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quarta-feira, 2 de abril de 2008

O texto que deveria ter sido publicado na segunda-feira




O Ray Bradbury tem um conto curto chamado “O homem em chamas”, que eu chamo de “Conto da Teoria da Genética da Maldade”. Não é porque acho o outro título ruim, é porque assim eu consigo me lembrar melhor da impressão que o conto me causou. Lá pelas tantas, no meio do conto, um personagem fala sobre a possibilidade da maldade ser geneticamente herdada. Não que eu ache que eu seja mau e tenha herdado essa maldade. Pelo contrário, sou até bonzinho. Às vezes. E gostaria muito de ter herdado um quinto da bondade e candura do meu pai. Ele sim, um gigante de bondade. Mas o Bradbury fala de maldade como uma herança genética qualquer. Nesse sentido, outro dia eu li um artigo sobre a possibilidade de existir um gen específico para a felicidade. Seríamos felizes por causa de um pedacinho de DNA que nos faria felizes e pronto. Tudo isso faz sentido. Faz sentido.

Eu tenho o gene de conversar borracha. E é só de vez em quando que esse gene funciona. Isso é uma coisa que vem de longe, desde os meus primeiros tatibitates. Para quem não sabe, conversar borracha é o mesmo que falar sobre qualquer coisa, de preferência besteira, procurando uma maneira de rir daquilo tudo. A melhor maneira de conversar borracha é em volta de uma mesa junto com outros seres humanos, com comida e bebida à vontade. Conversar borracha é uma característica que nos distingue dos macacos e gorilas, seres obviamente superiores, mas menos propensos ao riso. Aliás, considerando o efeito estufa, macacos e gorilas fizeram muito bem em não construir civilizações paralelas.

O gene de conversar borracha é transmitido pelas carnes, cereais, bananas, uvas, batatas e qualquer coisa que possa ser comida ou bebida, fermentada ou destilada, mas sempre em volta de uma mesa. O gene de conversar borracha passa de pai para filho, de amigos e amigas para amigos e amigas, de filho para pai e também entre os irmãos e irmãs. E vice-versa. As mães são imunes ao gene de conversar borracha, a não ser que gostem de piadas. Aliás, se você não gostar de rir um pouco, você é imune ao gene e pode trabalhar com contabilidade, por exemplo. Ou com seguros. Pode ser síndico, também.

Quem é portador do gene de conversar borracha se sente à vontade em cadeira de barbeiro e em banco de táxi. E também numa poltrona, vendo o telejornal. Basta alguém do governo anunciar alguma coisa que esses infectados já saem dando risada. Eu mesmo rio muito. Aliás, basta o sujeito fazer pose de sério que o meu gene se manifesta. E é difícil de controlar, esse gene. Eu espirro. Meu ouvido zumbe. O gene me sacode todo com risadinhas maldosas. É um horror.

Meu gene de conversar borracha outro dia começou a fazer as malas para se mandar. Estava achando tudo muito sem graça. Estava com olheiras. Meio barrigudo.

_Está tudo bem, meu gene? – eu perguntei. Eu de vez em quando converso com ele, sozinho, na frente do espelho. É solitário, esse gene.
_Careca, sabe o quêquié? Acho ótimo conversar borracha aos domingos. E aos sábados. Em todos os dias da semana, menos na segunda-feira. Segunda-feira é muito chato. Não há gene que agüente.

E, às vezes, eu sou obrigado a concordar com ele.

Frase do dia