quinta-feira, 30 de maio de 2013
Imersão e suspensão
Latasha Lee & The BlackTies-Stand By Your Man
Fiquei impressionado com o Hans Roling e suas estatísticas visualmente encantadoras. Pessoas que conseguem transformar assuntos penosos e intrinsecamente chatos em temas empolgantes e envolventes sempre me despertaram interesse. Helmann Melville, com Moby Dick, foi um dos que conseguiram fazer isso com maestria. O grande escritor recheia o livro de detalhes técnicos sobre a navegação marítima e a caça às baleias, mas mesmo assim você não desgruda da trama. É possível citar outros? Euclides da Cunha, com Os Sertões. Truman Capote, com A sangue frio. Tom Wolfe com todos os seus livros, em especial Os Eleitos(os astronautas e a corrida espacial) e A Palavra Pintada(a loucura da arte moderna nos EUA). Todos eles conseguem passar informação em meio à ação que descrevem ou romanceiam. É também o que me atrai no teatro, na pintura, na música e no cinema: cenas que dizem milhares de palavras em poucos segundos. O efeito disso é uma sensação de imersão e suspensão ao mesmo, um encantamento que nos maravilha e paralisa.
Estamos novamente em um novo momento de transição de meios e adaptação de mensagens. Assim como aconteceu no início do cinema, do rádio, da tv e da internet, quando todos os conceitos de assemblage/montagem foram criados e submetidos a teste, quando os programas de rádio levaram o pânico(A Guerra dos Mundos) ou a euforia da notícia do fim da II Guerra para milhões de pessoas, quando os programas de auditório e as novelas nos hipnotizaram nas poltronas, quando a interatividade começou a engatinhar, agora é a vez de alguma coisa que tenha tudo ao mesmo tempo agora nos deixe embasbacados. Estamos nos aproximando da era da manipulação total da informação, onde será possível agregar e manipular grandes quantidades de dados em qualquer mídia e agregá-la e organizá-la de forma atraente e interessante, instantaneamente.
Era nisso que eu estava pensando quando o guarda na enorme fila para entrar no banco me estendeu um papelzinho com o número da minha senha.
_Por quê está tão cheio? - perguntou uma moça, atrás de mim.
_É o feriado. E também tem o ENEM, hoje é o último dia para a inscrição - ajudou alguém.
Duas horas depois, ainda dentro do banco, descobri que não conseguiria jamais retomar o otimismo com relação à tecnologia. O próximo passo, dizem, é ficar imune a qualquer expectativa, boa ou ruim.
terça-feira, 28 de maio de 2013
Hans Rosling
Queens of The Stone Age - I Sat By The Ocean
Hans Rosling encabeça a lista dos 13 palestrantes do TED preferidos por Bill Gates. O cara é mesmo um craque da estatística. E graças ao seu entusiasmo e a capacidade de enfrentar mitos, conseguiu organizar e disponibilizar um enorme banco de dados de dezenas de países do mundo. Suas apresentações são de cair o queixo pela sua agilidade, dinamismo e capacidade de síntese. As informações são agregadas a uma ferramenta de animação de gráficos, que permite enriquecer uma apresentação mostrando, por exemplo, a relação entre área plantada, PIB, emissão de carbono e mortalidade infantil nos diferentes países e em todos eles juntos. Qualquer pessoa vira um fã de estatística ao ver suas sensacionais apresentações. Confira no You Tube e no TED. Ah, e se você quiser inventar uma aula bem dinâmica, não deixe de usar o site que ele criou e as ferramentas disponibilizadas no Gapminder.
segunda-feira, 27 de maio de 2013
O kit Niemeyyer e a ciclovia na esplanada
Moby - Go
Fiquei sabendo pelo meu amigo Mário que o governo do Distrito Federal começou a construir feito mineirinho come quieto uma ciclovia nos gramados da Esplanada dos Ministérios. De repente, com a agilidade que lhe falta para arrumar hospitais, escolas e as pistas já existentes, o governo local providenciou o início e meio das obras, rapidamente. Assim como a rápida demolição do antigo Estádio Mané Garrincha, os nosso briosos administradores fizeram como sempre fazem, mandam quebrar tudo logo de cara que é para não ter como refazer o já desfeito. No caso, trataram logo de escavar os buracos de pistas e as covas para as mudas. Além da sinuosa pista de cimento, o projeto desenvolvido inclui a plantação de algumas dezenas de árvores que poderão chegar a trinta metros. Arquitetos cheios de argumentos e defensores do projeto arquitetônico original fizeram críticas ácidas à iniciativa, conforme pode ser visto em vídeo da Folha no YouTube.
