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terça-feira, 20 de maio de 2008

O pior dos pecados



Os sete pecados capitais. Todos eles são mortais. Mas não é só você que morre. É você e a sua alma. Se você cometer um deles, se não for perdoado, sua alma queimará no inferno por toda a eternidade. Foi assim que eu entendi, quando me ensinaram. Talvez eu tenha entendido errado, não importa mais. Para mim é isso que vale.

Não sou muito religioso, mas procuro fazer os instintos básicos mandarem menos. Tento abrandar um pouco o futuro fogo debaixo da minha alma condenada. Não sou muito guloso. Mantenho o luxúrio dentro das calças. Sou pão-duro, mas dou minhas esmolas. Tenho raiva de agüentar muita coisa calado, mas aguento. Minha soberba é meio chinfrim, classe média. Minha preguiça tem hora certa. E a inveja, se é forte, eu procuro sufocar debaixo do chuveiro frio.

Se eu tivesse que colocar uma hierarquia de importância, começando pelos menos “nocivos”, eu deixaria nessa ordem: gula, luxúria, avareza, ira, vaidade, preguiça e inveja.

Essa é a minha ordem. Pode não ser a sua. Não fique bravo. Controle a sua ira.

Gula é uma coisa terrível para algumas pessoas. Um bom jeito de verificar se você mantém a gula sob controle é numa boca livre. Em casamentos, por exemplo. Se você ficou na sua, e não correu na hora que liberaram geral, então você está bem, cara, você está bem. Agora, se ficou na sua, mas arrependido de não ter espetado um garfo na mão de alguém, você precisa de tratamento. O melhor tratamento para Gula é comer muito. Sem mudar o guarda-roupa.

Luxúria também pode ser terrível. O remédio para ela é o mesmo indicado para Gula, sendo que o melhor é nem usar nada do guarda-roupa. E sem esconder em guarda-roupa.

Avareza, me dá uns ataques. Já tive muitos ataques de avareza. Nenhum chegou ao extremo de me deixar anoréxico, a ponto de esconder comida, mas já cheguei perto. Mas também não me preocupo muito com avareza. Tem muito profissional espalhado no mundo trabalhando com ela, fazendo a gente gastar à toa. Por exemplo, lançaram o iPod. A Sony lançou a digital reflex. Além disso, o governo já fica com 40 por cento. Então, não tem muito jeito de ser avaro hoje em dia. E aí a gente vai e provoca inflação. O melhor tratamento para Avareza é freqüentar restaurantes caros e manter um guarda-roupa fashion.

A Ira me preocupa. Sou muito irado, às vezes. Mas ando mais controlado. As pessoas me chamavam de Careca Hostil, de tão raivoso que eu era. Uma vez fizeram uma plaqueta, dessas de acrílico. Colocavam em cima da minha mesa e eu nem percebia. Estava escrito assim: Mala Raivoso. Um dia chegou uma pessoa, de repente, e mandaram falar comigo. Esqueceram de tirar a placa. A pessoa olhou para mim, olhou para a placa, virou e foi embora. Se eu estivesse no lugar dela, eu também teria ido. O tratamento para a Ira é igual ao da Gula, só que você tem que bater no guarda-roupa.

A minha Vaidade é um pouco desproposital. Sei que eu poderia ser mais modesto, mas isso simplesmente não me ocorre. Acho que vou arder muito no inferno por causa da minha Vaidade. E ainda vou ficar me gabando. Rá. Rá. Minhas chamas serão mais altas e flamejantes que as do Cabeça! O melhor tratamento para a Vaidade é entupir o guarda-roupa.

Preguiça todo mundo tem. Eu tenho, principalmente depois do almoço. Mas é só tirar um cochilo que passa. Meia hora. Depois eu estou novo. O melhor tratamento para a Preguiça é arrumar o guarda-roupa. Mas primeiro tem que esperar ele ficar muito, muito bagunçado.

E por último tem a Inveja. É o pior de todos os pecados, a Inveja. A minha então, nem se fala. Eu devo ter uma das maiores Invejas de todos os tempos. Dá até raiva de pensar nisso. E eu poderia até contar uma ou duas situações em que a minha Inveja bota pra quebrar, fazendo até strip-tease em cima de bolo de casamento, mas não vou dar esse gostinho pra ninguém. Não, senhor. O melhor tratamento para a Inveja é ter um closet. Maior do que o do Cabeça!

