míope com óculos de fundo de garrafa me transformavam num repugnante verme espacial mau humorado. Eu vivia irritado e a culpa era especialmente da bota. Como estava sempre irritado, eu vivia perdendo as estribeiras e apelava fácil. As primeiras vítimas estavam em casa. Eu chutava as pessoas na canela sob a menor provocação. Isso incluía adultos. Na época, alguns adultos também apelavam de volta, de vez em quando eu levava um cascudo ou um puxão de orelha só pra ver o que era bom pra tosse.
_Apelou pra bota! Apelou pra bota! - diziam os provocadores. Eu metia a canelada, sem dó.
Por isso fiquei feliz, muito feliz, quando parei de usar aquela droga odiosa de bota e ganhei um Conga. Sim, Conga é uma droga também, mas qualquer coisa é melhor do que uma bota ortopédica. Um adorava meu Conga azul. Sim, eu queria mesmo era um Kichute, mas o meu irmão tinha um, era só uma questão de esperar a minha vez. Essas coisas custavam caro. Um dia, o Kichute usado dele iria ser meu. O problema é que meu irmão tinha mania de jogar futebol todos os dias. E não fazia diferença, no gramado ou no cimento do futebol de salão, meu irmão usava o Kichute. Quando chegou a minha vez, o Kichute do meu irmão não valia uma gimba. Até os cardaços estavam rotos. Então ganhei outro Conga.
Tudo continuava numa boa, meu mau humor diminuía, a bota ortopédica era só uma lembrança, quando naquele ano eu mudei de escola. Putz. Novo uniforme. Uso obrigatório de sapatos. Quase chorei, foi uma lástima. Mas pelo menos eram sapatos pretos. Na primeira semana de aula, voltei a chutar canelas. Bastava calçar os sapatos para uma irritação maligna tomar conta dos meus pés e começasse a subir para minha cabeça, devagarinho. Na segunda-feira seguinte, dei início ao meu plano secreto para desgastar os sapatos o mais rapidamente possível. Ia para a escola a pé, era perto, e arrastava os pés o mais fortemente que podia. Eu calculava que bastaria uns 15 dias de pés arrastados para dar cabo daquele sapato. Mas na sexta-feira seguinte, o sapato Vulcabrás estava lá, firme e forte. Eu teria que incrementar o meu plano de desgaste sapatal.
Naquele mesmo dia, voltando da escola, já no elevador, decidi que iria incrementar o desgaste com chutes. E comecei naquele instante mesmo a dar chutes no elevador. Inclusive na porta sanfonada. Foi aí que prendi o pé e subi três andares arrastando o sapato numa posição impossível. Tive sorte de não quebrar nada. O couro do sapato foi lixado com toda força no espaço existente entre os andares. Nunca rezei tanto e tão forte quanto naqueles segundos em que arrastei o peito do meu pé direito por alguns andares. Para piorar, minha mãe me flagrou tentando disfarçar o sapato com graxa. Além de ficar de castigo, tive que usar o sapato preto recauchutado até o final daquele ano.
_Apelou pra bota! Apelou pra bota! - diziam os provocadores. Eu metia a canelada, sem dó.
Por isso fiquei feliz, muito feliz, quando parei de usar aquela droga odiosa de bota e ganhei um Conga. Sim, Conga é uma droga também, mas qualquer coisa é melhor do que uma bota ortopédica. Um adorava meu Conga azul. Sim, eu queria mesmo era um Kichute, mas o meu irmão tinha um, era só uma questão de esperar a minha vez. Essas coisas custavam caro. Um dia, o Kichute usado dele iria ser meu. O problema é que meu irmão tinha mania de jogar futebol todos os dias. E não fazia diferença, no gramado ou no cimento do futebol de salão, meu irmão usava o Kichute. Quando chegou a minha vez, o Kichute do meu irmão não valia uma gimba. Até os cardaços estavam rotos. Então ganhei outro Conga.
Tudo continuava numa boa, meu mau humor diminuía, a bota ortopédica era só uma lembrança, quando naquele ano eu mudei de escola. Putz. Novo uniforme. Uso obrigatório de sapatos. Quase chorei, foi uma lástima. Mas pelo menos eram sapatos pretos. Na primeira semana de aula, voltei a chutar canelas. Bastava calçar os sapatos para uma irritação maligna tomar conta dos meus pés e começasse a subir para minha cabeça, devagarinho. Na segunda-feira seguinte, dei início ao meu plano secreto para desgastar os sapatos o mais rapidamente possível. Ia para a escola a pé, era perto, e arrastava os pés o mais fortemente que podia. Eu calculava que bastaria uns 15 dias de pés arrastados para dar cabo daquele sapato. Mas na sexta-feira seguinte, o sapato Vulcabrás estava lá, firme e forte. Eu teria que incrementar o meu plano de desgaste sapatal.
