quinta-feira, 5 de março de 2009

Os fiéis assessores

Estou aqui, na entrada de um palácio. Quem já viu um, já viu todos. E eu vejo a fila de políticos. São uns tipos interessantes. Vejo um tão engraçado que dá vontade de jogar pipoca nele. Aí eu devaneio.

Um político não se define pelo que faz, mas pelo que gosta. Para mim, os políticos são os seres humanos que mais gostam de conversa fiada, reunião e palestra. E fila de beija-mão. Quando um monte de políticos se junta é porque querem falar com algum político mais esperto, que ainda vai chegar.

O político muito esperto, em geral, vive convocando reuniões com outros políticos. Veja bem. Ele não convida. Convoca. Ele chega atrasado em todas as reuniões convocadas, especialmente se a reunião for no seu próprio gabinete.

Chegar atrasado é uma arte complexa e altamente refinada pelos políticos. Embora as diferentes técnicas de chegar atrasado variem na forma, em todas prevalece o mesmo princípio. Se a reunião começou sem que você tenha chegado, você não está com nada. Se alguém começou a reunião em seu nome, livre-se do traíra. Se não começou, mas você precisa tirar o sapato e bater na mesa para chamar a atenção do povaréu, troque de turma enquanto ainda dá tempo. Você só estará com tudo se, na hora que você chegar, os voluntários se apressarem em organizar a confusão, a pedir silêncio. Caras importantes têm sempre alguém grosso para fazer o chega prá lá. E se você for mesmo um figurão, quando você abrir a boca, alguém deverá ficar com cara de tapete humano. Aí, você é o tal.

Parece existir um traje típico de político. Terno, gravata berrante. Relógio grandão, vistoso, igual ao do bicheiro. Sorriso ladino. Cabelo ridículo. Olhar ferino. Já faz muito tempo que não vejo um político com olhar bondoso. O olhar da moda agora é aquele de águia, do sujeito combativo. Um saco. De vez em quando vejo na TV um cara que parece ter o olhar bondoso e sonso. Mas é fingimento. Muito embora o meu estereótipo de político seja uma versão dos cafajestes desenhados pelo Angeli. Na minha inversão, ao invés de vestidos em ternos mal-ajambrados, os políticos usam ternos bem-cortados e sapatos feitos à mão por virgens italianas que sonham em trabalhar para a Ferrari.

O político, em sua maioria, não carrega pastas. Para isso existe, sempre ao seu lado, o fiel assessor. Esse cara nunca chama a atenção. O fiel assessor é um tipo discreto, que não abre a boca. Ele se comunica com os olhos com o político, aquele que o puxa pelo colarinho. Troca sinais telepáticos quando a conversa se aproxima de temas perigosos. Faz sinais secretos com as mãos. Coça o nariz. Faz Rãm-Rãm, limpando a garganta. E, por fim, enfia uma canelada no político quando a conversa resvala para a falação do que não deve ser falado e nem escrito. É discreta, mas é canelada doída.

Fiéis assessores, ao contrário do que pode parecer, existem às pencas. Eu mesmo tentei trabalhar como fiel assessor de político várias e várias vezes. Mas a minha careca chama muito a atenção. Além disso, não sei fazer cara de tapete. Preciso treinar mais.

quarta-feira, 4 de março de 2009

O ar quente que eu respiro

O ar-condicionado da minha sala no trabalho quebrou. Há dois meses. Desde então, o pessoal do almoxarifado vinha me enrolando com umas soluções caseiras. Me recomendaram usar roupas leves. Afrouxar a gravata. Repousar o paletó. Também fizeram algumas sugestões para evitar refeições muito gordurosas e pesadas.

Depois de muito implorar, me mandaram um ventilador de torre ruinzinho. Pedi outro ventilador. Disseram que iriam comprar. Insisti. Fizeram uma marola danada e depois compraram. Mas aí, a empresa que tinha o menor preço não tinha o ventilador para pronta entrega.

_E aí, o que eu faço? – perguntei, estupidamente, para Al, o Almoxarifado Mor.

Al, o Almoxarifado Mor, recomendou beber muita, mas muita água gelada. Eu fiquei me mordendo de raiva, mas dei o meu braço a torcer. Pergunta imbecil merece resposta imbecil. Para piorar, recebi uma visita.

_Nossa, como está quentinho aqui, né? Bem agradável– disse o C3PO. Já falei sobre esse cara outras vezes. Ele não parece ser do bem.

_A empresa está zelando pelo nosso bem-estar – eu disse.

