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domingo, 7 de março de 2010

Trocando a faixa com Bruce Lee

O sábado foi marcado pela cerimônia de troca de faixa do meu filho no judô. Ele conquistou a faixa cinza. Não falamos muito sobre o assunto “Faixa” durante esta semana, mas a troca era uma coisa esperada desde a virada do ano. Na verdade, a troca de faixa é uma coisa era ansiosamente desejada pelo meu primogênito desde que ele entrou no judô, no semestre passado. No final do ano, alguns dias depois que ele iniciou o esporte, houve uma cerimônia de troca de faixa na academia. Eu não vi. Foi minha mulher que me contou. Mas os olhos do menino brilharam durante aquela troca de faixa, especialmente quando um garoto do mesmo tamanho foi agraciado com uma faixa azul escuro.

Desde então, meu filho sonha com uma troca de faixa. A fantasia rola solta nessa hora, como nos desenhos da TV. Meu filho imagina que o mestre perceberá seu extraordinário poder judoca durante um exercício rotineiro, de rolar e bater o braço, e então deixará, discretamente, a faixa azul escuro sobre o seu quimono. Ou então, durante uma luta, uma faixa mágica azul escuro se amarrará sozinha em sua cintura e fará dele o campeão dos campeões. Ou ainda, depois de beber água durante um intervalo, a força do sensei da fonte secreta fará com que ele vença as lutas com todos os carinhas da academia, inclusive o sensei que, derrotado, lhe dá a faixa azul escuro. Por causa disso, azul escuro passa a ser a maior faixa do judô.

Eu também criei expectativa, é lógico. Na minha cabeça, imaginei a cerimônia com jeito de “Operação Dragão”, do Bruce Lee. Uma dezena de mestres e senseis faixas pretas em posição de ioguim, num dojo enorme, com uns trezentos judocas enfileirados e em posição de Karatê Kid, lutando como loucos. É lógico que foi bem diferente. Para começar, Bruce Lee nunca foi judoca. E o Karatê Kid era tudo, menos Kid. E a academia é pequenininha. Mas fomos todos, eu, minha filha, minha mulher e o campeão de sonhos judocas para a cerimônia.

Foi comovente. O mestre do judô é um jovem ex-campeão sul-americano chamado Gui, que é de uma humildade impressionante. O cara também é tímido à beça e não termina nenhuma das frases que articula. Ao invés disso, ele mexe os braços e olha para baixo, como se tivesse vergonha de concluir um assunto. Sozinho e desajeitado, ele tentava colar umas letras no espelho “Confraternização de Troca de Faixa”. Era uma frase enorme, mesmo para alguém com padrões diferentes do Mestre Gui. As letras de papel cartão laranja evidentemente não haviam sido recortadas por ele. Aquilo era bom demais para ser verdade. Aquilo era trabalho de mãe. Mestre Gui então foi socorrido por um monte de instrutoras da academia. Acho que o ex-campeão é solteiro e as moças devem sonhar em ser imobilizadas por ele em outros tatames. Elas fizeram um bom trabalho.

Com a máquina fotográfica, tirei um monte de fotos do meu filho fazendo poses de lutador de kung fu em frente ao espelho com as letras laranja. Num instante, um monte de pais e mães, avós, tios e sobrinhos lotaram a sala de judô da academia. O ar condicionado teve que ser colocado no máximo. Os meninos foram chamados para o tatame e organizados em fila. Todos tinham uma aparência muito séria e compenetrada, inclusive meu filho. Sem prática com discurso, Mestre Gui passou a palavra ao seu “sensei” e a outro convidado faixa-preta. Não guardei os nomes dos caras. Mas eram grandões, bem articulados. Os tipos falaram sobre as virtudes do judô, da formação de caráter, da organização do Estado, da cotação do dólar, das falhas do nosso sistema educacional, do nosso empresariado medíocre, da importância da luta contra a corrupção, televisão, quem merecia ganhar o Oscar, álcool, drogas, silicone, aborto e, como não poderia deixar de ser, do BBB. Foi um blá-blá-blá tão educativo quanto um jingle.Na minha cabeça, Bruce Lee , que nunca foi judoca, dava aqueles gritos agudos antes de aplicar sopapos no sensei grandalhão que discursava. Registrei alguns momentos com a máquina fotográfica.

Depois da peroração, Mestre Gui permitiu que as crianças brincassem um pouco. Busquei posições bem estratégicas para tirar fotos sensacionais. Em seguida, todos começaram a fazer exercícios de judô e a lutar. Mais fotos sensacionais.

Chegou, enfim, a hora da troca de faixa. As crianças estavam a mil por hora, mas o Mestre Gui, com a sua fantástica dicção, restabeleceu a ordem com um grunhido rouco, um pouco mais alto.

