Ouvi de um sujeito
um tipo bem lento
depois de dois copos de aguardente
a poesia é só sentimento
Então eu fiquei tranquilo,
porque eu não era poeta
Eu não sentia nada importante
E achava poesia e poeta um saco
Eu gostava mesmo era de batatas
Depois me disseram
a poesia é puro trabalho
Coisa difícil e dura
Exige escrita com rigor
Idéia apurada, frase ardente, primor
Aí relaxei, acendi um cigarro,
Minhas rimas baratas já haviam fugido,
e meus versos sentidos,
que já eram raros,
sumiram de vez
Comi mais batatas
Minhas palavras só queriam saber
de travesseiro macio
Versos malhados e musculosos
de tanto exercício
nem passavam pela minha cachola,
Rimas tristonhas
dormiam sonolentas sobre
a minha língua
e roncavam cheias de preguiça
Mas eu não sou bobo
Para agradar as moças,
de vez em quando,
eu bancava o poeta
Fazia uma voz bonita,
declamava
Eu trouxe um laço de fita
Para a menina bonita
que olhar pra mim
pagarei a birita
E tome batata
Hoje de manhã bem cedo
Descobri um poeta escondido no espelho
Era feito um rato, o coitado
um caco fraco e doente
Acabei com ele com um golpe
de pano de prato
Não tive dó
Pena que as batatas acabaram
sexta-feira, 5 de março de 2010
quinta-feira, 4 de março de 2010
Amigos na Internet
the WHO- "WHO ARE YOU" from vince keng on Vimeo.
The Who - Who are you
Dois grandes amigos de muitos anos de estrada estão presentes na Internet. Um deles é o Mário Salimon (http://terceirobotao.ning.com/), que colocou um vídeo bem legal no site dele. É um show que fez com a Another Blues Band na Esplanada dos Ministérios. O outro também é artista, meu amigo Nilton Franzoni. Acho que o Niltão cansou de ganhar dinheiro como economista e virou pintor. Ele agora expõe as obras virtualmente. Links para o Mário e o Nilton estão aqui ao lado, na lista de blogs legais que estou juntando.
É uma lista preguiçosa. Faz tempo que não cresce. Outro dia dei uma arrumada e coloquei lá no alto o blog da Franka. Fiz que nem a gente faz com santo, né? Coloquei a Franka lá em cima. Achei que era pouco porque se não fosse a Franka e o bom humor dela, eu teria parado de blogar rapidinho. E também lembrei que o goró pro santo a gente joga pra baixo. E a Franka já disse numas crônicas dela que se amarra em vinho. Então coloquei também um link para o site da Franka lá em baixo. Vai que alguém curte a Franka tanto quanto eu, então é só clicar no site que ela fez, que era super-legal e tem um monte de crônicas sensacionais.
Mesmo assim, parecia pouco para a Franka, que colocou fotinha , link e tarja no blog dela para o meu blog. Então eu coloquei um outro link para o blog dela bem no meio da minha lista, em letras MAIÚSCULAS. Agora estou pensando se não seria melhor e mais adequado colocar uma fotinha da Franka, com tarja, na lateral do blog. É mais fácil clicar em fotinha, né?
Outra novidade da minha lista é o link para o meu outro blog, o de ilustrações. Botei o nome de Careca no Caminho. Resolvi que é melhor deixar as ilustrações só num lugar, sem textos. É pura imitação da Maria Eugênia, a ilustradora genial que eu admiro e adoro desde que passei os olhos num dos muitos livros que ela aquarelou. Ainda vou melhorar o visual desse meu blog de desenhos, mas vou fazer isso aos poucos, sem pressa.
Nunca vi a Franka e nem a Maria Eugênia pessoalmente, mas me considero amigo das duas. Assim como considero a M.J., o Paulo Bono, o Rodrigo Café com Pop, as Redatoras, a Mawa, as Flores e o Edson Gravetos. Tudo amizade cibernética, de comentário nos respectivos blogs. O Mário e o MWho faz tempo que não vejo. Mas de vez em quando visito os blogs de ambos e é como tomar um café virtual e cumprimentar os amigos.
Quem é você? Quem sou eu?
