
Esqueci o nome do bicho. Eu tinha uns doze anos. Foi o único cachorro Chihuahuah que eu vi de perto. Era pequeno, neurótico como todos os da raça. Os olhos esbugalhados, como se o rato Ligeirinho tivesse sido capturado pelo gato Frajola. Triste. O chihuahuah é um cachorro triste de uma raça melancólica. Parece um bichinho bonsai, obra de um geneticista maluco, vítima de séculos de privações. De grandes, só sobraram os olhos, maiores do que o focinho.
Um dia o André Damasceno, dono do bicho, viajou. Eu não sabia. Fui visitar o André. A porta da cozinha do apartamento era metade vidro ondulado, com grade, metade metal. Apertei a campainha. Ouvi o bicho latindo. Então achei que havia alguém em casa. Escutei as unhas do chihuahuah contra o metal da porta. Também dava para escutar as patinhas do cachorro indo e voltando pelo corredor da área de cozinha. E latidos. O bicho latia muito. Resolvi esperar. Apertei a campainha novamente. Só latidos. Depois de três toques na campainha, desisti.
Naquela semana, a visita ao apartamento do André iria se tornar uma rotina frustrada. O André tinha a coleção completa do Mortadelo e Salaminho. Naquelas férias, eu havia planejado ler a coleção inteira. Mas a viagem do André havia estragado meus planos. O chihuahuah, por sua vez, parecia cada vez mais inquieto todas as vezes que eu tocava a campainha. Eu escutava as patinhas frenéticas do cachorro indo e voltando, cada vez mais nervosas. Os latidos agudos. Eu tocava a campainha três longas vezes, depois ia embora. Alguns dias mais tarde, no segundo toque comprido, o cachorro já acelerava as idas e vindas, os arranhões na porta de metal. Os latidos histéricos.
Depois de uma semana, o cachorro latia quando eu subia as escadas. O bicho se atirava contra a porta. Ele tomava impulso lá no fundo do corredor, na área de cozinha do apartamento, e se atirava contra a porta. Uma coisa maluca. E não parava de latir.
Resolvi parar de aparecer.
No final das férias, umas três semanas depois, o Jô veio me contar que o André Damasceno tinha voltado de Conselheiro Lafaiete, lá de Minas Gerais. Fomos visitá-lo. Achei que iria encontrar a família triste, de luto pelo cachorro.Para minha surpresa, o chihuahuah estava vivo. O André explicou que haviam deixado um saco enorme de ração para o bicho. Quando chegaram o saco estava pela metade, mas encharcado. Não havia um único canto limpo na área de cozinha, onde haviam encerrado o animal. Mas ele sobrevivera.
_Só está um pouco mais maluco. Se alguém tocar a campainha, ele começa se jogar contra a porta e a latir. E também não se pode fechar nenhuma porta perto dele. Nem a do banheiro. Ele fica doidinho, começa a latir, rosnar e babar.
E então o André explicou que desde que haviam voltado de férias, todos eles, os pais e o irmão do André, se revezavam para ficar com o chihuahuah, para não deixá-lo sozinho. Estavam todos arrependidos. Agora havia sempre alguém com o cãozinho. E enquanto ele acariciava o cachorro, o chihuahuah o olhava com desespero, tremendo o corpo inteiro.
Eu penso todos dos dias em uma vida menos chihuahuah.