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sábado, 1 de dezembro de 2007

Como organizar a Ceia de Natal




As ruas já estão enfeitadas e os shoppings já exibem filas de meninos e meninas para ver o Papai Noel. Eu gosto dessa época do ano. Parece haver uma disseminação de boa vontade no ar, que é falsa, mas mesmo assim é melhor que a indiferença generalizada de sempre. Nessa cidade, todos parecem se preocupar em demasia com a privacidade. E isso costuma ser interpretado como indiferença, frieza e distanciamento. Mas, na maioria das vezes, é só civilidade. E no Natal, essa civilidade não se disfarça e se esbalda em solidariedade. Vivo numa cidade legal e, em geral, gosto do povo que vive aqui. Mas esse é, disparado, o melhor período para se passear por aqui. Até o chato que diz que vai vigiar o carro no estacionamento parece menos ameaçador. É tempo de paz. É tempo de ficar perto de quem a gente gosta. Não é tempo de brigar e nem de ficar sozinho.

Acho que seria muito bom se o santo do calendário pudesse influenciar positivamente a vida da gente. Se a gente pudesse ser feliz, com a fogueira no coração, no Dia de São João. E ser fortaleza de pedra, no dia de São Pedro. E ser bom como foi o santo, no dia de São Francisco. Mas nem sempre dá certo.Uma amiga minha disse que brigou com a família no Dia de Todos os Santos. Só podia dar em briga mesmo, é muito santo para um dia só. O problema é que agora ela terá de passar o Natal em casa. E será a primeira vez que fará uma ceia em casa.

E foi aí que eu me toquei. Nunca fiz uma ceia de Natal em casa. Sempre passei em família, ou na casa dos outros. E embora tenha participado da organização de algumas ceias, nunca o fiz de maneira integral, ou seja, nunca organizei uma em minha própria casa. Por isso, dentro do melhor espírito de “quem-não-faz-ensina” vou passar umas dicas de como organizar a melhor ceia de natal que você já viu.(Continua)

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Eu não sei como traçar uma supermodelo



O mais perto que eu cheguei de uma supermodelo foi mais ou menos a distância que consagrou o nosso João do Pulo : 17 metros e 89 centímetros. Eu estava no aeroporto da cidade. E a supermodelo era uma moça loira, cercada de fotógrafos como uma ilha. Por todos os lados. Ao se mover, ela provocava uma revoada de câmaras e gente, como se todos esvoaçassem em torno dela. Acho, não tenho certeza, que era a Ana Hickmann.

Aquela mulher no aeroporto era o sal da terra, em se tratando de beleza. Se eu fosse um cineasta, ela seria um filme destinado ao Oscar. Se eu fosse traficante, ela seria a rainha da cocada branca e da preta também. Se eu fosse um escritor, de verdade,, ela seria Moby Dick, de Melville e também as obras completas de Dostoiévsky. Grande. Majestosa. Estupenda. Parecia um iceberg inatingível. E, no entanto, era o tipo de mulher que deveria ser mantida, por medida de segurança, bem distante das calotas polares. Com um mero sorriso ela era capaz de derreter corações empedernidos. Um decote mais profundo e todas as placas tectônicas seriam chacoalhadas e sairiam do lugar. Com um movimento dos lábios, ela provocaria maremotos, enchentes, tsunamis e furacões. Era demais.

Mas nem se eu tivesse as pernas e o talento do João do Pulo teria conseguido me aproximar dela. Eu sou um covarde quando se trata de chegar perto e falar com mulher supermodelo ou muito super-bonita. É um medo ancestral, daquele de gente que não leva muita confiança no seu código genético e que por isso é tímido. Com supermodelos, essa insegurança genética também se manifesta com uma amnésia e surdez temporária. Desse modo, seja lá qual fosse a supermodelo que vi naquele dia, ela provocou seqüelas profundas. Depois que a vi, esqueci meu nome, endereço, telefone e o que diabos estava fazendo no aeroporto. E como eu também estava temporariamente surdo, não escutei os gritos da minha mulher me chamando. Sim, meu Fiat 147 de leitores, eu estava ali, aparentemente, para ir buscar a patroa.

Aos invés disso, como uma mariposa capturada pela magia ofuscante de uma lâmpada elétrica de mil watts, eu estava seguindo aquela ilha de pernas longas, junto com os outros pássaros, abelhas, andorinhas e tiranossauros. Se alguém, uma pessoa que não reconheci na hora, não tivesse me dado uma rasteira e uma bolsada nas costas, talvez eu tivesse morrido atropelado naquele dia, atrás da supermodelo. É como diz a música, companheiro, só não vai quem já morreu. Como foi a minha primeira manifestação de amnésia e surdez temporárias, eu estava mais surpreso que a própria patroa. No chão, eu tentava evitar mais bolsadas, sem escutar a minha própria voz.

_Voz – eu tentei dizer. E, com mímica, fiz aquela pessoa (que era a minha patroa mas que eu ainda não havia temporariamente reconhecido) entender que eu não estava temporariamente escutando nada. Foi então que também descobri que havia ficado temporariamente mudo. Amnésico, surdo e mudo. Fiz mímica para tudo isso. E como eu não sou nenhum Marcel Marceaux, nem temporariamente, ela entendeu tudo errado. Para começar, ela primeiro achou que estava imitando um buldogue babão. Depois, ela achou que aquilo era uma pouca vergonha descarada e me deu umas dez bolsadas rápidas. Em seguida, ela pensou que eu estava dizendo algo como “dá um tempo aí, baby, que eu estou olhando para uma gata maravilhosa”. Ou “espera aí, deixa eu ver, deixa eu ver, pô”. Ou “larga do meu pé, xulé”. Quando não era nada disso e daquilo. Mais algumas bolsadas e eu comecei a voltar ao normal, pois já escutava uma pequena torcida que se formava em torno do otário que apanhava da mulher no aeroporto.
_ Acerta a orelha dele, madame – disse um engraçadinho.
_Acerta uma no queixo – disse outro.
_Dez pratas na maluca com bolsa – disse um terceiro.
E foi a minha sorte. Depois disso a patroa parou. E foi bem na hora, pois mais uma bolsada e meu óculos teria se partido ao meio. Sem falar no meu supercílio.
(Continua)

Frase do dia