Naquele mesmo dia, voltando da escola, já no elevador, decidi que iria incrementar o desgaste com chutes. E comecei naquele instante mesmo a dar chutes no elevador. Inclusive na porta sanfonada. Foi aí que prendi o pé e subi três andares arrastando o sapato numa posição impossível. Tive sorte de não quebrar nada. O couro do sapato foi lixado com toda força no espaço existente entre os andares. Nunca rezei tanto e tão forte quanto naqueles segundos em que arrastei o peito do meu pé direito por alguns andares. Para piorar, minha mãe me flagrou tentando disfarçar o sapato com graxa. Além de ficar de castigo, tive que usar o sapato preto recauchutado até o final daquele ano.
segunda-feira, 29 de julho de 2013
As coisas terríveis que aconteceram na minha infância
Nunca aconteceu nada demais, vou logo avisando. Talvez tivesse sido melhor chamá-los de terríveis não-acontecimentos. Um dos primeiros foi o dia em que a cidade inteira procurou por mim. Nós morávamos numa cidadezinha de dez mil habitantes na beira do Rio Araguaia, onde meu pai foi juiz. Ele adorava pescar e possuía uma grande lanterna vermelha para as pescarias. Para poupar as pilhas, ele deixava a lanterna numa gaveta e as pilhas em outra. Eu sabia todos os esconderijos. E também achava a lanterna imensa. Tinha quatro ou seis pilhas médias, não me lembro direito. Mas sei que eu precisava fazer muita força para fechar a lanterna. Pois naquele dia minha mãe procurou por mim pela casa inteira e não me encontrou. Só achou a lanterna vermelha sobre a minha cama. Minha mãe vivia dizendo para ficarmos longe do rio, era um pesadelo para ela. Minha mãe procurou nos vizinhos e nada. E logo todos os vizinhos e vizinhas da rua inteira e das outras ruas saíram para me procurar. A notícia de que um dos filhos do juiz estava sumido e poderia estar no rio ou até se afogado correu pela cidade como se fosse rastilho de pólvora. Num instante, toda a cidade foi vasculhar a beirada do rio para ver se me achavam. Três horas de busca e nada, minha mãe estava aos prantos, meu pai já tinha abandonado o expediente no fórum, a polícia já pretendia começar a ouvir os suspeitos de sempre. Foi quando um vizinho, o velho Seu Dôdô, chamou a minha mãe e segredou alguma coisa no ouvido dela. Minha mãe saiu correndo para casa e não deu outra, lá estava eu debaixo da cama, escondido e com medo de levar uma bronca. Seu Dôdô sabia das coisas.
_Criança quando faz arte, se esconde debaixo da cama - ele disse para a minha mãe. Eu havia desmontado a lanterna e não conseguia fechá-la. Achei que havia quebrado a geringonça quando a mola do fundo voou longe.
Um ano depois, eu devia ter seis ou cinco anos, nós já estávamos morando em outra cidade. Minha mãe dava um duro danado. No interior, tudo era muito mais difícil. Mas havia segurança. As pessoas não tinham muito medo do que poderia acontecer. Eu também não, é claro. Por isso, minha mãe não estranhou muito quando não conseguiu me encontrar naquela manhã. Era uma outra cidade, não estava na margem do rio e nós morávamos bem ao lado da igreja. O que poderia acontecer? Bom, eu sumi de novo. Mas desta vez não houve multidão nem correria. Um dos vizinhos do final da rua ( e era uma rua bem comprida) veio correndo avisar minha mãe que havia me visto.
_E onde ele está? Onde? - disse a minha mãe.
Mas eu mesmo respondi que já havia voltado. Eu havia pedido uma carona para o leiteiro, que passava pela manhã em frente a todas as casas. Ele deu a volta no quarteirão e me deixou na porta de casa.
E depois teve o dia em que eu prendi o pé na porta sanfonada do elevador.
_Criança quando faz arte, se esconde debaixo da cama - ele disse para a minha mãe. Eu havia desmontado a lanterna e não conseguia fechá-la. Achei que havia quebrado a geringonça quando a mola do fundo voou longe.
