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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Eleições na escola

A escola nem-tão-alternativa-assim onde meus filhos estudam adota uma sistemática interessante para a definição dos nomes das turmas das crianças: o voto direto com o braço levantado. Vence o nome que tiver mais braços levantados. Foi assim que no ano passado, a sala da minha filha se chamou “Jardim Pato”. Foi unanimidade. Todo mundo quis pato. E todo mundo levantou os dois braços. Por causa disso, a turma Pato ganhou até um pato de verdade de presente. A escola considerou a iniciativa didática, embora eu tivesse dúvidas sobre os ensinamentos que pudessem vir a ser transmitidos pelo animal. Mas os meninos e meninas aprenderam muito com ele. Por exemplo? Aprenderam o que é pé chato. Seja como for, o bicho cresceu e está enorme, outro dia vi atrás de uma grade. Suspeito que em breve vai virar um prato ao tucupi, ou com laranja.

A sala ao lado da sala da minha filha tinha uma borboleta grande grudada na parede, bem perto da porta. Sim, você adivinhou. Era o Jardim Borboleta. Após a escolha do nome, as crianças adotaram diversas lagartas. Não. É mentira. Um dos pais teve a paciência de recolher lagartas no jardim de casa e levar para a escola. Foram tantas lagartas que a escola resolveu dividir entre as turmas do jardim para as aulas de "metamorfose".

Uma das coisas mais sensacionais do jardim da infância é aprender sobre metamorfose. Esse conhecimento é muito estimulante. A feiúra da lagarta pode se transformar numa bela borboleta. Então, tudo é possível. Certo. Tirante a calvície.

A turma do meu filho também tinha nome ecológico. Era Primeiro Ano Planta. Meu filho me disse isso entredentes, mas eu percebi que ele não estava entusiasmado pela maneira como olhava para o próprio umbigo. Não pedi para repetir. Durante uns dez meses, nós evitamos falar do nome da turma. O ano passou rápido. Eu também não me liguei muito na temática, eu confesso.

Às vezes, os assuntos e temas mais deliciosos estão debaixo do meu nariz, mas a minha empáfia faz com que eu não perceba. No meu tempo, os meninos não escolhiam o nome da turma. Era tudo número e letra. Primeiro A. Segundo Ano B. Terceiro E. Tudo muito cartesiano, eixo x, eixo y. Uma chatice total. É lógico que é muito melhor crescer numa turma em que você participa da escolha do nome. Ainda que você não tenha levantado o braço para o nome vencedor.

Neste ano, minha filha está no Pré Arco-Íris.

_Eu queria Rosa, paiê, mas só eu levantei os braços.

_Ué, e o seu primo? Ele está sempre do seu lado. Pensei que ele ia levantar o braço junto com você.

_ Ah, paiê, ele agora só anda com os meninos, nem brinca mais comigo. E ele gosta mais de roxo.

_Roxo é uma cor legal. E você, filho, como chama a sua turma.

_Segundo Verde - diz o menino. Mais uma vez, percebo que ele não está satisfeito com o nome da turma. A antiga primeira série é o atual segundo ano. O menino já está alfabetizado, mas só agora começa a ter provas e avaliação de verdade. Embora no ano passado ele também já fizesse dever de casa. Assim, se ele tivesse entrado no ano passado no atual segundo ano ele estaria adiantado, embora estivesse apenas na primeira série. Mas como ele entrou na primeira série, ele passou para o segundo ano, o que equivale à série seguinte ao jardim de infância. Ao que parece, a alteração é o sonho orgiástico de um burocrata, pois melhora as estatísticas e ao mesmo tempo provoca uma confusão dos infernos na cabeça da gente.

_Verde é um nome bacana, filho.

_É pai, mas eu queria outro nome.

_Qual?

_"Rock". Queria que a minha turma chamasse Segundo Ano "Rock".

_Rock é bem radical, filho.

_É bem manêro.

_Se eu estivesse lá eu teria levantado os dois braços - eu disse.

