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quinta-feira, 8 de maio de 2008

Meus 15 segundos



Vamos supor que o Andy Warhol estivesse certo e hoje, no final da tarde, fosse o dia dos seus famosos 15 segundos. Acho que o Warhol tinha dito 15 minutos, mas o povo viu que era tempo demais e resolveu abreviar. Vamos lá. Todo mundo que presta atenção no planeta estaria prestando atenção em você, depois da 18 horas. O que você diria nos seus 15 segundos?

Peguei você de surpresa? Mas acho que é assim que a coisa acontece. A Comissão de Escolha dos 15 Segundos Mais Importantes da Sua Vida não se reúne todos os dias e tem milhares de pessoas para escolher. E então? Esses caras têm mais o que fazer. Eles não vão trocar o seu horário. Nem adianta pedir. É ao vivo, não é gravação.

Eu pensei numas coisas. A primeira e mais óbvia: ficar calado. Olhar fixamente para frente, como se estivesse olhando os olhos de todo mundo. Piscar devagar, um olho de cada vez. Depois os dois juntos. Um mutismo enigmático, mas significativo.

Nááááá.

Aposto que muita gente ia fazer isso. Mas é só lembrar de alguém de olhos grandes que a gente se toca que ficar calado não é uma boa opção. Além disso, meus olhos não são muito expressivos, estão mais para míopes.

A segunda coisa em que pensei foi em dizer o meu nome. Mas ia parecer propaganda política. E dizer o nome para quê? Tanta coisa importante para dizer e aí eu falo o meu nome? Não tem nada a ver.

A terceira coisa em que pensei foi declamar uma poesia. Mas é meio besta, isso de falar poesia. Ainda mais em 15 segundos. Se eu fosse o Manoel Bandeira, por exemplo, só daria tempo para dizer: “Minha primeira namorada foi o meu porquinho da índia”. O que me deixaria gravado na memória do planeta como um inacreditável pedozoófilo careca. E isso não corresponde à realidade. Não, senhor. Poesia, música, assobiar e fazer careta não acrescentariam nada à consciência planetária.

Quer dizer, o tempo é curto. Tem de ser bem aproveitado. Se eu tivesse um negócio de família, tipo plantação de milho, talvez eu puxasse brasa para a minha sardinha. “Comprem milho Careca. Comprem milho Careca”. Mas, com certeza, a Comissão deve vetar esse tipo de anúncio. E eu também não tenho negócio de família.

Nesses 15 seg, beber um copo dágua gelada seria uma crueldade com quem tem sede? Acho que a Comissão deve vetar o uso de material de contra-regra, tipo chiclete, bife, garfo, faca, lâmpada, fósforo, régua, cordão, buzina, corneta, bumbo, bomba, vela e qualquer objeto de cena.


BRANCO.

Então eu pensei em branco, durante um tempo. Quer dizer, não conseguia pensar em nada decente, louvável, educado e bacana para se dizer para alguns bilhões de seres humanos do planeta. Todas as sacanagens, bobagens, idiotices, burrices e sandices que vinham à minha cabeça já estão sendo ditas, todos os dias, há muitos e muitos anos. Não quero ser mais um a repetir ignonímias.

Aí eu pensei no que o Pelé disse. Love, love, love. Ele podia ter dito qualquer coisa, teve até mais do que 15 segundos, mas escolheu uma mensagem curta, simples, objetiva e direta. Não é o que todo mundo precisa há mais de dois mil anos? Talvez ele tenha razão. Mesmo assim, um monte de gente chamou ele de babaquara. O Caetano não. O Caetano sacou a transcendentalidade. Depois esqueceu. É difícil. Os 15 segundos não garantem aprovação por unanimidade. Muito pelo contrário.

Eu não tenho medo de me chamarem de babaca. Meu receio é de, no final, se isso acontecer mesmo, acabar por aparecer de um jeito ridículo, improvisado. Como o calouro do concurso da TV, que segue aos tropeços até o microfone e diz: eles me empurraram, eles me empurraram! Antes de mandar um beijo para o papai e a mamãe.

Na verdade, meu medo mesmo é de não ter nada para dizer. E na hora h, ficar sufocado em conselhos banais, paternalistas. E aí ficar parecido com animador de quadrilha: Usem fio dental! Protejam as crianças! Vote em gente honesta! Cuidado com o sol! Olha a chuva!

