Éramos seis, e hoje somos até mais, mas estamos cada vez menos juntos. Quando estávamos empolgados demais, era assim que a mãe nos refreava. “Pouca farinha no leite, vocês”. E tratávamos de conter o excesso, seja do que fosse. A frase também era muito usada para os assuntos de namoro. “Olha, olha, pouca farinha no leite com a Fulana, viu?”. Mas para isso eu e o meu irmão não dávamos bola. Pelo contrário. Com as namoradas, o que mais queríamos era abusar da farinha no leite e do leite na farinha. Elas gostavam.
Pensando bem, em geral a expressão era usada quando estávamos a falar bobagem. Não estou falando de obscenidades, nunca fomos chegados a isso. Nem de piadas picantes, ou de safardanagens e fofocas em geral. Mas as coisas idiotas, as situações ridículas em que às vezes nos metíamos. Gostávamos de rir de nós mesmos. Depois ficamos mais sérios. Ficamos mais metidos a grandes coisas, e algumas até fizemos e conquistamos. Mas fomos perdendo a capacidade de rir do próprio nariz, de fazer piada com a própria burrice.
Quando paro para pensar, acredito que isso se deve ao excesso de porrada que levamos de todos os lados. Se fôssemos boxeadores, estaríamos todos no quarto de hotel, com o nariz quebrado, a lembrar dos bons tempos, do tempo antes de conquistar o primeiro campeonato. É só o que sobra. A lembrança.
Outro dia tive um sonho horroroso. E tratava exatamente da lembrança. Alguém estava ameaçando levar a minha memória embora. Demorei a descobrir que aquela sombra terrível significava isso: perder a memória. O sujeito não tinha rosto, era somente uma presença incômoda que começava a se aproximar. E então eu começava a ver as coisas boas que me aconteceram. O meu primeiro jogo de xadrez. O meu skate. Um único e maravilhoso gol que fiz de bicicleta. Uma bicicleta. O primeiro disco que comprei, um LP dos Beatles.
E então eu olhava para trás, e o xadrez havia desaparecido. O skate sumia das minhas mãos. E embaixo dele estavam colados dezenas de adesivos que eu colecionava. Até a bicicleta começava a desaparecer. E o meu gol maravilhoso também desaparecia feito aquela foto do filme “De volta para o futuro”. Eu me agarrei ao LP dos Beatles e falei para o sujeito sem rosto, quase gritando: “Esse não, esse é meu, ninguém vai levar o Sargento Pimenta. Pode ir embora, xô, maluco...”
E eu acordei, com uma cotovelada certeira da Patroa. Por causa disso, hoje de manhã fui para o hospital, ó meus sete leitores, e só agora estou atualizando o blog.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
terça-feira, 4 de dezembro de 2007
Cavar um divórcio é fácil

A Patroa adora brigar comigo. Há 15 anos ela adora brigar comigo. Há 15 anos deixei de me importar com brigas. Porque eu adoro a Patroa. Ela tem um mau-humor de manhã tão crônico que aquilo deveria ser pego com cuidado, lacrado e enviado para análise num laboratório. Se ninguém descobrisse o que é, deveria ser emoldurado. O mau-humor dela é o que existe mais próximo do estado da arte.
Imagine uma pessoa que rosna. Agora imagine uma pessoa que rosna e arranha. Acrescente a isso morder, esbravejar e lançar perdigotos. Mesmo assim ainda não se tem a mais pálida noção do que é o mau-humor dessa mulher no período matutino. Se ainda por cima estiver de TPM, o melhor que você faz é evitar contato visual. Mantenha as mãos sempre visíveis, evite movimentos bruscos. Jamais levante a voz. Faça como a mulher que amava os gorilas: abaixe a cabeça e assuma uma postura submissa. Minha Patroa com TPM, no período matutino, vira Macho Alfa do Mundo Animal. Se eu enfrentasse um gorila teria maiores chances de escapar com vida. Nessas horas, se eu pudesse fazer buracos, ficaria com a cabeça enterrada no chão do apartamento. Covarde, sim. Mas vivo.