E teria mesmo. O garoto é antenado. Quer ritmo e música para nome da turma. Por mim, eu teria achado ótimo ter estudado no Segundo Ano Feijoada.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

É hora de dizer obrigado



Descobri, para minha vergonha, que sou um ingrato contumaz(Adoro essa palavra, parece que o mau costume está tatuado no couro da gente). Fiz um exame do pratrazmente para ver se fazia muito tempo que eu não dizia obrigado. Verifiquei que é raro pacas eu fazer um agradecimento. Até para a Rose.
Ela, a Rosenereide, lava, limpa, passa, enxuga, cozinha e descasca todos os abacaxis domésticos daqui de casa. Todos os dias, menos domingo. Sem ela, eu estaria cercado de roupa e louça suja, de pilhas de livros desarrumados e de quilos de papéis rabiscados. Sem falar das toneladas de brinquedos das crianças, que todos os dias fazem questão de espalhar as bonecas, carrinhos e bugigangas pelo apartamento.
Mas descobri também que eu não consigo dizer obrigado de um jeito direto. Para começar, eu tenho que treinar, que nem o Robert De Niro, em Táxi Driver. Fico olhando para o espelho, com cara de mau, falando para o careca do outro lado:
_E aí, tá olhando o quê? Hã? Hã? Obrigado! Obrigado, o quê? Hã? Muito, muito obrigado! Ah é? Ah é? Merci beaucoup, hã? Thank you very much, hã? Então pega esse valeu aqui, pam, segura esse obrigadinho aqui, tam, e pam...
Então banquei o De Niro uma meia hora. Depois do aquecimento eu fui até a Rose, enquanto ela preparava o arroz. Eu disse obrigado, bem baixinho e sem olhar para ela. De modo que ela achou que eu estava falando sozinho. Como falo sozinho o tempo todo, ficou por isso mesmo.
Um a menos.
Aí lembrei do porteiro do prédio, o Seu Davi. Ele já quebrou uma porção de galhos para mim. E ainda ontem me ajudou a carregar um peso gigantesco até o armário da garagem. Então eu desci até o térreo, abri a porta do elevador e dali mesmo fiz o sinal de positivo com o polegar para o Davi.
_Valeu Davi, brigadão! - gritei. Ele levantou o polegar.
Dois a menos.
A moça da limpeza, a Dona Jandira. Deixei cair o jornal, ela me ajudou e eu disse, também sem olhar para ela:
_Obrigado, Dona Jandira! Continue o bom trabalho! – e ela sorriu, balançando a cabeça.
Três.
E antes da Patroa chegar em casa eu já tinha dito nove obrigados sem precisar pegar o carro, sendo dois deles por telefone. Eu também disse obrigado ao meu vizinho de frente, que me empresta ferramentas. Ele fez um transplante de rim e agora fica me vigiando da varanda. Acho que a serra tico-tico dele está aqui em casa. Ele estranhou quando eu falei obrigado.
_De nada. Mas não joga mais nada na minha varanda, por favor.
_Pode deixar, valeu. Essa borracha é de estimação.
_O senhor está tão esquisito. É candidato a síndico de novo?
_Não, o poodle do sexto andar é imbatível. Mas obrigado por ter votado em mim na última eleição.
_Eu não votei no senhor. Não gostei do seu slogan.
_”Tira essa escada daí!” Foi inspirado no Jorge Benjor.
_E a plataforma do poodle era melhor.
_Que plataforma?
_”Eu faço. Vocês limpam”. Vem cá, minha tico-tico está aí?
É por isso que eu concordo com o Rei do Futebol. Não sabe mesmo. Felizmente, antes da conversa ficar escatológica como o Ciro Gomes gosta, a Patroa chegou.
_Obrigado, vizinho. É isso aí, valeu Dotô – eu me despedi, batendo o blindex.
Nove.
_Está brigando na varanda, de novo, meu bem?
_Eeuu?Nãããoooo. Mas descobri que o vizinho também preferiu o voto útil.
_Ah, ele também votou no poodle?
_Sim. Como você, ele preferiu me ver livre das obrigações do cargo. Obrigado, querida.
Dez. E o dia nem tinha acabado. E eu estava me sentindo muito bem, embora um pouco vesgo. Caramba! Eu deveria ter pensado nisso antes. Se eu continuar nesse ritmo, vou conseguir agradecer a todo mundo que já me deu a mão. Inclusive a você, Lúcia, a Franka do blog Frankamente, que fez um mega post super generoso e carinhoso sobre esse meu blog. Muito obrigado. (Viu? E eu nem rimei.)

Frase do dia