sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
Pais e Filhos
_Mãe, eu estava pensando... - disse a minha filha, na hora do jantar.
_Ixi, aí vem pergunta difícil - eu pensei, diminuindo o ritmo das mastigadas para não perder nada.
_Pode falar - disse a minha mulher.
_Será que você não teria outros filhos? - ela disse.
_Como assim? Você quer ter mais irmãos? - disse a minha mulher.
_Isso talvez. Mas eu queria saber se você não teve outros filhos antes da gente, sem ser com o papai.
_Epa! - eu disse.
_Não, não. Eu não tive. Você e seu irmão sãos os meus dois únicos filhos - disse a minha mulher.
_E você, paiê?
_Mesma coisa.
_Tem certeza, paiê?
_Tenho. Mas por quê essas perguntas? Andou vendo novela?
_Não, paiê, é que a família da gente é muito sem-graça. Eu tenho uma porção de amigas com um monte de irmãos de pais e mães diferentes. Por quê a gente não é assim?
_Não sei, filha. Eu juro que estamos tentando fazer tudo certinho.
_Ixi, aí vem pergunta difícil - eu pensei, diminuindo o ritmo das mastigadas para não perder nada.
_Pode falar - disse a minha mulher.
_Será que você não teria outros filhos? - ela disse.
_Como assim? Você quer ter mais irmãos? - disse a minha mulher.
_Isso talvez. Mas eu queria saber se você não teve outros filhos antes da gente, sem ser com o papai.
_Epa! - eu disse.
_Não, não. Eu não tive. Você e seu irmão sãos os meus dois únicos filhos - disse a minha mulher.
_E você, paiê?
_Mesma coisa.
_Tem certeza, paiê?
_Tenho. Mas por quê essas perguntas? Andou vendo novela?
_Não, paiê, é que a família da gente é muito sem-graça. Eu tenho uma porção de amigas com um monte de irmãos de pais e mães diferentes. Por quê a gente não é assim?
_Não sei, filha. Eu juro que estamos tentando fazer tudo certinho.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Mala ou mochila
No primeiro dia de aula, a mochila do meu filho arrebentou uma roda de vez.
_Putz, e o mecânico disse que ainda aguentava uns dois meses - disse a minha mulher.
_Eu sei, eu sei, foi uma avaliação superficial, e eu achei que as calçadas e vias públicas estariam em melhores condições. Sem mencionar o peso. Eles aprovaram uma lei que proíbe excesso de peso nas mochilas escolares, mas parece que ainda não pegou. Então, somadas as péssimas condições de infra-estrutura, o domínio chinês do mercado de bolsas e mochilas escolares, a falta de fiscalização e a precariedade sistêmica, fui induzido ao erro. Ao invés de dois meses, a mochila só aguentou um dia - eu disse.
_Pô, Careca, só faltou botar a culpa no FHC - ela disse.
_Rá, rá. Eu acho que o melhor será usar aquela malinha pequena, de viagem, até que a alta temporada de preços de mochila passe e as ofertas comecem a aparecer - eu disse. Não há nenhum exagero nisso. Uma mochila custa de 30 a trocentos mangos, mas se ela possui rodinhas, o preço salta para algo próximo a uma cópia de bolsa Hermés ou Victor Hugo.
_Malinha? Não, senhor, todo mundo vai zoar o menino. E as promoções só começam em abril, não vai dar para esperar muito tempo.
_Vai por mim, vi um monte de meninos e meninas com malas ao invés de mochilas na escola. Ninguém vai reparar - eu disse.
Mas eu nem sempre acerto. Os outros meninos repararam e zoaram pacas.
_Foi duro, pai, toda hora alguém perguntava para onde eu estava indo.
_E o que você dizia?
_Posso falar?
_Não, pode deixar. Eu pensei que você e os colegas iriam curtir. Essa malinha é menor que uma mochila, tem rodas de poliuretano, cabo telescópico e cadeado embutido. É samsonite. Fiz um monte de viagens com ela.
_Pois é, os caras disseram que é bem velhinha - disse meu filho.
_Está zero bala! Viajei mais de 10 mil quilômetros com essa mala e ela está novinha! - eu disse.
_Tudo bem, pai. Eu vou com a mochila sem rodinhas - ele disse.
_São mais de quatro quilos. Vai ficar com a coluna torta e nem a mochila vai aguentar - eu disse.
Felizmente um dos primos emprestou uma mochila usada e em perfeito estado.
_Putz, e o mecânico disse que ainda aguentava uns dois meses - disse a minha mulher.
_Eu sei, eu sei, foi uma avaliação superficial, e eu achei que as calçadas e vias públicas estariam em melhores condições. Sem mencionar o peso. Eles aprovaram uma lei que proíbe excesso de peso nas mochilas escolares, mas parece que ainda não pegou. Então, somadas as péssimas condições de infra-estrutura, o domínio chinês do mercado de bolsas e mochilas escolares, a falta de fiscalização e a precariedade sistêmica, fui induzido ao erro. Ao invés de dois meses, a mochila só aguentou um dia - eu disse.
