domingo, 5 de outubro de 2008

Três observações e mais respostas rápidas




Quando eu estou aqui, vivendo esse momento lindo
É mesmo lindo, mas fico pensando numa recauchutagem geral do repertório.

A noção perdida do ridículo
Já a encontrei as noções perdidas diversas vezes em auditórios, salões de baile, jantares oficiais e outras ocasiões paramentadas. Mas nunca encontrei a minha.

Uma coisa a melhorar
A minha lista de coisas a melhorar.

Qual é a hora da onça beber água?
Quando está com sede. Entre as refeições. Não sei. É melhor não estar perto.

Quando é que você paga mico?
Só tenho certeza quando me trazem o troco.

Há vida inteligente em Marte?
Tomara. Aqui já deu o que tinha que dar.

O que você faria com a sua última moeda?
Cara, eu gastaria. Coroa, eu gastaria. Em pé, eu gastaria.

Ainda sobre moedas. O que fazer com um porquinho cheio delas?
Estamos pensando há semanas, mas ainda não decidimos.

Qual é a sua definição de ócio?
Não perco tempo com isso, fico logo sem fazer nada.

Você pratica algum exercício?
Eu nado. Nadica de nada.

O que você recomenda para quem está perdendo cabelo?
Tenha fé.

O que você recomenda para quem já perdeu cabelo?
Tenha esperança.

O que você recomenda para quem insiste em falar de cabelo?
Tenha caridade.

E se a sua primeira namorada fosse um porquinho da índia?
Das duas uma: você é Manoel Bandeira ou zoófilo.

Qual é o melhor filme com o Paul Newman?
Gata em Teto de Zinco Quente - Cat on a Hot Tin Roof (1958)

sábado, 4 de outubro de 2008

Sobre monstros



Uma boa parte da minha vida eu tive medo de monstros. Não eram monstros à toa, desses de filme japonês. Meus monstros de infância eram monstros pessoas. Não eram mortos vivos comedores de cérebro, nem múmias, nem vampiros, nem frankensteins, nem lobisomens, nem nada que eu já tivesse visto em filmes, nos quadrinhos ou nas ilustrações dos livros.

Os monstros que me assombravam eram sempre pessoas comuns, um vizinho que eu achava assustador, uma balconista da padaria que uma vez me tratou muito mal. Quando se é menino, os monstros podem ser qualquer adulto misterioso e de aparência cruel que cruze o nosso caminho infantil. Mas os piores monstros são os outros meninos, os que são mais cruéis do que todos os outros meninos com quem você convive.

No meu tempo de menino, o mais cruel de todos os meninos se chamava Dídio, corruptela de Gígio, que vem de Gilberto. Era filho de um veterinário, um coroa legal. Tinha outros dois irmãos e uma irmã. O irmão mais novo, Alexandre, era gordinho, tinha o apelido de Pig e costumava andar mais comigo e os outros meninos com quem eu andava. Dídio era um pouco mais velho, adolescente de 13 anos. Era cruel conosco, os meninos que estavam na faixa dos dez anos.

Dídio era estupidamente forte para a idade. Era branquelo e sardento. Ruivo. Braços de Popeye. Tinha a agilidade dos lutadores de kung fu e era um especialista em humilhações públicas. Era um campeão em insultar quem quer ousasse dar a impressão de ter tido a intenção de desrespeitá-lo. Ninguém queria se meter com o Dídio. E isso era pior, pois ele precisava manter a fama de mau. Estava sempre nos desafiando. E os meninos, bobos como éramos, não conseguiam arrumar um jeito de desviar dos desafios lançados por ele.

O Dídio falava coisas assim:
_Duvido você conseguir ficar em um só pé, durante dez minutos, naquele canto de calçada.
E o menino bocó ia lá e ficava nove minutos e trinta segundo num pé só. Quando faltava apenas dez segundos o Dídio ia lá e passava uma rasteira no sujeito.

_Duvido alguém conseguir andar em cima daquela linha até o outro lado da rua.
E alguém ia andando até lá até perceber que o Dídio estava vindo atrás, correndo com uma mangueira de borracha girando como uma hélice de helicóptero. Vump, vump,vump.

_Podem vir dois disputar queda de braço comigo, um em cada braço, que eu ganho.
E dois aventureiros se apresentavam e o Dídio ganhava dos dois num piscar de olhos, quase quebrando os braços dos meninos.

Teve muitas antes dessa, mas essa marcou a meninada. Eu lembro de ouvir um braço estalar. Depois disso, nós ficamos mais espertos. Ninguém queria ser voluntário para os desafios do Dídio. Mas não durou uma semana.

_Meninos, façam fila para levar cascudo. Quem não entrar na fila vai ter que disputar queda-de-braço comigo.

Dídio foi um dos maiores monstros da minha infância. Outro dia vi um sujeito na rua, que só poderia ser ele. Sardento, branquelo, ruivo, braços de Popeye. Parecia normal, um cidadão comum. Rezei para que um cofre caísse sobre sua cabeça.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Estóico



Sempre tive, a minha vida inteira, vontade de ser mais estóico. De ter mais força de ânimo. De suportar, sem queixas, as coisas que é preciso suportar. De superar adversidades sem piscar os olhos, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Sem soltar foguetes. Acho que é isso que admiramos nos heróis, desde crianças. A capacidade de suportar e superar, sem queixas, os piores obstáculos imagináveis. Eu admiro o estoicismo dos outros.

Aprendi sobre estoicismo há muito tempo, criança, lendo os livros de Monteiro Lobato. Para mim, os espartanos eram mais estóicos que os atenienses, embora não existam evidências históricas de que isso seja verdade. Seja como for, sempre imaginei os seres estóicos calçados com sandálias romanas. Mas isso é só uma digressão.

