O ar-condicionado da minha sala no trabalho quebrou. Há dois meses. Desde então, o pessoal do almoxarifado vinha me enrolando com umas soluções caseiras. Me recomendaram usar roupas leves. Afrouxar a gravata. Repousar o paletó. Também fizeram algumas sugestões para evitar refeições muito gordurosas e pesadas.
Depois de muito implorar, me mandaram um ventilador de torre ruinzinho. Pedi outro ventilador. Disseram que iriam comprar. Insisti. Fizeram uma marola danada e depois compraram. Mas aí, a empresa que tinha o menor preço não tinha o ventilador para pronta entrega.
_E aí, o que eu faço? – perguntei, estupidamente, para Al, o Almoxarifado Mor.
Al, o Almoxarifado Mor, recomendou beber muita, mas muita água gelada. Eu fiquei me mordendo de raiva, mas dei o meu braço a torcer. Pergunta imbecil merece resposta imbecil. Para piorar, recebi uma visita.
_Nossa, como está quentinho aqui, né? Bem agradável– disse o C3PO. Já falei sobre esse cara outras vezes. Ele não parece ser do bem.
_A empresa está zelando pelo nosso bem-estar – eu disse.
_Fazemos sauna enquanto trabalhamos – completou o Mr. Flowers.
_É, minha pele está superbacana com essa umidade – finalizei. Eu e o Mr. Flowers conhecemos o C3PO de outros carnavais. E com essa gente não se brinca.
Mas o calor era muito grande e a solução era só uma promessa. Eu e a equipe de proletários da palavra, cada qual alojado em seu próprio cubículo, começamos a ficar nervosos. Protestamos diariamente. Silenciosamente, é claro. Em época de crise, só desempregado é quem faz barulho. Eu e os proletários da palavra nem cochichamos. Em boca fechada não entra mosquito. Nem sai.
Deixamos de usar desodorante. Começamos a entrar nas reuniões suados, com as mangas arregaçadas, com ar de quem trocou pneu de carro. Tudo em vão.
Sofremos bem uns trinta dias úteis. E quando o C3PO aparecia nós dizíamos que aquela era a melhor sala do mundo.
_É como passar as férias no Caribe, só que de terno e gravata – eu dizia e abria um enorme sorriso. O Mr. Flowers tirava suor da testa e fingia jogar no C3PO.
_Vade retro, coisa ruim! – dizia o Mr. Flowers.
Sofremos, mas não deixamos, nem por um segundo, o C3PO ver nossas caretas ou ouvir nossas reclamações silenciosas.
Hoje tudo mudou. El Big Boss resolveu fazer uma visita surpresa para a gente. Veio cobrar um relatório que eu havia prometido para o final do mês. Por sorte, eu ando meio paranóico e já havia apressado os relatórios.
_Gente! O que é isso? Parece a ante-sala do Vulcão de Mefistófelis!!! Isso está mais quente que a fogueira de Torquemada! Al, por obséquio, providencie um ar-condicionado novo para esta sala! Imediatamente.
_Sim, senhor! – disse Al, o Almoxarifado Mor.
E em dez minutos uma equipe de especialistas em ar-condicionado acabou com o problema. Agora, minha sala parece a antecâmara refrigerada de Mr. Ice Ice Baby. Brrrrr.
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quarta-feira, 4 de março de 2009
terça-feira, 3 de março de 2009
O Careca mede a produtividade
(Mais um trecho de um livro inédito, que tem o título provisório de "Um hiena na selva de pedra".)
Tento estabelecer uma rotina para medir a minha produtividade. Os manuais dizem que é importante criar padrões para aferir exatamente como está a sua atuação profissional. Eles dão um monte de exemplos. Número de folhas datilografadas. Número de tarefas desenvolvidas. Número de produtos finalizados.
Tudo besteira. O melhor parâmetro é o número de cafezinhos que você deixa de tomar. Se você toma muitos cafezinhos, você não deve estar produzindo bastante. Se você toma muita água, você está se acabando de trabalhar. Historicamente, quando o ser humano rala, ele tem sede. Isso foi cientificamente provado por um cachorro chamado de Cachorro do Pavlov.
Por outro lado, a combinação desses indicadores pode induzir ao erro. Tem muito vagal que se acaba de beber água só para disfarçar que na verdade, queria mesmo era um cafezinho. E tem muito sujeito honesto, bom e trabalhador que bebe muita água mas, de vez em quando, não resiste a um cafezinho. O Cachorro do Pavlov não conseguiu provar a refutação dessa tese, pois insistia em abanar o rabo.
Mas nesses tempos bicudos, onde o desemprego campeia e a espada da demissão já foi desembainhada, o melhor é não deixar margem para dúvidas. Então, mantenha o indicador puro, sem margem nenhuma. Ou você bebe café ou você pede água.
Depois que decidir em que equipe você efetivamente está se colocando, você estará na mesma situação que antes. Ou seja, precisará medir a sua produtividade. No entanto, será mais simples. Vai ser fácil comparar a sua produção com a do seu colega, que também só bebe água. Se ele só beber café, vai ser mais fácil ainda, porque certamente não haverá muito que comparar.
Mas se você bebe café e depois bebe água, cuidado. Confira se não tem nada abanando por perto. Se tiver, tenho certeza de que não será o Cachorro do Pavlov. O cachorro já morreu faz tempo.
Nesses tempos de faca amolada, evite salivar no trabalho. Aliás, não chame a atenção. Fique quieto.
Tento estabelecer uma rotina para medir a minha produtividade. Os manuais dizem que é importante criar padrões para aferir exatamente como está a sua atuação profissional. Eles dão um monte de exemplos. Número de folhas datilografadas. Número de tarefas desenvolvidas. Número de produtos finalizados.
Tudo besteira. O melhor parâmetro é o número de cafezinhos que você deixa de tomar. Se você toma muitos cafezinhos, você não deve estar produzindo bastante. Se você toma muita água, você está se acabando de trabalhar. Historicamente, quando o ser humano rala, ele tem sede. Isso foi cientificamente provado por um cachorro chamado de Cachorro do Pavlov.
Por outro lado, a combinação desses indicadores pode induzir ao erro. Tem muito vagal que se acaba de beber água só para disfarçar que na verdade, queria mesmo era um cafezinho. E tem muito sujeito honesto, bom e trabalhador que bebe muita água mas, de vez em quando, não resiste a um cafezinho. O Cachorro do Pavlov não conseguiu provar a refutação dessa tese, pois insistia em abanar o rabo.
Mas nesses tempos bicudos, onde o desemprego campeia e a espada da demissão já foi desembainhada, o melhor é não deixar margem para dúvidas. Então, mantenha o indicador puro, sem margem nenhuma. Ou você bebe café ou você pede água.
Depois que decidir em que equipe você efetivamente está se colocando, você estará na mesma situação que antes. Ou seja, precisará medir a sua produtividade. No entanto, será mais simples. Vai ser fácil comparar a sua produção com a do seu colega, que também só bebe água. Se ele só beber café, vai ser mais fácil ainda, porque certamente não haverá muito que comparar.
Mas se você bebe café e depois bebe água, cuidado. Confira se não tem nada abanando por perto. Se tiver, tenho certeza de que não será o Cachorro do Pavlov. O cachorro já morreu faz tempo.
Nesses tempos de faca amolada, evite salivar no trabalho. Aliás, não chame a atenção. Fique quieto.
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