Eu deveria dizer que adoro o mau-humor da Patroa. Mas isso não é verdade. Detesto o mau-humor dela. Mas é parte dela. Veio no pacote. Não há como mudar isso. E idiota do sujeito que pensa que vai mudar uma outra pessoa. Ela tem outras qualidades que superam de longe essa questão do mau-humor. Por exemplo? Bom, tem a ... tem o .... daqui a pouco eu digo. O que importa é que, de manhã, evito contato visual, olho no olho. Se o banheiro está ocupado, vou para o outro, rapidinho. Respeito o espaço. Dou ampla margem para manobra. Evito ficar próximo dos cotovelos. Não esbarro, toco ou trisco. Não se deve facilitar. Às vezes, o encaixe de um golpe fácil pode ser irresistível se você ficar à disposição. Você sabe, Napoleão perdeu a guerra, escorregou o sabonete. Ficar em certas posições é pedir para ser sacaneado. Com o mau-humor dela não se brinca.
Também evito qualquer menção ao mau-humor. É um assunto tabu entre a Patroa e eu. Temos quase um pacto de silêncio sobre esse assunto. E eu sou tão precavido que, de manhã, evito conversar com ela sobre qualquer assunto que comece com “H” ou com qualquer letra do alfabeto. Eu ainda rezo para o dia em que ela acordará de manhã, bem cedo, para a RRM - Reunião dos Raivosos Matutinos. Só ela poderá mudar o próprio comportamento. É que lá, os RRM começam as reuniões dizendo a quantos dias não explodem enquanto os outros ainda estão escovando os dentes.
“Bom dia, meu nome é Patroa, e já faz uma semana que eu não grito com ninguém depois do banho de chuveiro. Também não estou bufando e nem com vontade de beliscar um caranguejo com as unhas. Ontem fiquei com vontade de enrolar o papel higiênico no meu marido, mas eu me contive. Em compensação, acabei com o último rolo de papel antes que ele entrasse no banheiro. Hoje, antes de vir para esta reunião, acabei com a pasta de dentes. E fico muito feliz em imaginar meu marido escovando com o sabão de glicerina que sobrou... ”
Sim, eu também fico feliz só de imaginar essas reuniões. Aliás, fico feliz só de imaginar ela a dizer bom dia. E se você souber onde os RRM se reúnem, por favor, escreva para o e-mail da Patroa. Cavar um divórcio é fácil. O difícil mesmo é cavar um tesouro no casamento com glicerina nos dentes.
Hoje foi mais ou menos assim. Agora sou responsável pelo fracasso das férias. Que ainda não aconteceram. Mas de manhã não dá para discutir. É melhor não contrariar.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
História para revista de sacanagem

Fazia um calor desgraçado naquela terra. E eu estava numa pindaíba danada. Além disso, eu tinha menos de vinte anos. A única vantagem é que a praia era uma beleza. Mas a água era quente. Eu prefiro água fria. E aquela loura sempre aparecia depois que eu entrava na água do mar.
Eu havia iniciado um programa de exercícios. Pela manhã, corria a praia do início ao fim, ida e volta, o que dava quatro quilômetros. Nadava paralelo à praia durante uma hora. Depois fazia uma porção de flexões de braço, barras e paralelas. Os músculos ficavam saltados. Eu partia para os exercícios de alongamento. Eu me sentia um super-cara, forte, rígido e flexível. E aí, como quem não quer nada, a loura aparecia.
No primeiro dia eu já havia notado o anel de noivado. Uma aliança com brilhante de verdade, grande. Coisa de gente fina, com muito para gastar. A loura também tinha beleza de sobra, para dar e vender. E eu esperava que fosse para dar. Tinha um par de peitos que, da distância em que eu estava, parecia ter custado o triplo do anel. Usava um biquíni verde, uma saída de praia e um par de chinelos amarelos. Outras coisas brilhavam no pescoço e nas orelhas. De frente, era o tipo de mulher fogosa que deveria ser mantida bem longe das calotas polares. De costas, pois ela deu um jeito de me mostrar as costas e o que há debaixo dela, ela me fez lembrar de programas censurados do Mundo Animal. Depois de alguns segundos de contemplação tive que correr para dentro da água, que me pareceu muito mais fria e refrescante. Quando voltei, a loura havia sumido.