Ou pior ainda, pensar no final do livro do Kafka e antes do clic final dizer: “Igual a um cão.” Então eu torço para a Comissão demorar muito a me escolher.

E você? O que você diria nos seus 15 segundos?

quinta-feira, 27 de março de 2008

O craque de botas



Eu usava botas ortopédicas para os meus pés chatos. E como eu era muito franzino, era enfezado e vingativo. As botas me deixavam de mau humor. A mínima contrariedade era respondida a pontapés.
_Apelou para a bota! Apelou pra bota! – meu irmão e minhas irmãs diziam, em coro.
E eu apelava mesmo.
Na época, todos os meninos do Brasil respiravam futebol. E meu irmão, dois anos mais velho, era um craque do futebol. Eu, naturalmente, queria ser como o meu irmão. Mas com os óculos e as botas ortopédicas, isso era meio difícil.
Eu era enfezado, vingativo, míope e cabeça dura. Eu achava que meu irmão jogava bem por causa de umas chuteiras pretas, de lona e travas de borracha pretas, chamadas Ki-chute. Eu achava que a velocidade, os dribles curtos e desconcertantes, os chutes precisos e até os gols de cabeça do meu irmão só eram possíveis por causa daquelas Ki-chute. E eu queria muito ter um par daquelas chuteiras mágicas.
Meu pai bem que tentou. Ele era juiz numa cidadezinha no interior. As mercadorias só apareciam de vez em quando, naquele fim de mundo. Eram vendidas em caminhões que enfrentavam arremedos de estradas daqueles cafundós. Os caminhões levavam de tudo. Geladeiras a querosene, lampiões a gás, fogões, bicicletas... qualquer coisa, inclusive sapatos e chuteiras Ki-chute. E no dia em que o caminhão chegou, meu pai disputou a última chuteira disponível do caminhão. Quatro números a mais do que o tamanho ridículo que eu usava. Só serviam nos pés do meu irmão. E mesmo assim, ele usava um meião grosso para aquilo não escorregar dos pés. Os cordões enormes, trançados feito uma sandália grega, completavam a garantia de que o Ki-chute não deslizaria para fora, no primeiro chute. Era uma proeza alguém conseguir jogar bola com uma chuteira tão folgada. E era um milagre jogar bola tão bem quanto meu irmão com um treco daqueles nos pés. Mas eu era o pior cego. Não queria ver.
Aquela foi a última chuteira do caminhão. Ninguém sabia quando outro caminhão iria aparecer. Meu pai, que também sempre agiu como perfeito juiz com os filhos, com a parcimônia equânime e igualitária de suas atenções, só conseguiu um único par de tênis para mim. Era uma conga. Azul marinho. Tamanho 30. Nunca esqueci. Fiz ceninha quando ganhei. Joguei a conga longe. Eu também queria uma Ki-chute. As explicações não me satisfizeram. Ameacei sair de casa. Minha mãe achou graça. Eu tinha uns sete anos. Fiquei sentado num monte de terra na frente da casa. Meia hora depois eu voltei para casa.
_Ué, você não ia sair de casa? – zombou a minha mãe.
_Fiquei com sede. Mas já vou embora. – e tornei a sair.
Mais meia hora e entro de novo.
_Pede desculpas pro seu pai e corre para o banho.
Fiz como mandado. Mas continuei com a história das chuteiras mágicas na cabeça. E meu irmão brilhava nos gramados. Jogava até em time de gente maior. Driblava, driblava, armava jogadas incríveis, passava a bola com maestria e segurança. Era um craque. E quando marcava gol, fazia como o Pelé, um soco preciso no ar.
Eu era míope e invejoso. E tinha umas congas para jogar bola. Mas um dia, eu apelei e fui jogar de botas ortopédicas. Naquele dia, eu corri como o vento. E chutei canelas como um criminoso de guerra. Mas o mais importante é que eu chutei mais forte do que nunca e marquei três gols de fora da área. Até o meu irmão me elogiou. Eu, de repente, amava aquelas botas ortopédicas mágicas. Eu nunca mais iria me queixar delas. No dia seguinte, eu jogaria novamente com as botas. Eu iria me tornar o novo rei do futebol. Cheguei em casa, radiante, eufórico, mais leve que o ar. E assim que abri a porta do quarto, meu pai disse:
_Chega de botas! Adivinha quem ganhou uma Ki-chute nova?

Frase do dia