Um ano depois, eu devia ter seis ou cinco anos, nós já estávamos morando em outra cidade. Minha mãe dava um duro danado. No interior, tudo era muito mais difícil. Mas havia segurança. As pessoas não tinham muito medo do que poderia acontecer. Eu também não, é claro. Por isso, minha mãe não estranhou muito quando não conseguiu me encontrar naquela manhã. Era uma outra cidade, não estava na margem do rio e nós morávamos bem ao lado da igreja. O que poderia acontecer? Bom, eu sumi de novo. Mas desta vez não houve multidão nem correria. Um dos vizinhos do final da rua ( e era uma rua bem comprida) veio correndo avisar minha mãe que havia me visto.
_E onde ele está? Onde? - disse a minha mãe.
Mas eu mesmo respondi que já havia voltado. Eu havia pedido uma carona para o leiteiro, que passava pela manhã em frente a todas as casas. Ele deu a volta no quarteirão e me deixou na porta de casa.
E depois teve o dia em que eu prendi o pé na porta sanfonada do elevador.
domingo, 28 de julho de 2013
As crianças preferem as férias
Ontem os dois foram dormir tarde. Acordaram às sete. No último dia de férias, todos os segundo são preciosos. Havia uma visível ansiedade para brincar o máximo possível.
_Vocês já escovaram os dentes? - perguntei logo que acordei.
_Daqui a pouco, pai. Estou lendo esse livro.
_É, paiê, daqui a pouco a gente escova. Estou brincando com as bonecas.
Não adiantava insistir, eu já sabia, não é a primeira vez que as férias das crianças acabam. Todas as coisas foram postergadas até o limite máximo. Todas as chances de brincar foram aproveitadas. Fomos almoçar na casa dos avós e a farra com os primos também se estendeu. Depois do lanche que valeu um jantar, no retorno pra casa, parecia que todo mundo estava voltando da casa dos avós, foi uma verdadeira procissão de fim de férias. Meu filho estava tão exausto que dormiu no carro. A menina também estava cansada, mas insistia em tagarelar sem parar, contando as histórias das festas e amigas.
_Ao chegar em casa, banho e escovar os dentes - eu disse.
_Mas paiê, nós já escovamos - disse a menina.
_Já perdeu a validade.
Na hora de dormir, uma última tentativa de postergar o descanso.
_Paiê, não consigo achar o cavalo de pelúcia.
_Você tirou ele de casa? Pois então, não se preocupe. Ele deve estar em algum lugar daqui de casa, talvez aqui mesmo neste quarto.
_Mas paiê, eu não consigo dormir sem o cavalinho - ela disse, fingindo choramingar. Fiz uma rápida procura pelo quarto e encontrei o bicho de pelúcia, no meio de um monte de bichos de pelúcia.
_É este?
_Valeu, paiê. Agora eu posso dormir sossegada - disse a menina.
Meu filho também acabou enrolando um pouco. Desceu, foi pegar um pouco dágua. Depois voltou e se enrolou no cobertor, está fazendo frio em Brasília.
_Pai, quando você era criança, qual você achava melhor, férias ou escola? - disse o menino.
_Hum, isso é peguinha? Parece pergunta com peguinha.
_Não, pai, é sério. Qual você preferia: férias ou escola?
_Férias.
_Eu também. Mas pai, eu pensei que você ia falar que preferia escola, só para me fazer sentir melhor.
_Tudo bem, eu preferia a escola. Está se sentindo melhor?
_Não. Eu sei que você preferia as férias. A verdade é que as crianças preferem as férias. Os adultos é que preferem a escola. Acho que é tudo porque nas férias as crianças podem dormir mais tarde e acordar na hora que quiser. E nas aulas as crianças têm que dormir e acordar muito cedo.
_Não se você estudar à tarde. Aí você não precisa acordar tão cedo. Mas em compensação, você fica com muito sono depois do almoço - eu disse.
_Eu prefiro escola de manhã. Também sinto muito sono depois do almoço.
Os dois dormiram rapidamente.
_Vocês já escovaram os dentes? - perguntei logo que acordei.
_Daqui a pouco, pai. Estou lendo esse livro.
_É, paiê, daqui a pouco a gente escova. Estou brincando com as bonecas.
