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quarta-feira, 16 de abril de 2008

Coisas para fazer enquanto há tempo




Eu sou maníaco por listas. Eu gosto de entrar em supermercado com lista na mão, para não perder o foco. Senão acabo levando prateleiras, alicates e outras coisas essenciais para a reafirmação permanente da minha personalidade masculina, de macho alfa super-porreta. Ou então coisas para perder a barriga, incluindo apetrechos de bicicleta. E quando eu não tenho nada para fazer, eu pesquiso listas interessantes na Internet. Tem lista pra caramba. Os maiores ditadores de todos os tempos. Lista de fotos de tatuagens de atrizes pornôs. Lista de maiores santos. Lista de pecadores recalcitrantes. Listas dos carros mais caros do mundo. Lista de lugares que você precisa visitar antes de morrer. Listas das coisas mais ridículas que você já fez numa festa. Enfim, tem lista de tudo mesmo.
Aí eu achei a lista de 100 idéias desse tal de Keri Smith. Nunca nem tinha ouvido falar dessa cara. Puro google. Mas gostei de algumas das idéias e resolvi postar aqui, com os meus comentários. Legal, né?

14. Trace your footsteps with chalk.
Risque as suas pegadas com giz
Eu percebi que não chegaria a lugar nenhum. Eu percebi que todos os caminhos me levavam para dentro de mim mesmo. Aí procurei um pedaço de giz no bolso. Eu sabia que estava ali. Um pedaço de giz branco pequeno. Estava junto com duas moedas, uma de dez e outra de 25 centavos. Abaixei, com cuidado. Levantei a mão que estava com o giz, como se fosse um braço periscópio. Estudei o meu próprio pé calçado. Observei com cuidado antes de começar. E no meio da multidão, comecei a riscar a minha pegada, segurando o giz com força contra a beirada do sapato. Quando tive certeza de que a silhueta do meu próprio pé estava completa, levantei devagar. Lá estava ela. Uma pegada quase perfeita. Então me abaixei e com um traço rápido, risquei uma linha reta, para marcar o lugar da sola. Agora, sim, estava completa. Um traço para delimitar a meia sola faz uma diferença bem grande numa pegada.

29. Study the face of someone you do not like. - Estude o rosto de uma pessoa que você não gosta. Eu não tenho nenhum inimigo declarado. Mas existem muitas pessoas que não gostam de mim. Param de conversar, quando eu me aproximo. Cochicham quando me afasto. Riem escancaradas quando estou de costas. De qualquer modo, para levar essa idéia adiante, com toda honestidade, eu deveria começar pelo espelho. Eu, muitas vezes, não gosto de mim mesmo. Mas o que é que posso fazer? Eu vivo o dia inteiro comigo mesmo. E a noite inteira também. Aliás, esse cara vai comigo para onde eu for, até no banheiro. Até em feijoada com sarapatel. Tenho que admirar a perseverança desse sujeito, pois ele vai comigo até em reunião de condomínio. E eu tenho um rosto comum. Pouco queixo, mas não tão pouco quanto Noel Rosa. Tenho nariz batatinha. Míope. Sobrancelhas estrangoladas. Definitivamente. Orelhudo. E agora, com verrugas. Tem uma bem pequena, do lado esquerdo do nariz. E uma outra, maior, antiga, discreta, meio escondida pelo queixo. Minha pele é mais para oleosa. Dá para ver muitos poros sem lupa. Aliás, dá para ver poros a dois passos de distância. Mesmo assim, minha filha diz que eu sou bonito. Mas ela quer um videogame só pra ela.

35. Give away something you love. - Dê alguma coisa que você ama. Não, o meu patacão de 1811, não. Minha HQ Almanaque do Homem Aranha Número 1? Nem pensar. Meu CD do Cream? Jamais. Minha coleção de canetas de banca de revista? Necas. Não. Não. Não. Caramba. Essa eu sou incapaz de tirar do papel? Será que eu jamais conseguirei dar alguma coisa que eu amo para uma outra pessoa? Também, que idéia mais besta! Talvez emprestar... com juros...

84. Write a list of all the things you do to escape. - Faça uma lista das coisas que você faz para escapar; a) Fecho os olhos; b)Rezo; c)Sacudo a perna ou o pé, vigorosamente; d) Aumento o volume do som, especialmente quando toca “Cool Kids” do Screaching Weasel; e)Assobio o Hino Nacional; f)Canto o Hino à Bandeira; g)Procuro papel; h)Rabisco papel; i)Amasso papel; j)Vasculho o lixo; k)Faço uma lista do que eu tenho no lixo; l)Choro; m)Blogo.

