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sexta-feira, 20 de junho de 2008

Amor em chamas



Os dois estão um pouco bravos comigo. Passei os últimos dez minutos falando com eles sobre a importância de cumprir horários. Será um pouco cedo explicar isso para um menino de cinco e uma menina de três anos? Não sei, com certeza. Mas uma hora eles terão que aprender. Então, eu prefiro que seja agora e que eu mesmo seja o professor.

Temos que sair de casa exatamente às sete horas e trinta minutos. Do contrário, pegaremos um trânsito tão lento que provocará um atraso de dez minutos no horário de entrada da escola alternativa. Então, para estabelecer a paz, eu pergunto se eles querem escutar música.

_Rock´n´roll! – eles gritam.

E eu procuro aquele disco especial que eu montei só com MP3.

_Queremos rock´n´roll! Queremos rock´n´roll! - eles estão impacientes.

E aí eu encontro o disco. Aproveito o sinal vermelho e, de olho no retrovisor, anuncio a plenos pulmões:


_Senhoras e senhores, agora, com vocês, o grande, o único, o inimitável, o fantástico e absolutamente magnífico REI DO ROCK´N´ROLL, ELVIIIIIIS PREEESLEEEYYY...

E enquanto “Burning Love” toca a todo volume e quase arrebenta os meus tímpanos e os dos meus belos filhos eu quase posso ver toda a animosidade se dissipando, fugindo pelas frestas do automóvel.

O tempo com os dois agora está bem reduzido. Essa é a parte desagradável de voltar a trabalhar fora de casa. Eles estão mais grudentos em mim, quando estou por perto. À noite, eles se revezam em ver quem desperta mais cuidados em mim. Não há empate absoluto, mas eu procuro equilibrar as atenções.

E quando acaba a música com o Rei, a minha princesinha pergunta:

_Pai, põe a Rainha do Rock´n´roll?
_Rainha? Er... só um instante.

Por sorte, eu estou com um CD da Joss Stone no carro.

_Senhoras e senhores, agora, com vocês, a grande, a única, a maravilhosa, a belíssima, a charmosa e absolutamente magnífica RAINHA DO BLUES, DA BALADA E DO ROCK´N´ROLL, JOOOOOOOOSSSSS STOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOONE!

E enquanto uma versão de “At Last” toca num volume bem agradável eu olho pelo retrovisor e vejo os dois de olhos fechados, acompanhando a melodia, embalados pela canção.

(Eles curtem muito MPB. Ela adora a música Três Letrinhas, da Marisa Monte. E ele vibra com todas do Tim Maia.)

quarta-feira, 28 de maio de 2008

The Beatles, Amy Winehouse e Jessie Baylin




Outro dia eu conversei com o Cabeça sobre os Beatles e os Rolling Stones. O Cabeça gosta da banda do Mick Jagger e Keith Richards. Eu também gosto, mas sempre ouvi mais The Beatles.

Os Beatles foram visitar Elvis Presley pela primeira e única vez no dia vinte e sete de agosto do ano em que eu nasci. O Rei do Rock disse ter ficado desorientado (“bewildered”) com as músicas do grupo depois de ouvir um único disco dos rapazes de Liverpool. Não consegui descobri que disco foi, mas é provável que tenha sido “Help”. Duas semanas antes da visita a Graceland, no dia catorze de agosto, os Beatles tinham gravado a famosa apresentação no Ed Sullivan Show, aquela que virou um filme do Spielberg. Os Beatles tocaram "I Feel Fine", "I'm Down", "Act Naturally", "Ticket to Ride", "Yesterday" e "Help!".

Quando eu ouvia os Beatles, ainda menino de tudo, eu queria ter sido o Paul. Um pouco mais tarde, quando os Beatles já havia se separado, eu queria ter sido o John. Fiquei querendo ser o John um bom tempo. Eu achava que Ringo era nome de cachorro, por isso não quis ser o baterista. E o George, pô, o George não falava nada, só ficava ali atrás, rindo com modéstia. Nem dava para notar direito. E quando eu saquei qual era a do George, eu já era o velho que sou, não dava mais para brincar de ser um Beatle.

Desde os Beatles, quando eu escuto um cara cantando eu sempre faço uma tentativa de identificação, tento trocar de lugar no palco com o sujeito. É lógico que não é de verdade. Não canto nem debaixo do chuveiro. Se eu faço isso os vizinhos reclamam. Toco só uma campainha básica.

Mas com as cantoras não rola um processo de identificação. Cantora é fisgada pura e simples. É ame ou deixe de lado.

Uma vez, ou duas, eu escrevi aqui sobre a Amy Winehouse. Eu não disse antes, mas a voz daquela mulher me faz pensar coisas trágicas. Parece que está abrindo o peito e apertando o coração dela. E da gente. Ela estimula pensamentos grandiosos e tristes, gestos de grandeza. Renúncias magistrais. Suicídio por solidariedade. Coisas assim, profanas e profundas, lógicas e absurdas.

Ela é bem sereia, a Amy Winehouse. Ela prende você com a voz e faz você sentir o que ela diz que está sentindo. Você ali, feito marinheiro argonauta, flutua na melodia. Ela vai jogar você no chão e nas paredes, provocar lágrimas e sorrisos, deixar você exausto de emoções. E depois ela vai te abandonar.

Ela parece cantar exatamente do jeito que vive, uma vida dilacerada, de amores desesperados.

E eu gosto de cantoras assim. Eu gosto das divas que parecem viver de um jeito tão intenso que mexem com a gente. Gosto das estrelas que arriscam trajetórias esquisitas, como se fossem mariposas mais afoitas e brilhantes voando na direção da lâmpada.

Poucas cantoras mexem com os sentimentos de multidões de uma maneira tão intensa. Poucas se deixam enterrar vivas, se deixam consumir à vista de todos. Pouquíssimas têm essa capacidade de deixar a pele da gente arrepiada com uma frase, com uma sílaba estendida. E a Amy Winehouse tem isso. É uma super cantora. Ganhou um monte de prêmios e a trilha sonora do novo James Bond por causa disso. Agora parece que desistiu da trilha do James Bond. Uma pena.

E aí eu escutei essa moça, Jessie Baylin. Coloquei umas três músicas dela aí na Rádio Careca. A melhor dela chama "The Glitter", que eu não consegui colocar no radinho.

Ela canta música country, que não é um gênero que eu curto muito. Ela tem pouco mais de vinte anos, é linda e faz bico em todas as fotos que eu vi. Tem uma voz muito gostosa. E transmite uma vontade de tomar conta dela bem interessante.

Tem uma rouquidão de cigarro na beirada da voz, quase lá no fundo. Tem uma dicção excelente, que deixa você entender a letra da música mesmo que você só saiba dizer “hello, goodbye”. Escute aí e depois me diga o que achou.

Frase do dia