Nos outros dias, os biquínis mudavam de cores. A saída de praia parecia ser a mesma, amarrada de formas diferentes. Os colares e brincos também variavam, mas o anelzão de brilhante continuava no dedo da mão direita. E ela agora sorria para mim. E me encarava. E depois, parecia que ia colocar o dedo indicador na boca. E aí mudava de idéia. Passava a língua devagar nos lábios. Cruzava as pernas. Descruzava. Sentava. Levantava. Agachava. Ficava na ponta dos pés, uma bailarina na beira da praia. Parecia nervosa. Relaxava e depois ia até o vendedor de picolés. Voltava com um picolé de coco, um refrigerante, uma laranjinha. E durante uns cinco minutos, eu me imaginava como um sorvete de frutas, sem casquinha. Eu era lambido e escorria pelos seus dedos, escorregava pela suas coxas, pingava naqueles valiosos seios. Eu corria para dentro da água. E quando eu voltava, a loura havia sumido.
Um dia tomei coragem e resolvi falar com a loura. Foi antes dos exercícios de alongamento. Os músculos estavam pulando para fora. Eu parecia uma versão tupiniquim do Exterminador do Futuro, de sunga. Fui caminhando devagar, olhos nos olhos, pela areia quente. Eu não sentia dor. Sorria. A loura também. Eu passei a língua nos lábios. A loura também. Eu levantei as sobrancelhas. A loura também. Eu pisquei um olho, o direito. A loura não piscou. Parei na areia. Talvez ela não soubesse piscar. E a areia quente começou a queimar as solas dos meus pés. Ai, caramba, eu disse. E a loura também.
Comecei a andar mais depressa. Mas, a cada passo, a temperatura da areia parecia ampliar a distância que me separava da calçada. Corri. E alcancei a calçada. E aí realmente queimei a sola dos pés. A loura ria. Gargalhava. Eu sapateava como se o Exterminador do Futuro imitasse Fred Astaire. Sem sapatos. E não havia sombra de nenhuma sombra até onde a minha vista alcançasse. E o anel brilhava. E então vieram as câimbras. (Continua)
domingo, 2 de dezembro de 2007
Está na foto

Tudo o que eu precisava saber sobre a minha turma podia ser visto numa foto que tiramos em 2001. Eu não me lembrava de estar sóbrio na ocasião. A julgar pelo ano, eu provavelmente não estava. Durante cerca de 15 anos da minha vida eu fiquei tão sóbrio quanto o peru na véspera do Natal. Tudo o que eu precisava saber sobre mim está na foto. Eu ainda tinha cabelo. Eu ainda podia ser considerado jovem. Eu tinha uma porção de sonhos estampados na testa. E essa coisa está mudando a configuração sozinha.
sábado, 1 de dezembro de 2007
Como organizar a Ceia de Natal

As ruas já estão enfeitadas e os shoppings já exibem filas de meninos e meninas para ver o Papai Noel. Eu gosto dessa época do ano. Parece haver uma disseminação de boa vontade no ar, que é falsa, mas mesmo assim é melhor que a indiferença generalizada de sempre. Nessa cidade, todos parecem se preocupar em demasia com a privacidade. E isso costuma ser interpretado como indiferença, frieza e distanciamento. Mas, na maioria das vezes, é só civilidade. E no Natal, essa civilidade não se disfarça e se esbalda em solidariedade. Vivo numa cidade legal e, em geral, gosto do povo que vive aqui. Mas esse é, disparado, o melhor período para se passear por aqui. Até o chato que diz que vai vigiar o carro no estacionamento parece menos ameaçador. É tempo de paz. É tempo de ficar perto de quem a gente gosta. Não é tempo de brigar e nem de ficar sozinho.
Acho que seria muito bom se o santo do calendário pudesse influenciar positivamente a vida da gente. Se a gente pudesse ser feliz, com a fogueira no coração, no Dia de São João. E ser fortaleza de pedra, no dia de São Pedro. E ser bom como foi o santo, no dia de São Francisco. Mas nem sempre dá certo.Uma amiga minha disse que brigou com a família no Dia de Todos os Santos. Só podia dar em briga mesmo, é muito santo para um dia só. O problema é que agora ela terá de passar o Natal em casa. E será a primeira vez que fará uma ceia em casa.
E foi aí que eu me toquei. Nunca fiz uma ceia de Natal em casa. Sempre passei em família, ou na casa dos outros. E embora tenha participado da organização de algumas ceias, nunca o fiz de maneira integral, ou seja, nunca organizei uma em minha própria casa. Por isso, dentro do melhor espírito de “quem-não-faz-ensina” vou passar umas dicas de como organizar a melhor ceia de natal que você já viu.(Continua)
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