Acho que nós somos um pouco como as pessoas que gostamos de chamar de amigos.
quarta-feira, 3 de março de 2010
Uma ida ao aeroporto
Minha mulher me avisa que terá que acordar de madrugada para levar os pais ao aeroporto.
_Mas não se preocupe. Estarei de volta para ajudar a arrumar as crianças para ir pra escola – disse.
Eu não estava preocupado. Mas achei bom assim mesmo.
De madrugada, ela acorda quase sem fazer barulho e eu finjo que nem acordei. Mas na verdade eu já havia acordado antes. Ainda estou maluco com o fim do horário de verão. Às vezes acordo às três horas pensando que já são seis e volto a dormir. Aí acordo de meia em meia hora, o que não é muito bom. Bom mesmo é dormir até as oito e meia, nove horas. Especialmente se você for dormir à meia noite. Mas isso é impossível, então esqueço.
Mais tarde, com as crianças à mesa para o café da manhã, ela me conta o que aconteceu.
_Foi uma confusão. Cheguei às cinco e meia, como havia prometido. Eles já estavam saindo de casa, mas aquela gata da minha mãe, a Vic, fugiu. Ficamos tentando pegar o bicho, mas ela acabou indo para o quintal do vizinho. Foi um desespero porque minha mãe gosta muito daquela siamesa e não suportaria deixar o bicho fora de casa, sem teto e sem segurança. Nós chamamos, sem fazer muito barulho, para não incomodar o vizinho, mas nada adiantou. Então eu disse que voltaria depois para buscar a gata e colocar dentro de casa. Foi o único jeito, minha mãe aceitou. Finalmente saímos correndo para o aeroporto, com os dois bem nervosos. Deixei os meus pais no desembarque e voltei depressa para pegar a Vic. Quando finalmente consegui pegar aquela gata danada, vejo um táxi parar na frente da casa. Era o meu pai. Tinha esquecido a carteira com os documentos e as passagens.
_Caramba! E aí vocês correram para o aeroporto?
_Não, meu pai não quis que eu levasse. Já tinha combinado a corrida com o motorista do táxi.
Minha mulher tem uma rotina dura, que inclui aulas noturnas para os alunos de graduação na faculdade. Durante muitos anos eu trabalhei durante a noite e sei o quanto isso é difícil, especialmente se você também trabalha durante o dia. O corpo confunde os horários e você fica mais facilmente irritado. O sono se manifesta com mais força. Você tende a deixar frases pela metade, a fitar o vazio. Seu ritmo está em descompasso com o das outras pessoas, ou acelerado ou mais lento. Mas com a minha mulher não acontece nada disso. Ela mantém o foco.
E enquanto conversamos com as crianças, para saber das coisas pequenas que engrandecem a vida da gente, eu observo a minha mulher.
Às vezes eu tenho ilusões de grandeza, de que estou a trilhar um caminho aberto a golpes de facão, no peito e na raça. Mas sem minha mulher talvez não levantasse meus braços, não movesse os pés, quem sabe só ficasse sentado à beira da estrada. E nem é difícil para a minha vaidade admitir isso. O mais complicado é fazer com que esse reconhecimento não seja expresso apenas com os "eu te amos", abraços e carinhos, como cantavam as canções românticas da bossa nova. O mais complicado é mesmo fazer as coisas com o coração aberto, sem retórica, sem dizeres rebuscados. O mais difícil é abrir mão dos pequenos confortos, daquela coisinha besta que fere a suscetibilidade, que diminui o humor. Uma coisa como perder uma hora de sono sem muxoxo. De repetir um caminho, só para não deixar um gato fora de casa. De ser gentil e prestativo, mesmo quando não é nem um pouco e nem de longe absolutamente necessário.
terça-feira, 2 de março de 2010
Keep going, Stephen King
Stephen King é um dos melhores escritores de todos os tempos. Leio os livros do cara há muitos anos. É um gênio. Um dos melhores livros que já li dele se chama Pet Sematary, assim mesmo, escrito errado como escrevem as crianças. Virou filme em 1983. Tinha trilha sonora dos Ramones (“I don´t wanna be bury, in a pet cemetery, i don´t wanna live my life again”...). King teve carradas de livros adaptados para o cinema. Ele tem ainda “O iluminado”, “Carrie”(o primeiro a arrebentar) e “À espera de um milagre”, só para ficar nos grandes sucessos do cinema. SK é um gênio vivo, maior do que João Ubaldo. E é um craque que não esconde o jogo.
