
Uma boa parte da minha vida eu tive medo de monstros. Não eram monstros à toa, desses de filme japonês. Meus monstros de infância eram monstros pessoas. Não eram mortos vivos comedores de cérebro, nem múmias, nem vampiros, nem frankensteins, nem lobisomens, nem nada que eu já tivesse visto em filmes, nos quadrinhos ou nas ilustrações dos livros.
Os monstros que me assombravam eram sempre pessoas comuns, um vizinho que eu achava assustador, uma balconista da padaria que uma vez me tratou muito mal. Quando se é menino, os monstros podem ser qualquer adulto misterioso e de aparência cruel que cruze o nosso caminho infantil. Mas os piores monstros são os outros meninos, os que são mais cruéis do que todos os outros meninos com quem você convive.
No meu tempo de menino, o mais cruel de todos os meninos se chamava Dídio, corruptela de Gígio, que vem de Gilberto. Era filho de um veterinário, um coroa legal. Tinha outros dois irmãos e uma irmã. O irmão mais novo, Alexandre, era gordinho, tinha o apelido de Pig e costumava andar mais comigo e os outros meninos com quem eu andava. Dídio era um pouco mais velho, adolescente de 13 anos. Era cruel conosco, os meninos que estavam na faixa dos dez anos.
Dídio era estupidamente forte para a idade. Era branquelo e sardento. Ruivo. Braços de Popeye. Tinha a agilidade dos lutadores de kung fu e era um especialista em humilhações públicas. Era um campeão em insultar quem quer ousasse dar a impressão de ter tido a intenção de desrespeitá-lo. Ninguém queria se meter com o Dídio. E isso era pior, pois ele precisava manter a fama de mau. Estava sempre nos desafiando. E os meninos, bobos como éramos, não conseguiam arrumar um jeito de desviar dos desafios lançados por ele.
O Dídio falava coisas assim:
_Duvido você conseguir ficar em um só pé, durante dez minutos, naquele canto de calçada.
E o menino bocó ia lá e ficava nove minutos e trinta segundo num pé só. Quando faltava apenas dez segundos o Dídio ia lá e passava uma rasteira no sujeito.
_Duvido alguém conseguir andar em cima daquela linha até o outro lado da rua.
E alguém ia andando até lá até perceber que o Dídio estava vindo atrás, correndo com uma mangueira de borracha girando como uma hélice de helicóptero. Vump, vump,vump.
_Podem vir dois disputar queda de braço comigo, um em cada braço, que eu ganho.
E dois aventureiros se apresentavam e o Dídio ganhava dos dois num piscar de olhos, quase quebrando os braços dos meninos.
Teve muitas antes dessa, mas essa marcou a meninada. Eu lembro de ouvir um braço estalar. Depois disso, nós ficamos mais espertos. Ninguém queria ser voluntário para os desafios do Dídio. Mas não durou uma semana.
_Meninos, façam fila para levar cascudo. Quem não entrar na fila vai ter que disputar queda-de-braço comigo.
Dídio foi um dos maiores monstros da minha infância. Outro dia vi um sujeito na rua, que só poderia ser ele. Sardento, branquelo, ruivo, braços de Popeye. Parecia normal, um cidadão comum. Rezei para que um cofre caísse sobre sua cabeça.