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quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Uma carta para o Careca no futuro



Segui a idéia número dois da Keri Smith. Escrevi uma carta para mim mesmo no futuro.
Reproduzo aqui no blog, mas a carta de verdade está dentro de um envelope onde escrevi “FAVOR SÓ ABRIR EM 2015”.

Oi, Careca, sou eu, ou seja, você mesmo no passado.

É super difícil falar comigo mesmo na terceira pessoa, não sei como o Pelé consegue.

Mas vamos lá:

Oi, Careca, você deve estar pensando no que é que eu estava pensando quando escrevi essa carta. Para variar, em coisa nenhuma em especial. Hoje, dia 03 de setembro de 2008, você ainda é de uma confusão mental digna de um esquizofrênico. É incrível a quantidade de coisas que ficam lhe escapando da cachola. Você tem a capacidade de concentração de um babuíno faminto. Tudo atrai a sua atenção e você termina poucas coisas que inicia. Na prateleira que existe perto do computador há metade de um modelo de barco de madeira que você começou a construir em 2006. A última vez que você abriu a caixa desse barco foi quando você decidiu que as crianças já estavam maduras o suficiente para conviver com um pouco de serragem. Mas quando elas começaram a espirrar feito doidas, você percebeu que não entende nada de maturidade infantil.

Hoje seu filho ficou super-feliz porque você trouxe dois amigos da escola para brincar com ele. E sua filha também ficou mega contente, porque você trouxe uma amiga da escola para brincar com ela. No total, cinco crianças passaram a tarde inteira no apartamento e fizeram uma bagunça gigantesca. Você só curtiu um pedaço dessa brincadeira durante o almoço, porque teve que voltar rapidinho para o trabalho. À noite, eles esperaram para brincar com você. E os dois fizeram desenhos legais. Seu filho desenhou ele mesmo brincando de video game no computador, você mandando ele parar, a mãe isolada numa ilha deserta, a irmã chorando porque também queria brincar de video game mas ninguém deixou. O desenho está no envelope. Confira o modo como ele desenhou as letras do nome. Eu também fiquei orgulhoso. O outro desenho é da sua filha. Ela desenhou as duas professoras da escola alternativa. E repare como ela já sabe desenhar todas as seis letras do nome dela. E o mais engraçado é que ela desenha as letras da esquerda para a direita e depois da direita para a esquerda. Para ela não importa. Para mim também não. É uma linda princesa inteligente e sabida.

Eu pensei em colocar uma foto da Patroa com as crianças, mas o envelope estava ficando muito pesado. Hoje você comprou uma edição especial das Aventuras de Groo, do Aragonés. Guardou sem ler no meio da sua coleção de revistas em quadrinhos não abertas. Elas devem valer um bocado aí, em 2015. Ou então não valem nada. E você ficou sem ler as revistas de pura burrice e preguiça.

Hoje você comeu um sanduíche de presunto e queijo no café da manhã. Seu almoço foi um bife maravilhoso, junto com cinco crianças. Também tinha milho, batata cozida, arroz e feijão, uma salada perfeita, com tudo, xuxu e vagem. As crianças comeram super bem.

A Patroa está ralando um bocado no trabalho. E está costurando centenas de lembrancinhas para o aniversário da princesa. Você também se esforça. Mas acho que fica devendo. Todo mundo tem sido super legal contigo, com poucas exceções.

Acho que você cria expectativas demais. Numa boa. Você poderia ser bem mais feliz se não ligasse tanto para o que não tem importância.

Tomara que você esteja vivo. Sinceramente, é extraordinário que você tenha chegado até aqui, quanto mais aí. Eu gosto de você. E você devia se preservar mais. Parece que sua batata está assando, Careca.

Ó, se você ler essa carta, então escreva outra, para abrir em 2025.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

O cuidado com as palavras




Aqui em casa é preciso cuidado com as palavras. Todo mundo se ofende facilmente.

Ele agora tem cinco anos de idade e hoje resolveu testar a minha paciência. Isso acontece muito. Ele atirou um dos brinquedos novos, do aniversário, no chão. Com toda a força. Eu avisei, mais uma vez, que o brinquedo poderia quebrar. Criança tem hora que é um saco.

Como todo mundo.

Eu respiro e conto até vinte e sete. É só o que dá tempo, porque ele jogou o brinquedo no chão, novamente.

_Pai, quebrou a perna! E agora?
_Eu avisei, agora nem adianta chorar.
_Conserta, pai!
_Esse aí não tem jeito. Não dá. Não pega cola nenhuma.

Não é má vontade. É que não pega mesmo. É um tipo de plástico que não pega super-bonder, nem cola branca, nem cola quente, nem pvc, nem cola de sapateiro, nada. Já tentei até derreter e costurar. Não dura nem um minuto. É brinquedo one-way. Um robô bacanérrimo, de um grupo de robôs super-bacanas. Mas se quebrar um pedaço, já era.

Tudo bem, acho que tem um pouco de preguiça no meio.

_Pai, não sou mais o seu amigo.
_Puxa vida, acho que já tivemos essa conversa antes, uma porção de vezes.
_É, só que agora é pra valer.
_O que vale é o nosso pacto de “amigos pra sempre”. Lembra?
_Pai, você compra outro?
_Ih, filho, você ganhou esse de presente. E aí fica ...
_Então, não sou mais o seu amigo.
_Acho que você está sendo repetitivo.
_O que é isso, pai?
_Repetitivo? É quando a gente diz a mesma coisa muitas e muitas vezes.
_Pai, você sempre diz não! Isso é muito “repetivo”!
_...!

Dei de ombros, concentrado na leitura de “Onde os velhos não têm vez”, que é excelente. Uns dez minutos depois, a minha filha, de três anos, vem chorando.
_Pai, meu irmão me xingou.
_Não precisa chorar. Conta o que aconteceu.
_A gente estava brincando de carrinho e ele me xingou.
_Do que foi que ele te xingou?
_De “repetiva”. Pai, eu sou “repetiva”? Sou? Hein, pai? Paiê?

É preciso cuidado com as palavras aqui em casa. Todo mundo é super sensível. Super.

Frase do dia