
A ilustração acima sempre me vem à cabeça na primavera. Achava que tinha sido um colega de classe que inventara. Ele desenhava a silhueta feminina, colocava o V e depois finalizava com ERA. Na minha cachola, essa ilustração era uma alusão direta a Vera Fischer, a musa de todos nós, os seres humanos do sexo masculino. A Vera Fischer, a Luiza Brunet, a Isadora Ribeiro eram uma espécie de triunvirato da imaginação masculina naquela época. Outras faziam sucesso, também. Mas as três eram campeãs meio imbatíveis da minha seleção de musas juvenis, os anjos azuis dos meus sonhos de adolescente.
Pode parecer estranho que um filme de 1930, Der Blaue Engel, tenha aparecido de repente na minha cachola. Mas lembrei que em uma das cenas do clássico com Marlene Dietrich, um dos alunos do Professor que fica maluco tira uma foto do Anjo Azul de dentro do livro e sopra as peninhas que cobrem as partes pudendas de Marlene. Não se vê nada na tela, pois um corte de montagem mostra o rosto do aluno se deliciando com a imagem da moça do cabaré. Em seguida, pelo que me recordo, o Professor toma a fotografia do aluno para logo depois também ser hipnotizado pela fotografia. Lembro pouco desse filme, que aluguei em VHS há muitos e muitos anos. Lembro pouco da minha juventude. E geralmente não gosto de me lembrar dessa juventude e das suas primaveras.
É primavera. O Anjo Azul foi o único livro que tentei ler em alemão. É óbvio que não consegui. Acabei lendo em inglês. Eu estudei um ano no Goethe Institute, no período noturno, mas não consegui avançar muito. Foi uma época conturbada do início da minha vida adulta. É estranho como alguns períodos da vida da gente simplesmente desaparecem da memória. Nessa época eu queria fazer tantas coisas ao mesmo tempo que não conseguia fazer nada. Embora eu ainda seja um pouco assim. Eu queria, mas me esforçava apenas o necessário para não fracassar. É óbvio que isso não era o suficiente. Hoje, o alemão ainda parece uma língua decifrável para os meus ouvidos. Algum dia tentarei reaprender.
Muitos anos depois eu vi uma outra pessoa desenhar esse mesmo desenho daí de cima. E essa pessoa jurou que havia visto o próprio pai desenhar esse desenho e copiado a idéia. Depois, vi muitas outras pessoas fazendo o mesmo desenho. Mesmo assim, minha memória teima em apontar como autor original do desenho um amigo que nunca mais vi. Lembro daquele dia, na escola, quando ele caminhou até o quadro-negro e riscou com um giz amarelo esse desenho. Lembro também que ele me deu o giz amarelo e que logo em seguida todos voltaram repentinamente do recreio.
E só porque eu estava com o giz amarelo, todos pensaram que o desenho tinha sido feito por mim. Lembro que esta foi a primeira vez que fui obrigado a ir conversar com o responsável pela disciplina, o Irmão Hilário. Era um religioso que tinha esse nome, mas não era nada engraçado. Esse cara era um campeão de lançamento de perdigotos, era uma espécie de bedel da escola. E lembro que foi a primeira e única anotação que recebi na minha caderneta de estudante. Dizia que eu era sujeito a devaneios e tinha sido apanhado a desenhar obscenidades.
Precisei roubar uma gilette do barbeador do meu pai, daqueles de metal, de enroscar. Com todo o cuidado do mundo, eu gilettei uma única folha da caderneta. Naquela época, todos os alunos da escola tinham uma caderneta com foto, calendário para carimbo de presença, anotações, hino da escola, hinos diversos e mensagens. O corte ficou quase imperceptível. Depois eu peguei a página recortada, um pequeno retângulo, e queimei. Durante muito anos, fiquei sem desenhar obscenidades. Durante muitos anos fiquei sem desenhar nada.