_Grrrrrruuuunnnnnt! – e todos os meninos e meninas se perfilaram com a postura mais correta desse mundo. Confesso que me deu uma inveja danada daquele grunhido. Aqui em casa de vez em quando eu berro e não adianta nada.

Quando começou a distribuição de faixas e diplomas, eu me preparei para tirar uma foto sensacional do meu filho vestido em seu quimono, com a nova faixa cinza. Mas só consegui tirar uma única foto, meio de longe, porque a bateria da máquina acabou na hora. Essas coisas vivem acontecendo.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O liquidificador de azeitonas maquiavélicas



_Matem o Dijêi! Matem o Dijêi!
Um amigo barbudo do Itamaraty foi quem inventou esse corinho para mim, numa festa de aniversário de vinte e poucos anos do Natalício. Festa muito legal. Foi na época em que o Natalício dividia apartamento com outra amiga, que vou omitir o nome. Eu achava o Natalício o máximo, pois dividia apartamento com uma mulher. Caramba! Era o máximo!
Todo mundo queria farrear à vontade e depois ir para uma cama quentinha, do lar, com quem conseguisse trazer para casa. Mas na casa dos pais não dava, é lógico. A não ser que eles estivessem viajando. Hoje em dia pode, eu sei. Pode com todo mundo em casa, pai, mãe, tio, tia, irmão, irmã, agregado, agregada, atroianada. Eu vejo nas revistas que a Patroa compra. Mas no meu tempo não podia. Ponto. Até meu irmão mais velho, que morava fora, obedecia a regra. Aqui, no Brasil. Lá, morando sozinho, ele se esbaldava.
Pois o Natalício podia. Ele e a amiga não eram namorados. Ele e ela podiam. E o melhor de tudo é que eles não precisavam trazer para casa. Eles farreavam lá e já estavam em casa. Era só fechar a porta do quarto. Eu achava os dois as pessoas mais felizes do mundo. E acho mesmo que eram.
E a sala do apartamento dos dois era pequena, quase apertada, mas nós gostávamos das festas de lá porque todo mundo tropeçava em todo mundo e conversava borracha pacas.
Todos os nossos sonhos comprimidos numa sala quatro por quatro. Todo mundo sentado no chão, sobre almofadas, encostados na parede. Tinha sempre um maluco dançando no meio, feito índio. Todo mundo de copo na mão. E naquela época, quem não tinha cigarro na boca é que era esquisito. E só para se ter uma idéia, tinha gente que agüentava beber caipirinha em copo de plástico branco, descartável. E tinha os piores, que agüentavam tomar vinho de garrafão em copo de plástico. Pensando bem, eu conseguia fazer as duas coisas e achar muito bom. E gostava de dançar que nem índio. Ah, e lá tinha um bom aparelho de som, com duas enormes caixas JBL. Na verdade, a geladeira e o aparelho de som eram os únicos eletrodomésticos que precisávamos. Não, tinha o liquidificador. É, o “Liqui”. Na casa desses dois, tinha um aparelho de liquidificar tão velho e tão gigantesco que nós batizamos ele de “Liqui”. Na verdade, eu, sozinho, batizei ele de “Liqui”. Era tão barulhento que, por pouco, muito pouco, o “Liqui” não se tornou também uma pessoa jurídica. Embora, olhando com calma, não haja uma relação estreita entre essas coisas. Aliás, no varejo e no atacado, não há relação alguma. Não importa.
O “Liqui” tinha sido meu presente para a dupla. Era uma reminiscência de um outro episódio envolvendo a minha enorme capacidade de me meter em encrencas. Eu conheci o “Liqui” numa outra festa, quando eu ainda ia para as festas em que os pais estavam presentes. Foi na festa da Ariane, uma ex-namorada do Cabeça. O pai dela, o Seu Fulano, nos levou para a cozinha e cismou de mostrar a coleção de cachaça dele para nós, que tínhamos acabado de tirar carteira de motorista. Na terceira dose, eu já estava como o peru na véspera de Natal. Glu?Glu? Quando eu olho para uma prateleira e vejo ele, o “loro” da casa. Um papagaio lindo, simpático, verde como as azeitonas.
_Dá o pé, “loro”? – e estiquei o dedo, na maior inocência e integração com a natureza.
A dor de uma bicada lancinante me trouxe de volta para a realidade por alguns segundos. Abri os olhos. Meninos, eu vi! Era um papagaio velho e com a maior cara de sacana do planeta. Cobri o bicho de petelecos, para horror da Ariene e do pai dela, que chamavam o bicho de “Bandite”. O nome era derivado dos círculos pretos em volta dos olhos malvados da criatura.
_Pois esse Bandido aí quase arrancou o meu dedo! – eu disse, encaixando um upper-peteleco no bico do bicho.
A Ariene, o Cabeça, e o pai da Ariene conseguiram me arrastar para fora da cozinha. O Cabeça me segurava, como se eu fosse um lutador de boxe, preso nas cordas depois de um golpe baixo do adversário. Eu era um cowboy ultrajado. Um herói exposto à kriptonita verde daquela ave maligna. Eu era o Kung Fu contra o “esmeraldino pássaro maquiavélico”. Respirei fundo. Fingi que estava calmo e arquitetei a minha vingança. Depois de uma meia hora, quando todos, menos eu, já haviam bebido e esquecido o episódio, entrei sorrateiramente na cozinha à procura do “loro”. O pequeno diabrete tinha cérebro. Parecia ter adivinhado que eu iria voltar. Estava no alto da prateleira. Meu dedo latejava. E eu tinha que agir rápido, antes que ele pedisse socorro.
(Continua)

