
Eu estava de carro, voltando de uma reunião de trabalho para o meu cúbi (é pequeno demais para ser chamado de coisa maior, estou pensando em reduzir o nome ainda mais). E lá estão eles, senhoras e senhores, os malabaristas do semáforo. Está um calor infernal na cidade que Niemeyer projetou. Só posso imaginá-lo gigantesco, com uma enorme lupa numa das mãos, focalizando os raios solares sobre a minha cabeça. Zut. Estou torrado. Zut. Aquele cara também. Zut. O raio solar atinge um dos malabaristas. Zut. O fogo dos céus desce sobre nossas cabeças.
Algo, definitivamente, está acontecendo com o clima global. Não é só o derretimento das calotas polares. É o esquentamento universal que está nos tirando do sério. Está torrando o nosso senso de humor. Cara, não se consegue nem pensar direito.
E definitivamente, pensar é algo que esses dois sujeitos não parecem estar fazendo. Esses dois sujeitos estão em outro semáforo. E estão correndo feito doidos para distribuir balinhas. São dois baleiros lunáticos. Quando o calor é infernal todos os semáforos ficam vermelhos só para você, já reparou? Eu estou ali, suando em bicas, dentro do automóvel. Mas talvez eu deva explicar porque os vidros estão fechados. Então vou começar de novo, se você não se importar.
Eu outro dia estava descendo a avenida chamada Eixo Monumental, que desemboca na Esplanada dos Ministérios. São seis pistas num único sentido. E eu estava com um calor danado, vidros abertos, imaginando o Gigante Niemeyer com uma lupa bem grandona torrando os seres humanos que decidiram viver nessa cidade. E logo depois do primeiro viaduto, justo quando estava quase passando debaixo da rodoviária do Plano Piloto, o semáforo fechou. Enquanto eu observava as cores vivas do semáforo e o horizonte dessa pátria mãe gentil, escutei uma voz quase na minha nuca.
_Vai melzinho aí, doutor?
_Mas é claro!! – eu respondi, imediatamente, já sacando a notinha de dois reais que deixo enrolada no console, para evitar surpresas e mal-entendidos nos estacionamentos.
Eu também tenho sempre umas moedas de 1 ao alcance dos dedos para evitar dissabores, no porta-trecos da porta. São essas coisinhas que salvam vidas. E quando um ser humano pergunta na sua nuca se você quer melzinho, o melhor é aceitar logo e puxar o trocado. Desde esse dia, não importa o calor e o fato de não haver ar condicionado no carro, eu chego no semáforo com os vidros fechados.
Hoje, portanto, eu voltava para o meu cúbi quando reparei no estranho balé dos baleiros maníacos no semáforo dos infernos. Eram dois, os malucos. Eles, sob o sol escaldante do Planalto Central, distribuíam dois pacotes de balas grampeadas com bilhetes nos carros parados. Definitivamente, eu não iria abrir o vidro para pegar balinha de jeito nenhum. E ninguém abriu os vidros de maneira nenhuma. E os baleiros maníacos vieram correndo e retiraram todas as balinhas. Menos uma. Uma moça, lá na frente, pegou os pacotes grampeados, a dois reais. Fiz as contas depressa. Vamos supor que eles conseguissem distribuir vinte duplas de balinhas, a dois reais, a cada sinal fechado. Com a taxa de sucesso de cinco por cento a cada cinco minutos e considerando quatro metros percorridos para cada carro, cada um faturaria 24 mangos a cada hora, ou a cada mil metros percorridos. Em outras palavras, a cada cinco quilômetros, os baleiros maníacos , juntos, iriam faturar 240 mangos. Em uma semana, 1680.
Depois de uma semana, no entanto, a taxa de sucesso se reduziria para um por cento. Até que a dupla bolasse uma estratégia nova.
Depois, à noite, voltando para casa, eu vi a baleira do semáforo da rodoviária, no sentido rodoviária –Torre de TV. Tem uns dez anos que ela vende balas no semáforo. E eu comprava chicletes dela, uma vez por semana. Mas agora, depois do episódio do melzinho, deixei de comprar.