_Fazemos sauna enquanto trabalhamos – completou o Mr. Flowers.

_É, minha pele está superbacana com essa umidade – finalizei. Eu e o Mr. Flowers conhecemos o C3PO de outros carnavais. E com essa gente não se brinca.

Mas o calor era muito grande e a solução era só uma promessa. Eu e a equipe de proletários da palavra, cada qual alojado em seu próprio cubículo, começamos a ficar nervosos. Protestamos diariamente. Silenciosamente, é claro. Em época de crise, só desempregado é quem faz barulho. Eu e os proletários da palavra nem cochichamos. Em boca fechada não entra mosquito. Nem sai.

Deixamos de usar desodorante. Começamos a entrar nas reuniões suados, com as mangas arregaçadas, com ar de quem trocou pneu de carro. Tudo em vão.

Sofremos bem uns trinta dias úteis. E quando o C3PO aparecia nós dizíamos que aquela era a melhor sala do mundo.

_É como passar as férias no Caribe, só que de terno e gravata – eu dizia e abria um enorme sorriso. O Mr. Flowers tirava suor da testa e fingia jogar no C3PO.

_Vade retro, coisa ruim! – dizia o Mr. Flowers.

Sofremos, mas não deixamos, nem por um segundo, o C3PO ver nossas caretas ou ouvir nossas reclamações silenciosas.

Hoje tudo mudou. El Big Boss resolveu fazer uma visita surpresa para a gente. Veio cobrar um relatório que eu havia prometido para o final do mês. Por sorte, eu ando meio paranóico e já havia apressado os relatórios.

_Gente! O que é isso? Parece a ante-sala do Vulcão de Mefistófelis!!! Isso está mais quente que a fogueira de Torquemada! Al, por obséquio, providencie um ar-condicionado novo para esta sala! Imediatamente.

_Sim, senhor! – disse Al, o Almoxarifado Mor.

E em dez minutos uma equipe de especialistas em ar-condicionado acabou com o problema. Agora, minha sala parece a antecâmara refrigerada de Mr. Ice Ice Baby. Brrrrr.

terça-feira, 3 de março de 2009

O Careca mede a produtividade

(Mais um trecho de um livro inédito, que tem o título provisório de "Um hiena na selva de pedra".)

Tento estabelecer uma rotina para medir a minha produtividade. Os manuais dizem que é importante criar padrões para aferir exatamente como está a sua atuação profissional. Eles dão um monte de exemplos. Número de folhas datilografadas. Número de tarefas desenvolvidas. Número de produtos finalizados.

Tudo besteira. O melhor parâmetro é o número de cafezinhos que você deixa de tomar. Se você toma muitos cafezinhos, você não deve estar produzindo bastante. Se você toma muita água, você está se acabando de trabalhar. Historicamente, quando o ser humano rala, ele tem sede. Isso foi cientificamente provado por um cachorro chamado de Cachorro do Pavlov.

Por outro lado, a combinação desses indicadores pode induzir ao erro. Tem muito vagal que se acaba de beber água só para disfarçar que na verdade, queria mesmo era um cafezinho. E tem muito sujeito honesto, bom e trabalhador que bebe muita água mas, de vez em quando, não resiste a um cafezinho. O Cachorro do Pavlov não conseguiu provar a refutação dessa tese, pois insistia em abanar o rabo.

Mas nesses tempos bicudos, onde o desemprego campeia e a espada da demissão já foi desembainhada, o melhor é não deixar margem para dúvidas. Então, mantenha o indicador puro, sem margem nenhuma. Ou você bebe café ou você pede água.

Depois que decidir em que equipe você efetivamente está se colocando, você estará na mesma situação que antes. Ou seja, precisará medir a sua produtividade. No entanto, será mais simples. Vai ser fácil comparar a sua produção com a do seu colega, que também só bebe água. Se ele só beber café, vai ser mais fácil ainda, porque certamente não haverá muito que comparar.

Mas se você bebe café e depois bebe água, cuidado. Confira se não tem nada abanando por perto. Se tiver, tenho certeza de que não será o Cachorro do Pavlov. O cachorro já morreu faz tempo.

Nesses tempos de faca amolada, evite salivar no trabalho. Aliás, não chame a atenção. Fique quieto.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Um livro de nós



Comprei um livro que ensina a fazer nós. Não nós, seres humanos, mas nós, aqueles de amarrar. Se bem que a gente também amarra os seres humanos. Bom, mas é um livro sobre nó de forca, nó cego, nó duplo e mais de 100 tipos diferentes de nós. Eu jamais imaginei que existissem tantos nós diferentes. Nó é um tema que eu achava que daria no máximo uma apostila, com quatro folhinhas. Mas são 220 páginas, fora a dedicatória, capas e sobrecapas.

