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sexta-feira, 5 de junho de 2009

O boleiro está na copa


(Aí perto, nessa rua de Chicago, tem a lanchonete que inventou o Hot-Dog)

Faz tempo que eu não escrevo sobre alguma coisa no trabalho. É porque o ritmo de atividades tem sido tão maluco que não dá tempo de perceber o trivial. Mas hoje, numa hora que eu estava morrendo de raiva de um arquivo perdido por uma pane elétrica, escutei uma pessoa gritar no cubículo atrás de mim:
_O boleiro está na copa! O boleiro está na copa!
Boleiro? Eu estava meio travado e demorei a entender que boleiro é o sujeito que vai de andar em andar para vender bolos. Esse edifício meio burrinho onde eu trabalho tem coisas realmente pitorescas. E o sujeito que vende bolos deve ter um primo na segurança do prédio, porque se eu quiser subir com um pacote preciso explicar mil vezes o que tem dentro. Um vez quis subir com uma caixa de papelão e pensei que teria que passar por uma revista corporal, do jeito que os caras olharam enfezado para mim. Bolas.
E bolos. Houve realmente uma corrida de pessoas até a copa para comprar bolos. Nunca tinha visto isso. A copa é pequena, cabe pouca gente entre a máquina de café e a pia. Mas as pessoas parecem não se importar com aperto, quando é hora de comprar bolo. De longe, do meu cubículo, dava para escutar a galera disputando os bolos.
_Tem de laranja?
_O de mandioca está reservado.
_Ainda tem rocambole?
_Larga!
_Solta!
_É meu, é meu!
E daí a pouco eu vi o desfile de gente passando no corredor, carregando vistosos pedaços de bolo. Bolo de amêndoas. De fubá. De cenoura. De banana.
_E aí Careca? Não vai querer bolo? – disse o C3PO, o cara mais antipático do trabalho.
_Hoje não, obrigado.
_Está de regime, né? – continuou o C3PO.
_Não sou muito fã de bolo.
_Isso é fãbuloso – ele disse, orgulhoso do trocadilho.
_Você que reservou o bolo de mandioca, não foi? – eu perguntei, num tom que considerei “numa boa”.
_É fui eu sim, por quê? Vai fazer piadinha? Vai sacanear? Qual é o problema da mandioca? Vai fazer alguma insinuação? Vai falar sobre preferência sexual? Hã? Hã?
_Vai chupar uma am-pô-la, ô C3 - eu pensei em dizer. Mas não disse. Sexta-feira não é um bom dia para brigar. Estraga o fim de semana. Ao invés disso eu fiquei calado. E eu só ia dizer que também gosto de bolo de mandioca. Numa boa. Além disso, descobri que o meu arquivo não estava perdido. Virei para a minha tela.
_Hein? Não vai falar nada? – insistiu o energúmeno.
Mesmo assim não falei nada. Só mostrei um dedo. O fura-bolos.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O Careca treina para a Crise



Eu sempre chego atrasado aos grandes momentos da história. E sempre tomo prejuízo. Eu cheguei atrasado na revolução psicodélica. Peguei o Diretas Já no finalzinho. Não sabia de nada e mesmo assim quase levei porrada. Vi o muro cair de longe. E quando os cara-pintadas pintaram a cara eu já estava em outra. De agora em diante, estarei sempre de olho no relógio, não vou me atrasar mais. Só preciso comprar um relógio legal, o que pretendo fazer amanhã, logo que tiver um tempinho extra. Preciso achar um relógio que evite que eu marque bobeira. Que me dê uns eletrochoques de advertência, quando eu estiver próximo, quase na hora, de fazer uma besteira. Ou quando alguma coisa importante estiver acontecendo e eu não perceber.

Antes de começar mais uma “magical mistery tour” com vocês todos, ó minha Kombi de leitores, devo dizer que estou assustado. É verdade. Essa crise afeta o humor das pessoas. E dá medo.

Mas vamos começar pelas regras de segurança. Eu posso ver pelo retrovisor dessa Kombi que alguns de vocês ainda não apertaram o cinto de segurança. Eu também não. E isso não é desleixo. É só que não faz diferença. O mais extraordinário dos grandes momentos históricos é que você percebe que é um pontinho minúsculo de uma partícula ínfima de um trocinho infinitesimal.

A globalização é um troço complexo. Mas também é simples. É complexo se você acha que pode se dar bem de alguma maneira. Aí, veja bem, é super-complicado pra dedéu. Mas ao mesmo tempo é super-simples porque a possibilidade de se dar bem não existe.

Quando globalizaram essa coisa toda, certamente ninguém pensou em você. Por isso, se você espirrar, não acontece nada. Mas basta alguém lá na ponta do infinito dar um chute no bumbum incauto de um indiano, de um chinês, ou mesmo de um birmanês, que você, aqui, perderá o emprego. Entendeu?

Não entendeu? Eu vou tentar desenhar. Mas já adianto que não sei nada de economia, só entendo aritmética básica. Desse modo, vamos aos conceitos essenciais. A globalização é um concerto cruel de ocorrências fúnebres. Você só faz parte dela quando a barra pesa. Só te chamam na hora de dividir os prejuízos. Enquanto os suspeitos de sempre ganham rios e tubos, você amarga o desconforto de estar fora dessa onda. Quando a marola virar tsunami, tudo o que você poderá fazer será cavar um buraco na areia. Viu?

Outro conceito básico: não tendo como pagar, ninguém emprestará nenhuma grana para o spic latino. Ainda que os Ninjas – No income, no job, no assets - dos EUA tenham abandonado os treilers onde viviam e passado a habitar mansões milionárias tenho certeza de que não foi isso que provocou a débâcle dos últimos dias. Foi uma borboleta qualquer.

É, minha querida Kombi, estamos aqui, no meio do gigantesco cíclotrons da economia, esperando um choque de partículas que irá desintegrar anos de trabalho e a tranqüilidade das aposentadorias que não conseguimos garantir. Daqui a alguns anos, estaremos todos na praia, ralando, tentando arrumar algum para inteirar as meias pensões da terceira idade dos velhinhos de alguma parte de cima do Equador. Isso, se tivermos sorte.

Portanto, caros amigos, é melhor treinar desde já:
_Hei, Mister, do you want a hot-dog?

Frase do dia