
Aqui em casa é preciso cuidado com as palavras. Todo mundo se ofende facilmente.
Ele agora tem cinco anos de idade e hoje resolveu testar a minha paciência. Isso acontece muito. Ele atirou um dos brinquedos novos, do aniversário, no chão. Com toda a força. Eu avisei, mais uma vez, que o brinquedo poderia quebrar. Criança tem hora que é um saco.
Como todo mundo.
Eu respiro e conto até vinte e sete. É só o que dá tempo, porque ele jogou o brinquedo no chão, novamente.
_Pai, quebrou a perna! E agora?
_Eu avisei, agora nem adianta chorar.
_Conserta, pai!
_Esse aí não tem jeito. Não dá. Não pega cola nenhuma.
Não é má vontade. É que não pega mesmo. É um tipo de plástico que não pega super-bonder, nem cola branca, nem cola quente, nem pvc, nem cola de sapateiro, nada. Já tentei até derreter e costurar. Não dura nem um minuto. É brinquedo one-way. Um robô bacanérrimo, de um grupo de robôs super-bacanas. Mas se quebrar um pedaço, já era.
Tudo bem, acho que tem um pouco de preguiça no meio.
_Pai, não sou mais o seu amigo.
_Puxa vida, acho que já tivemos essa conversa antes, uma porção de vezes.
_É, só que agora é pra valer.
_O que vale é o nosso pacto de “amigos pra sempre”. Lembra?
_Pai, você compra outro?
_Ih, filho, você ganhou esse de presente. E aí fica ...
_Então, não sou mais o seu amigo.
_Acho que você está sendo repetitivo.
_O que é isso, pai?
_Repetitivo? É quando a gente diz a mesma coisa muitas e muitas vezes.
_Pai, você sempre diz não! Isso é muito “repetivo”!
_...!
Dei de ombros, concentrado na leitura de “Onde os velhos não têm vez”, que é excelente. Uns dez minutos depois, a minha filha, de três anos, vem chorando.
_Pai, meu irmão me xingou.
_Não precisa chorar. Conta o que aconteceu.
_A gente estava brincando de carrinho e ele me xingou.
_Do que foi que ele te xingou?
_De “repetiva”. Pai, eu sou “repetiva”? Sou? Hein, pai? Paiê?
É preciso cuidado com as palavras aqui em casa. Todo mundo é super sensível. Super.