_O trabalho manual, o artesanato, é uma coisa muito desvalorizada no Brasil - eu disse.
_É - concordou a minha mulher.
_Não sei porque isso. Em todos os lugares civilizados do planeta, as pessoas valorizam os trabalhos manuais. Tem muita gente que vive de artesanato na Europa, os caras são respeitados. Enchem a boca ao dizer "artesão". É outra coisa. Nos Estados Unidos também é assim. Os caras são valorizados. Não é como aqui.
_É - disse a minha mulher.
_Conheço um português que criou seis filhos com o trabalho artesanal de restaurador. O cara é bom. Sabe tudo. Também vive dando palestras pela Europa. Lá isso é muito valorizado. Não é como aqui.
_É - disse a minha mulher.
_Aqui, o sujeito pode criar as coisas mais geniais que ninguém valoriza. Todo mundo põe defeito. Brasileiro gosta de chutar cachorro moribundo. Diz que é coisa chinfrim. Que é brega. Se é feito em casa não presta. Santo de casa não faz milagre mesmo. Pode ser a coisa mais trabalhosa do mundo, com o melhor acabamento do mundo, mas ninguém dá o menor valor. Pode colocar amor, carinho, imaginação, inteligência, afeto e a melhor das competências técnicas. Não adianta. Ninguém respeita. É um horror.
_Careca?
_Sim, meu amor.
_Essa conversa toda não é por causa daquelas suas caixinhas de marchetaria, é?
_Não. Quiéisso? Nãããoo. De jeito maneira.
_Achei muito bonitas as suas caixinhas.
_De verdade?
_Acho que sua mãe e suas irmãs vão adorar aquelas caixinhas de presente de Dia das Mães. Mas eu não quero caixinha de jeito nenhum.
_Ah, é, é?
_É.
_E o que você quer? Uma bolsa Louis Vuitton?
_É totalmente artesanal - ela disse.
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quarta-feira, 5 de maio de 2010
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Choque anafilático

Na mesma época que eu descobri que poderia ficar surdo, mudo e amnésico ao ver uma supermodelo, mesmo que à mesma distância de um salto triplo do João do Pulo, também descobri que poderia sofrer um choque anafilático.
Eu desconfiava disso. Só pode ser de família. Meus irmãos são hipersensíveis a algumas substâncias. Minha irmã mais velha, por exemplo, não pode nem chegar perto de frutos do mar. Camarão, caranguejo, lagosta, ostra, marisco, lula, tudo isso pode provocar reações muito desagradáveis e perigosas. Basta dizer que uma vez ela quase morreu porque comeu um inocente risólis. O recheio era de frango, mas o danado tinha sido feito no mesmo óleo que os risólis de camarão. Como resultado, ela ficou dois dias internada, inchou feito um balão, teve uma crise respiratória gravíssima e faturou um milhão de euros em indenização do buffet que serviu a bomba para ela, em Londres, na Inglaterra.
É. É só lá fora que indenização dá grana, gente. Aqui, e isso é só uma hipótese, mesmo se o ministro dos transportes voltar trolado de um churrasco e atropelar um funcionário público na rua a indenização será uma mixaria de cestas básicas. E ainda vão querer culpar o funcionário público. Ainda mais se ele for lixeiro.
Lá fora, não. A menos que você seja estrangeiro. Aí primeiro vão querer te acusar de terrorismo. Como aconteceu com a minha irmã. Para você ter uma idéia, deitada, na cama do hospital, ela ficou muito parecida com o Bob Esponja pintado de cor-de-rosa. Aproveitando-se disso, o buffet divulgou, por meio de um tablóide especializado em sacanear a Britney Spears, uma foto da minha irmã no hospital e a informação de que ela já havia dado o “golpe do anafilático” em buffets da Espanha, França e Alemanha. Foi o bastante para o caso se transformar em escândalo nacional. Ou melhor, transnacional, já que estamos falando do Reino Unido.
A sorte é que ela ainda não tinha visitado a Alemanha. E os buffets da Espanha e da França haviam fechado as portas depois que pagaram as indenizações devidas. Por causa disso, a opinião pública transnacional da Grã-Bretanha acabou ficando do lado dela. Nas ruas, as pessoas, especialmente os clandestinos, torciam para que ela ferrasse com o buffet. Outros queriam que ela se mudasse para a Alemanha e ferrasse com os buffets de lá. Outros achavam que a Britney Spears era mais magra. E alguns malucos achavam que ela já tinha sido o Bob Esponja de um dos filhos de Charlie e Diana.
Mas ela não fez nada disso. Entrou em acordo e recebeu a bolada. Teve muita sorte, pois um marisco, lula, dilma ou até mesmo uma lagosta teriam sido fatais. Hoje ela pensa muito em sair de Londres, porque não agüenta mais aquela maresia de sanidade, aquele jeitão das coisas funcionarem, toda aquela ordem, paz, segurança e tranqüilidade. Mas eu sei que no fundo, no fundo, no fundo, ela quer mesmo é voltar para a terrinha. Da Edith Piaf.
Ela diz que aproveita todo o tempo livre que tem para fazer as malas. Nesse ritmo estará com tudo pronto para se mudar para Paris antes do Natal. A Patroa diz que ela está enrolando, mas devo dizer, em defesa da minha querida irmã, que são muitas malas. E algumas são Louis Vuitton. Acho que é possível que ela esteja com um pouquinho de medo de encarar mais uma temporada numa cidade fantástica, num país sensacional, onde tudo também funciona direito e você é bem tratado se souber falar francês e escolher o vinho certo. (Continua)
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