E eu pedi para uma grande amiga definir Inveja. Ela escreveu assim: “Inveja é uma falta sentida que você vê plenamente preenchida no outro. Aí você pensa: Como? Ele tem o que EU não tenho? Não vai ter não”!!!

Nunca vi uma pessoa entender tanto de pecado. Mais que padre. É genial, essa amiga.

Depois tentei imaginar uma cor para cada pecado. É difícil.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Matem o DJ

Foi o Maurício quem começou essa história. E dizem as más línguas que eu era o DJ que merecia ser morto. Pura maldade. Meu gosto musical é tão bom quanto o de qualquer um. O meu problema era encontrar o disco certo. Depois, o problema era encontrar o CD certo. E, em todas as ocasiões, onde é que eu tinha colocado as listas de músicas?
Lembro de fazer pesquisas extensas e profundas para elaborar as listas. Escutava rádio o tempo inteiro. Conversava com os caras das lojas de discos. Ficava parado, na frente das boates, em pesquisa aplicada de campo. E depois, num esforço intelectual, místico e retumbante, eu fazia nascer a lista de megahits arrasadores para a festa da semana. Três horas cronometradas, às vezes mais, de músicas perfeitamente organizadas para estimular uma gama variada de sentimentos nos seres humanos, inclusive com pausas para ir ao banheiro.
Sem falsa modéstia, minhas listas eram simplesmente perfeitas. Mas eu nunca as encontrava quando precisava. E depois, no final da festa, quando todos já estavam de porre e de agarração, e ninguém, a não ser o Maurício, se importava mais com a música, lá estava ela. A lista. Perfeita, pronta e acabada. A lista de músicas que eu havia preparado para tornar a festa um sucesso. A lista que iria me retirar do limbo dos DJs expostos à execração pública. A seqüência criteriosa e científica que faria as mulheres bonitas admirar a minha sensibilidade, ritmo e harmonia , além de provocar um avassalador desejo da minha carne. A fila de sucessos musicais delirantes que despertaria a inveja dos rapazes e demarcaria um território perfeito no coração das meninas. (Na frente desse território, em arial néon, estaria escrito em bom português: _Entre DJ. Pode fazer xixi de porta aberta)
A cabala musical que projetaria, sobre todos os dançantes e paredistas, meu conhecimento dos rankings da Billboard, das Dez Mais da Semana em NY, e dos SuperHits da Rolling Stones estaria na capa do álbum do Barão Vermelho. Eu a acharia uma semana depois da festa. O mantra de sucessos dançantes e hits descolados estaria grudado no fundo daquela minha calça jeans, transformado numa pequena massa de papel deformado. Eu a encontraria durante outra festa, no mês seguinte. A lista que eu nunca encontrava e cuja falta sempre provocava a minha substituição como DJ estaria alhures, ou bem à vista, naquele CD de versões de músicas do Roberto Carlos, que tem “È Proibido Fumar”, com o Skank. Eu vivia ouvindo, como é que não achei?
Lobão, Paula Toller, Blitz, Legião Urbana, Ira, Paralamas, estavam todos lá, na minha lista, na ordem correta para dançar, dançar colado, dançar com beijo e dançar separado. E como eu não achava a bendita lista, eu era obrigado a lembrar de cabeça e improvisar, alterando a química perfeita que eu havia arquitetado tão cientificamente. E nessa hora, o Maurício, sempre atento, mesmo de porre, vinha puxar o corinho.
_Matem o DJ! Matem o DJ! Matem o DJ!
E antes que a turba sedenta por sangue e descontrolada se lançasse sobre o meu pescoço eu largava a pick-up, ou saía de lado, deixando o tocador de CDs para outro aventureiro. Mais uma vez, o meu sonho intrépido de comandar corações, mentes e corpos por meio de músicas teria que ser adiado. Primeiro a discoteca, depois, o mundo...
Hoje em dia a rapaziada não tem esse grilo. Eu carreguei pilhas de discos para as festas. Depois, eram pilhas de Compact Discs. Hoje em dia, você carrega 40 horas de música num trequinho menor que um relógio de pulso. E tudo organizado em pastas previamente planejadas, na ordem exata, no tempo correto, na medida científica da emoção musical e do estímulo dançante. A rapaziada pode arriscar a ser DJ contando com o máximo em tecnologia e já com uma aura pré-projetada de profissionalismo. Dá até para pensar novamente em bancar o DJ nas festas. Mas só se o Maurício não for.

Frase do dia