É pelo estoicismo que admiro os caras como o Muhamad Ali, Bruce Lee e o... sei lá, Batman. Nem mesmo Bruce Wayne seria um décimo do que é se ficasse o tempo inteiro lamentando as perdas provocadas pelo Coringa e outros agentes do mal. Ali não teria sido quem foi se não fizesse piadinhas mesmo debaixo de pancada braba. Acho até que foi por isso que escolheram Will Smith para interpretá-lo no cinema. Não podia ser só alto, bonitão e forte. Tinha que ser tudo isso, além de parecer inteligente e bem humorado. Vi um vídeo antigo do Ali no You Tube e fiquei impressionado. E o Bruce Lee? Pô, o cara era demais. E isso é um monte de digressão.

Ronaldo Fenômeno e Herbert Vianna são pessoas que eu admiro pelo estoicismo já demonstrado. Ambos superaram coisas terríveis e continuaram a fazer o que sempre fizeram. Estoicamente. E também com alegria.

Este é o ponto fundamental, que mina um pouco a minha vontade de ser estóico. Os estóicos, como você pode bem conferir no google, também são apontados como indiferentes, impassíveis, imperturbáveis e austeros. E convenhamos que nenhuma dessas características prima pelo bom humor. Aliás, eu acho que os estóicos nunca nem tiveram primas. E eu acho ótimo ter bom humor. Embora às vezes eu seja bem estóico em termos de humor.

Mas não dá para ser estóico em blog. Aliás, são muito raros os estóicos que escrevem. Em geral, as pessoas que ficam numa boa, sem reclamar ou sem achar as coisas boas ou ruins, não se dão ao trabalho de escrever. E os estóicos, puxa vida, ficam na deles. Via de regra, se um estóico se dá ao trabalho de escrever um blog, é coisa curta. Um estóico de verdade escreve pouco, sei lá, umas três, quatro linhas por dia. Aí, você vai olhar a frase e fica o resto do dia pensando nela.

“O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras. Fazer coisas desúteis. O nada mesmo. Tudo que use o abandono por dentro e por fora.”

Manuel de Barros , In O livro sobre nada, Rio de Janeiro: Record, 3a. ed., 1997, p. 7

Manuel de Barros é estóico e tem bom humor. Os estóicos de bom humor são quase todos poetas. Mas poucos, muito poucos, são bons poetas como Manuel de Barros. E é verdade, fiquei muito tempo pensando nessas frases, estoicamente.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Minha adesão ao Slow Movement

Às vezes, eu gostaria de respirar novos ares. De olhar para o horizonte e ver, lá longe, uma nesga de mar, uma montanha gelada, uma ponta de deserto. Outras vezes sou bem conformado com minha vista atual, as grandes árvores que vejo na entrada do parque da cidade.

É, também acho que às vezes eu reclamo de barriga cheia. Mas as reclamações costumam partir de quem está saciado, não é mesmo?

Plenamente consciente de que é preciso desacelerar, eu aderi de corpo e alma ao Slow Movement, uma iniciativa que deveria ter nascido na Bahia, mas teve preguiça. O Slow é uma variação de outros movimentos preguiçosos nascidos em décadas passadas, que também não vingaram porque dormiram no ponto. Tenho quase certeza de que essa nova tentativa também não vingará por falta de esforço dos integrantes do movimento, inclusive eu mesmo.

O princípio básico do Slow Movement é : faça devagar.
O segundo princípio do Slow Movement é: faça pouco.
O terceiro princípio do Slow Movement é: descanse.

Ninguém se lembra dos outros princípios. As pessoas do Slow Movement com quem eu conversei, antes de adquirir a minha camiseta Slow Movement, disseram ter preguiça de conversar sobre os princípios. Duas dessas pessoas reclamaram por eu ter puxado uma conversa que exige um mínimo de concentração e frases com verbos e predicados.

Uma delas só me respondeu com vogais:
_AaaooÔooõie.
Não consegui atribuir nenhum significado a essa expressão. E por causa da minha adesão ao Slow Movement estou escrevendo só meia lauda hoje, para dormir mais cedo.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Respostas rápidas para perguntas capciosas

O que o gato não quer mais enterrar?
Não pergunte o que não quer escutar.

Qual é a melhor coisa para passar no pão com manteiga?
Nada. Pão com manteiga é um prato completo.

Quem você levaria para uma ilha deserta?
Uma Sexta-Feira.

Quem é o melhor amigo do homem?
Qualquer cachorro de rabo preso.

Quem é o melhor amigo da mulher?
Só pode estar brincando.

O que você faria se tivesse um milhão de dólares?
Perguntas.

Qual é a melhor posição para dormir?
Deitado. Sentado é uma alternativa. Nunca consegui dormir em pé.

Existem sonhos especiais?
Sim. Aqueles que a gente só lembra o início.

O que fazer quando não há nada para se fazer?
Você deve estar brincando.

Existe algum lugar seguro?
Sim, é claro. Mas ninguém sabe onde fica.

Anjos gostam de música de harpa?
Não existem anjos. Mas já existiram, antes de Stay, do U2.

Você faria parte de uma coisa chamada Slow Movement?
Sim, mas bem devagar.

Quem você esqueceria num bote em alto mar?
Uma Segunda-feira.

Qual é a melhor parte de um sorvete?
A parte que me cabe.

O que você deve fazer num elevador lotado?
O mínimo possível.

O que fazer com o dólar em queda? E com o dólar em alta? E com o dólar estável?
Pague, pague, pague. Dinheiro, no fim, só serve para pagar.

O que é capcioso?

Frase do dia