Stephen tem um livro generoso em que dá bons conselhos para jovens escritores. O nome é “On Writing: A Memoir of the Craft”. É de 2000. Comprei em papel jornal num dia de sorte numa grande livraria da cidade. Li em 2003 pela primeira vez. King não faz mistérios sobre algumas de suas sacadas, lista um monte de mancadas e tempera a autobiografia com histórias da infância e juventude. Ele não enfeita o bolo e nem é metido a modesto. King é cru. Vai direto na jugular.
O livro é cultuado pelos estudantes da América, como descobri depois. Tenho antipatia pelo que vira manual de senso comum, mas para alguns livros é preciso tirar o chapéu. Uma das muitas histórias deliciosas do livro conta de onde King tirou a idéia para aquela que foi a sua primeira história a receber comentário de um editor de revista de mistério. Até aquela vez, King colecionava apenas notas curtas de recusas de manuscritos. Foram dezenas de recusas. E aquilo começou a abalar o jovem autor. Mas daquela vez foi diferente. Era uma história original, totalmente pensada e escrita pelo adolescente King, vagamente calcada numa experiência pessoal. O editor mandou uma carta-resposta, um bilhete com três frases curtas: Você tem talento; Continue a escrever; Não grampeie o manuscrito.
King seguiu aqueles dois conselhos. Continuou a escrever e nunca mais grampeou um manuscrito, nem sei dizer o que é mais importante. Anos mais tarde o tal editor encontrou Stephen King numa noite de autógrafos e pediu a assinatura do escritor sobre o original do manuscrito e a cópia do bilhete. Os dois trocaram sorrisos de compreensão mútua e nunca mais se viram.
King soube identificar em sua longa vida de escritor o bilhete que o fez continuar a escrever. Esquadrinhou os recantos mais sombrios das suas lembranças e descobriu que uma recusa em ser publicado foi o que manteve acesa a chama. Aquele bilhetinho foi o que fez seu Johnny Walker continuar a andar. Keep going, King. Não vá grampear manuscritos, hein? E Stephen continuou.
Pensando bem, se a história é mesmo verídica, talvez aquele editor fosse ainda mais genial e sobrenatural do que o próprio King.
Pensando ainda mais um pouco, o SK mente pra caramba. É um gênio.
Stephen tem um livro generoso em que dá bons conselhos para jovens escritores. O nome é “On Writing: A Memoir of the Craft”. É de 2000. Comprei em papel jornal num dia de sorte numa grande livraria da cidade. Li em 2003 pela primeira vez. King não faz mistérios sobre algumas de suas sacadas, lista um monte de mancadas e tempera a autobiografia com histórias da infância e juventude. Ele não enfeita o bolo e nem é metido a modesto. King é cru. Vai direto na jugular.
O livro é cultuado pelos estudantes da América, como descobri depois. Tenho antipatia pelo que vira manual de senso comum, mas para alguns livros é preciso tirar o chapéu. Uma das muitas histórias deliciosas do livro conta de onde King tirou a idéia para aquela que foi a sua primeira história a receber comentário de um editor de revista de mistério. Até aquela vez, King colecionava apenas notas curtas de recusas de manuscritos. Foram dezenas de recusas. E aquilo começou a abalar o jovem autor. Mas daquela vez foi diferente. Era uma história original, totalmente pensada e escrita pelo adolescente King, vagamente calcada numa experiência pessoal. O editor mandou uma carta-resposta, um bilhete com três frases curtas: Você tem talento; Continue a escrever; Não grampeie o manuscrito.
King seguiu aqueles dois conselhos. Continuou a escrever e nunca mais grampeou um manuscrito, nem sei dizer o que é mais importante. Anos mais tarde o tal editor encontrou Stephen King numa noite de autógrafos e pediu a assinatura do escritor sobre o original do manuscrito e a cópia do bilhete. Os dois trocaram sorrisos de compreensão mútua e nunca mais se viram.