_Pô, Careca, só faltou botar a culpa no FHC - ela disse.
_Rá, rá. Eu acho que o melhor será usar aquela malinha pequena, de viagem, até que a alta temporada de preços de mochila passe e as ofertas comecem a aparecer - eu disse. Não há nenhum exagero nisso. Uma mochila custa de 30 a trocentos mangos, mas se ela possui rodinhas, o preço salta para algo próximo a uma cópia de bolsa Hermés ou Victor Hugo.
_Malinha? Não, senhor, todo mundo vai zoar o menino. E as promoções só começam em abril, não vai dar para esperar muito tempo.
_Vai por mim, vi um monte de meninos e meninas com malas ao invés de mochilas na escola. Ninguém vai reparar - eu disse.
Mas eu nem sempre acerto. Os outros meninos repararam e zoaram pacas.
_Foi duro, pai, toda hora alguém perguntava para onde eu estava indo.
_E o que você dizia?
_Posso falar?
_Não, pode deixar. Eu pensei que você e os colegas iriam curtir. Essa malinha é menor que uma mochila, tem rodas de poliuretano, cabo telescópico e cadeado embutido. É samsonite. Fiz um monte de viagens com ela.
_Pois é, os caras disseram que é bem velhinha - disse meu filho.
_Está zero bala! Viajei mais de 10 mil quilômetros com essa mala e ela está novinha! - eu disse.
_Tudo bem, pai. Eu vou com a mochila sem rodinhas - ele disse.
_São mais de quatro quilos. Vai ficar com a coluna torta e nem a mochila vai aguentar - eu disse.
Felizmente um dos primos emprestou uma mochila usada e em perfeito estado.
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Sex shop em São Paulo
A pergunta parece ter surgido naturalmente, no meio de uma conversa sobre uma ida ao Aquário da cidade. Mas reconheci uma leve hesitação na voz, o que me deu a certeza imediata de que minha filha de nove anos de idade havia ensaiado a questão várias vezes antes de reunir coragem para dizê-la em voz alta. Ou talvez estivéssemos passando pela Rua Augusta, onde existe uma loja dessas bem na esquina.
_Mãe, o que é sex shop? - disse a minha filha.
_É uma loja onde as pessoas compram produtos para fazer sexo - respondeu a minha mulher, de bate-pronto.
_Viu? Eu não falei? Quem mandou você perguntar! - disse o meu filho.
_Ué, mas ela fez bem em perguntar. Quando a gente não sabe uma coisa, não tem problema nenhum perguntar - eu disse.
_Acontece que ela já sabia a resposta - disse o meu filho.
_E o que tem dentro da loja? - continuou a menina.
Eu fiz uma recapitulação mental do que eu me lembrava de ter visto na única visita que fiz a uma sex-shop, há algumas décadas. Vi engenhocas do arco da velha, o que inclui uma coisa que parecia uma lanterna maglite para seis pilhas das grandes. O que eu responderia?
_Ah, tem cremes para massagens, perfumes, e um monte de coisas para deixar as pessoas mais confortáveis e... bonitas para fazer sexo com quem amam - disse a minha mulher.
Putz, putz, putz! Eu pensei, em ritmo de discoteca. Ainda bem que eu não precisei responder essa. Eu tenho certeza de me embolaria todo e acabaria mencionando lanternas maglite, pilhas grandes, chicotes e algemas.
_Pai, você já comprou alguma coisa numa sex-shop? - disse a minha filha.
Putz, putz, putz! Não escapei. Oh, oh, oh, não mencione lanternas, nem pilhas, nem chicotes e nem algemas...
_E então, pai? Já comprou alguma coisa? - disse o meu filho.
_Estou tentando me lembrar. Acho que não.
_Não? - disse a minha mulher.
E isso me deixou surpreso, portanto fiz uma nova busca mental acelerando o search ao máximo e aí, tchans, lembrei na hora que eu efetivamente havia comprado uma única coisa naquele sex-shop que eu e minha mulher visitamos, há tantos anos.
_Não. Quer dizer, sim.
_O quê? O quê? - disseram as crianças.
_Chiclete - eu disse, triunfante, para decepção das crianças.
_Chiclete de morango - disse a minha mulher, com aquele sorriso no canto da boca que só eu sei o que significa.
E isso deixou as crianças quietas por algum tempo. Mas não muito.
_Pai, podemos comprar chiclete no sex-shop? - disse a minha filha.
_Não! - eu disse, encerrando a conversa definitivamente.
_Mãe, o que é sex shop? - disse a minha filha.
_É uma loja onde as pessoas compram produtos para fazer sexo - respondeu a minha mulher, de bate-pronto.
_Viu? Eu não falei? Quem mandou você perguntar! - disse o meu filho.