Não adiantava insistir, eu já sabia, não é a primeira vez que as férias das crianças acabam. Todas as coisas foram postergadas até o limite máximo. Todas as chances de brincar foram aproveitadas. Fomos almoçar na casa dos avós e a farra com os primos também se estendeu. Depois do lanche que valeu um jantar, no retorno pra casa, parecia que todo mundo estava voltando da casa dos avós, foi uma verdadeira procissão de fim de férias. Meu filho estava tão exausto que dormiu no carro. A menina também estava cansada, mas insistia em tagarelar sem parar, contando as histórias das festas e amigas.
_Ao chegar em casa, banho e escovar os dentes - eu disse.
_Mas paiê, nós já escovamos - disse a menina.
_Já perdeu a validade.
Na hora de dormir, uma última tentativa de postergar o descanso.
_Paiê, não consigo achar o cavalo de pelúcia.
_Você tirou ele de casa? Pois então, não se preocupe. Ele deve estar em algum lugar daqui de casa, talvez aqui mesmo neste quarto.
_Mas paiê, eu não consigo dormir sem o cavalinho - ela disse, fingindo choramingar. Fiz uma rápida procura pelo quarto e encontrei o bicho de pelúcia, no meio de um monte de bichos de pelúcia.
_É este?
_Valeu, paiê. Agora eu posso dormir sossegada - disse a menina.
Meu filho também acabou enrolando um pouco. Desceu, foi pegar um pouco dágua. Depois voltou e se enrolou no cobertor, está fazendo frio em Brasília.
_Pai, quando você era criança, qual você achava melhor, férias ou escola? - disse o menino.
_Hum, isso é peguinha? Parece pergunta com peguinha.
_Não, pai, é sério. Qual você preferia: férias ou escola?
_Férias.
_Eu também. Mas pai, eu pensei que você ia falar que preferia escola, só para me fazer sentir melhor.
_Tudo bem, eu preferia a escola. Está se sentindo melhor?
_Não. Eu sei que você preferia as férias. A verdade é que as crianças preferem as férias. Os adultos é que preferem a escola. Acho que é tudo porque nas férias as crianças podem dormir mais tarde e acordar na hora que quiser. E nas aulas as crianças têm que dormir e acordar muito cedo.
_Não se você estudar à tarde. Aí você não precisa acordar tão cedo. Mas em compensação, você fica com muito sono depois do almoço - eu disse.
_Eu prefiro escola de manhã. Também sinto muito sono depois do almoço.
Os dois dormiram rapidamente.
quinta-feira, 25 de julho de 2013
Nos últimos dias
El que persevera...
Voltei para a oficina nos últimos dias. Repintei o baú que fiz na semana atrasada de preto por fora e branco por dentro, consertei finalmente o pé da velha mesa de jantar e lixei e envernizei duas grandes mesas baixas com gavetas que meu irmão me deu. As mesas, cada uma com 1,80 m, foram colocadas na sala o que exigiu uma nova arrumação geral. Uma coisa leva a outra, foi por causa delas que me senti na obrigação de consertar o pé da velha mesa de jantar.
Foi a primeira mesa que compramos, assim que nos mudamos para o velho apê. É extensível. Isso significa que ela abre no meio e duas metades correm sobre uma moldura retangular. As junções desse tipo de mesa são bem boladas, com as quinas dos retângulos sendo fechadas por dentro por pequenos blocos de madeira, formando um triângulo. Cada uma dessas hipotenusas dos triângulos são atravessadas por dois grandes parafusos de latão amarelo que são rosqueados às pernas da mesa. A armação de madeira é dura, escura e pesada. As pernas são de pinus. A mesa ficou desconjuntada de tanto ser empurrada de um lado para outro. Isso forçou tanto a armação de madeira que um dos lados se esfacelou. A mesa só ficava de pé por causa de um remendo capenga que fiz ainda no velho apê, com um pouco de cola de pvc, parafusos e uma cantoneira. O remendo era horrível, mas funcionou durante uns oito anos. Com um pouco de boa vontade era possível não perceber que havia alguma coisa de muito errada com aquela mesa.
O conserto demorou mais do que eu pensei, mas ficou razoável. Só vou precisar de duas pinceladas de tinta preta para esconder os dois parafusos extras que usei para fixar a hipotenusa defeituosa. Conmo estava com o bicho carpinteiro, tratei de esvaziar e limpar toda a oficina novamente. A melhor coisa do trabalho com madeira é a possibilidade de devanear durante algumas horas. Depois fica bem mais fácil tirar o que está na cabeça e passar para o papel.
Assinar:
Postagens (Atom)