King soube identificar em sua longa vida de escritor o bilhete que o fez continuar a escrever. Esquadrinhou os recantos mais sombrios das suas lembranças e descobriu que uma recusa em ser publicado foi o que manteve acesa a chama. Aquele bilhetinho foi o que fez seu Johnny Walker continuar a andar. Keep going, King. Não vá grampear manuscritos, hein? E Stephen continuou.
Pensando bem, se a história é mesmo verídica, talvez aquele editor fosse ainda mais genial e sobrenatural do que o próprio King.
Pensando ainda mais um pouco, o SK mente pra caramba. É um gênio.
segunda-feira, 1 de março de 2010
Rafa passa mal

Rafa, o cãozinho shi-tsu lá de casa, passou mal nessa segunda-feira. Minha mulher me disse que encontrou o sofá da sala sujo de vômito. Fiquei surpreso de encontrar Rafa ainda vivo, porque minha mulher tem um ciúme danado do sofá da sala. É um sofá bem chique, remonta ao tempo do casamento. Ou seja, é um sofá velho muito amado, que minha mulher mandou cobrir de um tecido e de uma cor que estão super na moda. Está tão na moda que a Mulher do Cabeça também colocou uma capa bem parecida no sofá da varanda do apê dos Cabeça. Aliás, nessa varanda “chez Cabeça” tem também um São Francisco de barro enorme, é quase do tamanho do meu filho de seis anos. Deixei uma moeda de um real pro santo quando estive lá, no último sábado. O Cabeça disse que não precisava, mas com santo, mesmo de barro, o melhor é não vacilar.
Recebi a notícia do vômito do Rafael na hora do almoço, o que não afetou o meu apetite. Mas, como já disse e continuo a dizer, fiquei bem surpreso de encontrar Rafa ainda vivo. Ele sequer estava triste, o que mostra a diferença de tratamento que existe entre cachorros e um macho alfa como o modesto Careca que vos fala. Na última vez em que deixei cair um baconzito em cima daquele sofá quase levei umas duas ou três chineladas. Sem contar as broncas. Mas não gosto de falar nisso, hoje já estou bem treinado.
Tentamos imaginar porque o Rafa passou mal. O meu primeiro palpite teve a ver com o que aconteceu no domingo, na casa da minha sogra. Lá existe uma gata siamesa de uns doze anos de idade chamada Vic, abreviação de Victória. É bem tinhosa, a Vic. Ela tem uma noção de espaço muito bem desenvolvida. E o Rafa acha que é o bam-bam-bam da cocada preta.
A minha teoria é de que o Rafa experimentou a comida da Vic numa hora em que ela não estava olhando. Depois, numa hora em que a Vic estava olhando, Rafa levou umas arranhadas singelas no lombo. Foi salvo pela minha filha, que me chamou para tirar o Rafa das garras da gata. Ele teria se machucado mais se a gata não fosse tão idosa quando o sofá da minha sala e condescendente com a juventude. Vic está meio grisalha e com um ar professoral. Ela está mais para educadora do que gata vingativa. Além disso, a aparência de Floquinho também ajuda o Rafa a se livrar de arranhões. Não é fácil cravar as unhas naquela bola de pêlos.
Pensando bem, Rafa é duplamente felizardo. Não tem medo de experimentar pratos diferentes. Tem o paladar aberto a novas sensações, ainda que elas lhe custem umas bordoadas nas orelhas. E não leva chineladas quando suja o sofá. Bronca não tem jeito, né?
Minha mulher não gosta de tergiversações. Para ela, o Rafa engasgou com alguma coisa. Ela já tirou plástico, papel, indiozinho, batman, boneca de pano, de plástico, gúgou, roda de carrinho, espada, meia, lego, bola de árvore de natal, escova, galho, graveto, tubo de cola e a miniatura da Torre Eiffel que eu trouxe de Paris de dentro da boca do Rafa. (Sim, eu sei que é o cúmulo do exibicionismo, mas um dos motivos de se ter blog é que você pode extravasar a sua vaidade quando der na telha e fingir que você é um cidadão do mundo, rárárá. )
É lógico que eu dei toda razão para a minha mulher. Até porque encontrei a Torre Eiffel atrás do sofá. E só para me exibir mais um pouco, desenhei essa torrinha aí de cima.
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