Como é habitual, nossos governantes acham que sabem tudo e não combinaram nada com ninguém que não fosse da patota. O projeto pulou de uma gaveta e virou realidade num instante, sem discussão com a população. E isso deve ser questionado. O povo precisa ser ouvido sempre e hoje em dia, convenhamos, é bem simples fazer uma consulta popular.
Pessoalmente, acho que os espaços de lazer de Brasília são escassos e extremamente mal estruturados. Recomendo a todos os visitantes da capital que sejam precavidos e tragam água, sombrinha, cadeira dobrável e uma matula ao fazer o circuito de monumentos. Esses são os quatro componentes básicos do kit-Niemeyer. Sim, você não encontra água, o sol é de rachar, não há lugar para descanso e inexistem estabelecimentos para beliscar nada na Esplanada durante os finais de semana. Com sorte, haverá ambulantes cobrando preços escorchantes por uma pipoquinha amanhecida. Durante a semana será preciso apresentar identidade para ultrapassar uma roleta de um ministério qualquer e descolar um refri ou um salgadinho numa biboca no térreo ou no subsolo. Em qualquer dia, se precisar ir ao banheiro, chame um táxi e corra para o Conjunto Nacional. Os banheiros de acesso público na Esplanada são quase inacessíveis ou estarão fora de ordem. É constrangedor. Já vi brigas na Catedral por causa disso. Para um passeio noturno na capital será preciso acrescentar lanterna e casaco e deixar separada uma grana para o sujeito que vai olhar o seu carro.
O projeto da ciclovia arborizada na Esplanada promete aliviar, daqui a alguns anos, o problema da falta de sombra. Mas todos os outros permanecem e permanecerão. A cidade não possui apenas uma arquitetura peculiar. Ela nasceu da imposição de uma vontade, do sonho e capricho de um homem que soube contagiar multidões no seu tempo e congregar milhares e milhares de vontades. A renúncia de Jânio e o regime militar não destruíram apenas o regime democrático no país: sufocaram liberdades e fizeram com que Brasília fosse durante longo período menos que uma cidade, uma estadia funcional. Com o fim do regime e a possibilidade de uma representação política para os moradores da capital, a existência de uma câmara legislativa foi saudada como a reconquista da cidade pelos que as construíram e pelos que aqui cresceram e a amam. Os moradores daqui, no entanto, vêm sendo sucessivamente traídos e vilipendiados pela maioria dos seus representantes. Ainda hoje Brasília é moldada ao quase exclusivo bel prazer dos que detêm poder, que parecem se preocupar cada vez menos em respeitar os direitos e a vontade dos moradores. Ou pior, o descaso e o arbítrio é que tomam conta da cidade. E o descaso é bem penoso de se ver, com as dezenas e dezenas de quadras de esporte aos cacarecos nas entrequadras do Plano Piloto, na velha ciclovia e nas cidades satélites, como o Guará.
Com a ciclovia pronta, certamente irei conhecer, levar as crianças para uma volta de bicicleta, um passeio de skate. A cidade precisa de espaços de convivência agradáveis, limpos, com lugar para sentar, banheiro, sombra, água, um café, caramba! Por precaução, levarei também o kit-Niemeyer.
domingo, 26 de maio de 2013
Estepes
Curb Your Enthusiasm - Tyre Scene
Uma vez eu, a Maira, o Cabeça e a minha mulher estávamos passeando em Recife, no carro da irmã do Cabeça. Era noite, ainda não existia GPS, o celular era uma tecnologia em ascendência entre ricos esnobes, e o Cabeça não acreditava em mapas. Ele confiava na memória. Não me lembro onde estávamos indo, mas obviamente não conseguimos chegar lá. Era uma pista esburacada e o Cabeça caprichou no volante, só deixou escapar uns poucos buraquinhos de nada. É claro que o pneu furou. Ficamos dez minutos procurando o estepe. Quando o encontramos, não conseguimos sequer tirá-lo de onde estava, que era uma espécie de nicho sob o bagageiro. O jeito foi chamar um sujeito que trabalhava num posto, que ficava não muito longe. Uma hora depois demos risada da história. Depois ficamos sabendo que aquele era um dos bairros mais perigosos do Recife.
sábado, 25 de maio de 2013
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