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sábado, 10 de abril de 2010

Melzinho, doutor e vírus



No dia 5 de setembro de 2008 publiquei o texto "Vai melzinho aí, doutor?" neste blog. É o post campeão de mensagens viróticas do Caminho do Careca. O motivo me escapa. Mas todos os dias recebo pelo menos duas mensagens/comentários de endereços muito suspeitos com elogios ao blog e mensagens publicitárias de máquinas miraculosas. Ultimamente também tenho recebido mensagens de uma tal Student Travel Association, nome que parece perfeitamente legítimo, prometendo umas oportunidades boas demais para serem verdadeiras. Esses criadores de vírus às vezes são criativos, mas em geral oferecem apenas pornografia.

Houve uma época em que eu sempre recebia um e-mail gigantesco de alguém da África que precisava de ajuda para resgatar uma fortuna de um banco não sei aonde. O e-mail parecia ter saído de um romance de espionagem, era interessante. Naturalmente eu não fazia o que era pedido, mas lia a mensagem mesmo assim. Depois parece que os e-mails viróticos interessantes escassearam.

Seja como for, a não ser que vocêr esteja muito distraído, é fácil identificar uma mensagem robótica virótica no e-mail.Todo ano tem a onda do e-mail falso do Banco Tal, da falsa mensagem do IR, do foto jogador de futebol pelado, da foto da atriz pelada, mas esses são manjados e não despertam curiosidade. A não ser, é claro, que seja uma foto da sua atriz favorita. Ou do jogador, há gosto pra tudo. Né?

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Vai melzinho aí, doutor?



Eu estava de carro, voltando de uma reunião de trabalho para o meu cúbi (é pequeno demais para ser chamado de coisa maior, estou pensando em reduzir o nome ainda mais). E lá estão eles, senhoras e senhores, os malabaristas do semáforo. Está um calor infernal na cidade que Niemeyer projetou. Só posso imaginá-lo gigantesco, com uma enorme lupa numa das mãos, focalizando os raios solares sobre a minha cabeça. Zut. Estou torrado. Zut. Aquele cara também. Zut. O raio solar atinge um dos malabaristas. Zut. O fogo dos céus desce sobre nossas cabeças.

Algo, definitivamente, está acontecendo com o clima global. Não é só o derretimento das calotas polares. É o esquentamento universal que está nos tirando do sério. Está torrando o nosso senso de humor. Cara, não se consegue nem pensar direito.

E definitivamente, pensar é algo que esses dois sujeitos não parecem estar fazendo. Esses dois sujeitos estão em outro semáforo. E estão correndo feito doidos para distribuir balinhas. São dois baleiros lunáticos. Quando o calor é infernal todos os semáforos ficam vermelhos só para você, já reparou? Eu estou ali, suando em bicas, dentro do automóvel. Mas talvez eu deva explicar porque os vidros estão fechados. Então vou começar de novo, se você não se importar.

Eu outro dia estava descendo a avenida chamada Eixo Monumental, que desemboca na Esplanada dos Ministérios. São seis pistas num único sentido. E eu estava com um calor danado, vidros abertos, imaginando o Gigante Niemeyer com uma lupa bem grandona torrando os seres humanos que decidiram viver nessa cidade. E logo depois do primeiro viaduto, justo quando estava quase passando debaixo da rodoviária do Plano Piloto, o semáforo fechou. Enquanto eu observava as cores vivas do semáforo e o horizonte dessa pátria mãe gentil, escutei uma voz quase na minha nuca.

_Vai melzinho aí, doutor?
_Mas é claro!! – eu respondi, imediatamente, já sacando a notinha de dois reais que deixo enrolada no console, para evitar surpresas e mal-entendidos nos estacionamentos.

Eu também tenho sempre umas moedas de 1 ao alcance dos dedos para evitar dissabores, no porta-trecos da porta. São essas coisinhas que salvam vidas. E quando um ser humano pergunta na sua nuca se você quer melzinho, o melhor é aceitar logo e puxar o trocado. Desde esse dia, não importa o calor e o fato de não haver ar condicionado no carro, eu chego no semáforo com os vidros fechados.
Hoje, portanto, eu voltava para o meu cúbi quando reparei no estranho balé dos baleiros maníacos no semáforo dos infernos. Eram dois, os malucos. Eles, sob o sol escaldante do Planalto Central, distribuíam dois pacotes de balas grampeadas com bilhetes nos carros parados. Definitivamente, eu não iria abrir o vidro para pegar balinha de jeito nenhum. E ninguém abriu os vidros de maneira nenhuma. E os baleiros maníacos vieram correndo e retiraram todas as balinhas. Menos uma. Uma moça, lá na frente, pegou os pacotes grampeados, a dois reais. Fiz as contas depressa. Vamos supor que eles conseguissem distribuir vinte duplas de balinhas, a dois reais, a cada sinal fechado. Com a taxa de sucesso de cinco por cento a cada cinco minutos e considerando quatro metros percorridos para cada carro, cada um faturaria 24 mangos a cada hora, ou a cada mil metros percorridos. Em outras palavras, a cada cinco quilômetros, os baleiros maníacos , juntos, iriam faturar 240 mangos. Em uma semana, 1680.

Depois de uma semana, no entanto, a taxa de sucesso se reduziria para um por cento. Até que a dupla bolasse uma estratégia nova.

Depois, à noite, voltando para casa, eu vi a baleira do semáforo da rodoviária, no sentido rodoviária –Torre de TV. Tem uns dez anos que ela vende balas no semáforo. E eu comprava chicletes dela, uma vez por semana. Mas agora, depois do episódio do melzinho, deixei de comprar.

Frase do dia