_Ué, mas ela fez bem em perguntar. Quando a gente não sabe uma coisa, não tem problema nenhum perguntar - eu disse.
_Acontece que ela já sabia a resposta - disse o meu filho.
_E o que tem dentro da loja? - continuou a menina.
Eu fiz uma recapitulação mental do que eu me lembrava de ter visto na única visita que fiz a uma sex-shop, há algumas décadas. Vi engenhocas do arco da velha, o que inclui uma coisa que parecia uma lanterna maglite para seis pilhas das grandes. O que eu responderia?
_Ah, tem cremes para massagens, perfumes, e um monte de coisas para deixar as pessoas mais confortáveis e... bonitas para fazer sexo com quem amam - disse a minha mulher.
Putz, putz, putz! Eu pensei, em ritmo de discoteca. Ainda bem que eu não precisei responder essa. Eu tenho certeza de me embolaria todo e acabaria mencionando lanternas maglite, pilhas grandes, chicotes e algemas.
_Pai, você já comprou alguma coisa numa sex-shop? - disse a minha filha.
Putz, putz, putz! Não escapei. Oh, oh, oh, não mencione lanternas, nem pilhas, nem chicotes e nem algemas...
_E então, pai? Já comprou alguma coisa? - disse o meu filho.
_Estou tentando me lembrar. Acho que não.
_Não? - disse a minha mulher.
E isso me deixou surpreso, portanto fiz uma nova busca mental acelerando o search ao máximo e aí, tchans, lembrei na hora que eu efetivamente havia comprado uma única coisa naquele sex-shop que eu e minha mulher visitamos, há tantos anos.
_Não. Quer dizer, sim.
_O quê? O quê? - disseram as crianças.
_Chiclete - eu disse, triunfante, para decepção das crianças.
_Chiclete de morango - disse a minha mulher, com aquele sorriso no canto da boca que só eu sei o que significa.
E isso deixou as crianças quietas por algum tempo. Mas não muito.
_Pai, podemos comprar chiclete no sex-shop? - disse a minha filha.
_Não! - eu disse, encerrando a conversa definitivamente.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
As aulas recomeçaram
Acabou a mamata. Ao invés de percursos rápidos de dois minutos e meio, as rotinas da manhã agora passarão a ser de corridas de 35 minutos até a parte sul da cidade, onde agora meu filho mais velho está matriculado. Sim, resistimos o máximo que foi possível, mas a escola nem tão alternativa começou a se revelar pouco desafiadora o que mais tarde pode vir a significar também uma desvantagem competitiva. Achamos que o menino estava aprendendo pouco e questionando muito. As perguntas tinham muito pouco a ver com curiosidade e aprendizado e muito a ver com teimosia, rebeldia e mera vontade de confrontar qualquer imposição de regras. A troca de escola exigiu um elaborado roteiro de conversação e convencimento desenvolvido pela minha mulher. Posso dizer com tranquilidade que ela convenceu a mim e ao menino com facilidade. Tenho certeza de que ficaríamos milionários se o método fosse comercializado.
Antes de mudar de escola fizemos uma análise detalhada dos prós e contras da mudança, inclusive do esforço logístico. Também colocamos na ponta do lápis o aumento de despesas com transporte e alimentação. Com a nova escola, não será possível almoçar juntos todos os dias da semana, o que é profundamente lamentável. Vamos ter que fazer desse limão uma limonada e aproveitar ao máximo os três dias de refeições unidos que restaram durante a semana.
Mudar de escola é uma coisa impensável para meninos de dez anos. Mas não são sequer cogitados por meninas de nove. Por isso, decidimos que ainda não é hora de mudar nossa princesa. Ela está com uma turminha bacana há quatro anos e ainda não é chegada a hora. De qualquer forma, deixamos estabelecido que essa situação não é definitiva e que podemos voltar atrás se tudo piorar muito.
Entretanto, a julgar pelos sorrisos e grande entusiasmo demonstrado por ambos quando voltaram da escola, creio que acertamos.
Antes de mudar de escola fizemos uma análise detalhada dos prós e contras da mudança, inclusive do esforço logístico. Também colocamos na ponta do lápis o aumento de despesas com transporte e alimentação. Com a nova escola, não será possível almoçar juntos todos os dias da semana, o que é profundamente lamentável. Vamos ter que fazer desse limão uma limonada e aproveitar ao máximo os três dias de refeições unidos que restaram durante a semana.
Mudar de escola é uma coisa impensável para meninos de dez anos. Mas não são sequer cogitados por meninas de nove. Por isso, decidimos que ainda não é hora de mudar nossa princesa. Ela está com uma turminha bacana há quatro anos e ainda não é chegada a hora. De qualquer forma, deixamos estabelecido que essa situação não é definitiva e que podemos voltar atrás se tudo piorar muito.
Entretanto, a julgar pelos sorrisos e grande entusiasmo demonstrado por ambos quando voltaram da escola, creio que acertamos.
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