O livro chama “Manual de Nós”. A princípio eu pensei que era uma nova coletânea de poesias do Manoel de Barros. Seria bem típico dele, escrever um livro de versos amarrados, com a condição específica do livro ficar longe da seção de poesia, na parte de artes manuais.

Então comprei o livro por esses dois motivos: porque eu pensei que poderia fingir que esse era um novo livro de poemas do Manoel e também porque não sabia que existiam tantos tipos diferentes de nós.

Estou lendo o livro agora. Em geral, mantenho dois livros na mini-estante do banheiro. Para despistar a Rose, que é a empregada-babá-faxineira-governanta e faz-tudo daqui de casa. Se eu deixo só um livro, a Rose pega o que eu estou lendo no banheiro e leva para a estante. Ali, eu não consigo encontrar o livro nunca mais. Entretanto, descobri que se coloco dois livros na mini-estante do banheiro a Rose pensa que um é da minha mulher. Então, ela não mexe, que ela não é boba.

Estou terminando o Tigre Branco, do Aravind Adiga, que é muitcho bom. E agora coloquei sobre ele o “Manual de Nós”. O livro é cheio de ilustrações de nós, com o passo a passo para se atingir a perfeição na arte de amarrar o boi, o barco e também o ser humano. Acabo de passar pelo “Nó Bachmann”, muito utilizado por alpinistas e espeleólogos. Muito bonito, esse nó. E muito útil também. Estou me amarrando. Caramba! Consegui resistir ao trocadilho até o último parágrafo...

domingo, 1 de março de 2009

Herbinha, o fusquinha do meu amigo



Eu recebi o aviso por e-mail há mais ou menos duas semanas. Foi o Paulim que me avisou.
_Careca, olha só o ser humano!
E na mensagem, esse meu amigo, que voltou outro dia da Austrália, dizia que havia comprado o carro dos sonhos. Um fusca branco dos anos setenta, com faixas vermelha e azul e o número 53.
_É caso de internação à força, Paulim! – eu respondi para o Paulim.
E no sábado, depois de almoçarmos um glorioso bife à parmegiana no saudoso Beirute, esse meu amigo que voltou da Austrália me pegou para ver o carro.
_O que você acha, Careca?
_É lindo! – eu disse.
_Quer dirigir?
_Nãããããoooo, eu já tomei umas cervejas e tenho medo de blitz – me esquivei.
_Tudo bem. Quer ver por dentro?
_Dá pra ver daqui. Isso no teto é uma goteira?
_Um furinho de nada. E o para-choque é original!
_Que beleza!
_E o motor é superbom. Tem arrancada firme. Tem certeza de que não quer dirigir?
_Tenho.
_Esse carro é muito bom e educativo.
_É mesmo?
_Minhas filhas nunca tinham visto um quebra-vento. Agora já sabem como é um. Quer andar?
_ Não, obrigado. Quebra-vento é mesmo uma vantagem competitiva.
_São essas coisas que fazem diferença.
_Pra menos.
_Hã?
_Parabéns – eu disse, para evitar maiores digressões.
_Dirigir esse carro é como dirigir um clone de um superstar. Quer tentar?
_Entendo, mas vou passar – falei, às vezes, concordar é preciso.
_É como limpar o jornal do clone da Lassie.
_Isso mesmo – observei.
_Careca, não dá vontade de comprar um carro desse?
_ É verdade. (Não dá mesmo. Mas se der, vou esperar passar a vontade).
_Quer ver o carburador?
_Não, acabei de almoçar.
_Agora eu tenho que ir, senão eu deixava você dar uma volta.
_Obrigado, é muita gentileza.
E eu e a minha mulher nos despedimos do meu amigo e da família que voltou da Austrália. Pai, mãe e três filhas, muito felizes, entram no Herbinha. O barulho do motor é algo entre a batedeira de bolo e uma geladeira a gás que havia na casa da minha avó. A diferença é que o cano de escape do Herbinha estourava foguetes a cada acelerada.
_Isso é que é ronco de motor! – disse o meu amigo.
E nós acenamos, em despedida.
_Careca, seu amigo não deixou você dar uma volta?
_Não, ele é muito ciumento dos carros dele. Ele oferece só pra dizer não, depois que você disser sim.
_Não era ele que tinha um Dodginho Bege?
_Um Polara. Ele chamava de Larica.

Frase do dia