89. Write about or draw some of the doors in your life. - Escreva ou desenhe algumas das portas na sua vida: FRANKA. Jim Morrison. Dante Alighieri. Aldous Huxley. Jim Dodge. Jacques Tati. Chaplin. Tarzan. Bradbury. Houston. Cannetti. Hemingway. Kafka. Dostoiévsky. Lobato. Bob Dylan. Raul Seixas. Zé Ramalho. Tim Maia. Scliar. É tanta gente, se eu escrever 10 páginas ainda vai ficar faltando. Mas as primeiras, a mais importantes, foram os meus pais que abriram. Lembro, até hoje, de “Aqui Estão Eles”, do Walt Disney. Eles leram algumas portas todas as noites, até que eu decorasse. E depois leram outras, e mais outras e mais outras, até que eu lesse sozinho.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Não Tibet com o Dalai Lama




Eu fico observando os outros quando paro nos semáforos. Faço isso discretamente. Uso os espelhos, para não deixar ninguém assustado. Conforme observou, bem antes de mim, o grande Jacques Tati, quase todo motorista enfia o dedo no nariz assim que para no semáforo. Por isso, eu conto até trinta antes de começar a observar os outros. Com o dedo no nariz, é claro.
Em geral começo minha observação pelo retrovisor. Dou uma esquadrinhada no motorista que está atrás de mim. Depois faço o mesmo usando os espelhos laterais. Por último, dou umas espiadas de lado. Essas espiadas de lado são difíceis de fazer porque eu tenho muito torcicolo de manhã, sabe? Então eu fico ali, de pescoço duro, disfarçando que não estou bisbilhotando o motorista do lado, quando na verdade estou. É super difícil. Às vezes, o meu pescoço está tão duro que só dá para espiar se eu virar o tronco junto. Ou então, eu viro só os olhos. E isso é meio grotesco. Quero dizer, eu mesmo nunca me vi fazendo isso. Mas de vez em quando algum motorista leva um susto e eu percebo.
Estou ali, meditando no semáforo, observando o ser humano com moderação. Sou um egoísta, é verdade. Mas gostaria de dividir com vocês, ó meus leitores, o tipo de coisa que eu penso nesses momentos de intensa meditação. Para isso, escolhi o que aconteceu hoje, por volta das oito e trinta, no semáforo em frente ao Palácio, sentido rodoviária. O parágrafo seguinte é uma tentativa canhestra de transcrever um pouco da agitação cerebral que ocorre quando para no sinal vermelho.
“Olhe aquele cara ali, meu Deus, será que eu vou ficar velho e feio assim? Valei-me! Esse maníaco do fusca quer estourar os tímpanos de todo mundo! Estou enjoado. É de passar mal! Cadê o Engov de ouvido? E eu não posso andar armado. E que nhacanhaca é essa que ele está ouvindo? Ivete Sangralo! Je-sus! E esse taxista, tá olhando o quê? Deviam cobrar mais imposto de taxista. Mas fazem o contrário. Esses caras rodam mais que todo mundo, mas pagam menos. Mesma coisa de caminhão. E deviam cobrar mais imposto de quem tem carro velho. Daquele fusca ali, por exemplo. E deviam cobrar mais imposto de carro feio. Olha só, solta mais óleo que pastel de rodoviária. Deviam cobrar mais imposto de quem gosta de música ruim. Deviam cobrar mais imposto de gente feia também. E o que é aquele ovo colorido de vermelho? É seu reflexo, anta! Aliás, você deve ser o único careca do mundo que tem caspa! Ai caramba, tem um alternativo na faixa de pedestre. É um coroa de chapéu. Mexicano. Será o Velho Tom? Não. O Véi fugiu? Ele não tem memória. Mas tem uma coleção legal de flash-backs! Ih! Vai chutar o fusca da Ivete! Chutou! Bem na hora que o sinal abriu! Boa! Vou me mandar antes que sobre pra mim. Rá, rá.”
E o quê diabos isso tem a ver com o Dalai Lama?
Bom, eu também sou a favor da não-violência. Eu também sou de paz. Eu também quero que os caras do bem continuem a tentar subir no Everest, na cordilheira do Himalaia. E eu também torço para que os monges e o pessoal do Tibet consigam viver em paz. Mas tudo na vida tem limite, né? Se não desse, queria que chutassem o equilíbrio pra escanteio e cobrissem os chinas de porrada, no melhor estilo Kung Fu. E se não fosse pelo meu torcicolo, eu até entraria nessa briga. Mas, assim como você, eu apoio a luta dos tibetanos diariamente, torcendo com os meus olhos. Até no semáforo.
E o título está escrito em Fanho, porque estou muito gribadu.

Frase do dia