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sexta-feira, 30 de abril de 2010

Porque o Careca torce para o Bangu

Houve uma época em que todo mundo na escola tinha que torcer para um time. E aqui em Brasília, como a maioria não era prata da casa, era de gente vinda de outros estados, todo mundo tinha um time do estado de origem. E já que podia torcer para mais de um time, então a regra geral era todo mundo escolher um time em cada estado e ter um time de coração, quase sempre do estado original.

Eu tinha oito anos de idade quando descobri essas regras. Eu era um menino bem caipira. Meu irmão é que sabia das coisas e me disse para quem torcer.

_Em Goiás, você é Goiás, é o time do seu coração. Em São Paulo, você é Palmeiras. No Paraná, você é Curitiba. No Rio Grande, você é Internacional. Em Minas, você é Atlético. No Ceará, ...

_E no Rio? - eu falei.

_No Rio, você escolhe. Pode ser Botafogo, Vasco, Flamengo, América, Fluminense, tem um monte. Mas escolhe direito. Depois que a gente diz que torce para um time, não pode torcer pra outro nunca mais. Quem faz isso é vira-casaca. E ser vira-casaca é a pior coisa do mundo! Ninguém gosta de vira-casaca! Eu detesto vira-casaca!

_Entendi - eu disse.


E durante alguns dias eu penei para escolher um time no Rio. Algumas vezes eu até tentei fazer com que meu irmão escolhesse o time para mim, como havia feito com os times dos outros estados.

_Não. É você que tem que escolher, oras! - ele falou.

_Oras, mas você me disse os times nos outros estados, porque não me diz o do Rio?

_Porque lá eu só torço para o bom futebol. Não tenho time no Rio. Lá eu tenho muitas simpatias.

_E então porque eu tenho que ter?

_Porque você não é igual a mim, oras.

_Oras.

E realmente não funcionava comigo. Todo mundo que perguntava para o meu irmão sobre o time do Rio, ele dizia a mesma ladainha:

_Só tenho simpatias, no Rio. Lá eu torço mesmo é para o bom futebol.

E quando eu me perguntavam e eu respondia a mesma coisa, os caras diziam:

_Pô, esse moleque é o maior mané, repete tudo o que o irmão fala. Qualé?

Então um dia, eu cerquei o meu pai e expliquei a situação para ele. Disse que precisava urgentemente da indicação de um time para torcer no Rio.

_Eu gostava muito do Bangu - disse o meu pai.

Tomei aquilo ao pé da letra. Desde então eu digo para todo mundo que torço para o Bangu. Outro dia, quando conversava com o meu pai sobre os times de futebol, eu contei que tinha sido ele que me indicara o Bangu.

_Eu? Eu, não.Jamais. No Rio eu sempre torço pelo bom futebol...


(Pessoal, ESSE É O MEU POST NÚMERO 900!! LEGAL, NÉ?)

quinta-feira, 27 de março de 2008

O craque de botas



Eu usava botas ortopédicas para os meus pés chatos. E como eu era muito franzino, era enfezado e vingativo. As botas me deixavam de mau humor. A mínima contrariedade era respondida a pontapés.
_Apelou para a bota! Apelou pra bota! – meu irmão e minhas irmãs diziam, em coro.
E eu apelava mesmo.
Na época, todos os meninos do Brasil respiravam futebol. E meu irmão, dois anos mais velho, era um craque do futebol. Eu, naturalmente, queria ser como o meu irmão. Mas com os óculos e as botas ortopédicas, isso era meio difícil.
Eu era enfezado, vingativo, míope e cabeça dura. Eu achava que meu irmão jogava bem por causa de umas chuteiras pretas, de lona e travas de borracha pretas, chamadas Ki-chute. Eu achava que a velocidade, os dribles curtos e desconcertantes, os chutes precisos e até os gols de cabeça do meu irmão só eram possíveis por causa daquelas Ki-chute. E eu queria muito ter um par daquelas chuteiras mágicas.
Meu pai bem que tentou. Ele era juiz numa cidadezinha no interior. As mercadorias só apareciam de vez em quando, naquele fim de mundo. Eram vendidas em caminhões que enfrentavam arremedos de estradas daqueles cafundós. Os caminhões levavam de tudo. Geladeiras a querosene, lampiões a gás, fogões, bicicletas... qualquer coisa, inclusive sapatos e chuteiras Ki-chute. E no dia em que o caminhão chegou, meu pai disputou a última chuteira disponível do caminhão. Quatro números a mais do que o tamanho ridículo que eu usava. Só serviam nos pés do meu irmão. E mesmo assim, ele usava um meião grosso para aquilo não escorregar dos pés. Os cordões enormes, trançados feito uma sandália grega, completavam a garantia de que o Ki-chute não deslizaria para fora, no primeiro chute. Era uma proeza alguém conseguir jogar bola com uma chuteira tão folgada. E era um milagre jogar bola tão bem quanto meu irmão com um treco daqueles nos pés. Mas eu era o pior cego. Não queria ver.
Aquela foi a última chuteira do caminhão. Ninguém sabia quando outro caminhão iria aparecer. Meu pai, que também sempre agiu como perfeito juiz com os filhos, com a parcimônia equânime e igualitária de suas atenções, só conseguiu um único par de tênis para mim. Era uma conga. Azul marinho. Tamanho 30. Nunca esqueci. Fiz ceninha quando ganhei. Joguei a conga longe. Eu também queria uma Ki-chute. As explicações não me satisfizeram. Ameacei sair de casa. Minha mãe achou graça. Eu tinha uns sete anos. Fiquei sentado num monte de terra na frente da casa. Meia hora depois eu voltei para casa.
_Ué, você não ia sair de casa? – zombou a minha mãe.
_Fiquei com sede. Mas já vou embora. – e tornei a sair.
Mais meia hora e entro de novo.
_Pede desculpas pro seu pai e corre para o banho.
Fiz como mandado. Mas continuei com a história das chuteiras mágicas na cabeça. E meu irmão brilhava nos gramados. Jogava até em time de gente maior. Driblava, driblava, armava jogadas incríveis, passava a bola com maestria e segurança. Era um craque. E quando marcava gol, fazia como o Pelé, um soco preciso no ar.
Eu era míope e invejoso. E tinha umas congas para jogar bola. Mas um dia, eu apelei e fui jogar de botas ortopédicas. Naquele dia, eu corri como o vento. E chutei canelas como um criminoso de guerra. Mas o mais importante é que eu chutei mais forte do que nunca e marquei três gols de fora da área. Até o meu irmão me elogiou. Eu, de repente, amava aquelas botas ortopédicas mágicas. Eu nunca mais iria me queixar delas. No dia seguinte, eu jogaria novamente com as botas. Eu iria me tornar o novo rei do futebol. Cheguei em casa, radiante, eufórico, mais leve que o ar. E assim que abri a porta do quarto, meu pai disse:
_Chega de botas! Adivinha quem ganhou uma Ki-chute nova?

Frase do dia