quarta-feira, 19 de março de 2008

Não Tibet com o Dalai Lama




Eu fico observando os outros quando paro nos semáforos. Faço isso discretamente. Uso os espelhos, para não deixar ninguém assustado. Conforme observou, bem antes de mim, o grande Jacques Tati, quase todo motorista enfia o dedo no nariz assim que para no semáforo. Por isso, eu conto até trinta antes de começar a observar os outros. Com o dedo no nariz, é claro.
Em geral começo minha observação pelo retrovisor. Dou uma esquadrinhada no motorista que está atrás de mim. Depois faço o mesmo usando os espelhos laterais. Por último, dou umas espiadas de lado. Essas espiadas de lado são difíceis de fazer porque eu tenho muito torcicolo de manhã, sabe? Então eu fico ali, de pescoço duro, disfarçando que não estou bisbilhotando o motorista do lado, quando na verdade estou. É super difícil. Às vezes, o meu pescoço está tão duro que só dá para espiar se eu virar o tronco junto. Ou então, eu viro só os olhos. E isso é meio grotesco. Quero dizer, eu mesmo nunca me vi fazendo isso. Mas de vez em quando algum motorista leva um susto e eu percebo.
Estou ali, meditando no semáforo, observando o ser humano com moderação. Sou um egoísta, é verdade. Mas gostaria de dividir com vocês, ó meus leitores, o tipo de coisa que eu penso nesses momentos de intensa meditação. Para isso, escolhi o que aconteceu hoje, por volta das oito e trinta, no semáforo em frente ao Palácio, sentido rodoviária. O parágrafo seguinte é uma tentativa canhestra de transcrever um pouco da agitação cerebral que ocorre quando para no sinal vermelho.
“Olhe aquele cara ali, meu Deus, será que eu vou ficar velho e feio assim? Valei-me! Esse maníaco do fusca quer estourar os tímpanos de todo mundo! Estou enjoado. É de passar mal! Cadê o Engov de ouvido? E eu não posso andar armado. E que nhacanhaca é essa que ele está ouvindo? Ivete Sangralo! Je-sus! E esse taxista, tá olhando o quê? Deviam cobrar mais imposto de taxista. Mas fazem o contrário. Esses caras rodam mais que todo mundo, mas pagam menos. Mesma coisa de caminhão. E deviam cobrar mais imposto de quem tem carro velho. Daquele fusca ali, por exemplo. E deviam cobrar mais imposto de carro feio. Olha só, solta mais óleo que pastel de rodoviária. Deviam cobrar mais imposto de quem gosta de música ruim. Deviam cobrar mais imposto de gente feia também. E o que é aquele ovo colorido de vermelho? É seu reflexo, anta! Aliás, você deve ser o único careca do mundo que tem caspa! Ai caramba, tem um alternativo na faixa de pedestre. É um coroa de chapéu. Mexicano. Será o Velho Tom? Não. O Véi fugiu? Ele não tem memória. Mas tem uma coleção legal de flash-backs! Ih! Vai chutar o fusca da Ivete! Chutou! Bem na hora que o sinal abriu! Boa! Vou me mandar antes que sobre pra mim. Rá, rá.”
E o quê diabos isso tem a ver com o Dalai Lama?
Bom, eu também sou a favor da não-violência. Eu também sou de paz. Eu também quero que os caras do bem continuem a tentar subir no Everest, na cordilheira do Himalaia. E eu também torço para que os monges e o pessoal do Tibet consigam viver em paz. Mas tudo na vida tem limite, né? Se não desse, queria que chutassem o equilíbrio pra escanteio e cobrissem os chinas de porrada, no melhor estilo Kung Fu. E se não fosse pelo meu torcicolo, eu até entraria nessa briga. Mas, assim como você, eu apoio a luta dos tibetanos diariamente, torcendo com os meus olhos. Até no semáforo.
E o título está escrito em Fanho, porque estou muito gribadu.

Frase do dia