terça-feira, 30 de abril de 2013
segunda-feira, 29 de abril de 2013
O futuro como antigamente
Jessica Pare Mad Men - Zou bisou bisou
Fomos assistir Oblivion, filme de ficção científica estrelado pelo Tom Cruise. Minha mulher tinha preferido um outro filme, sobre um jogador de futebol que se apaixona.
_O quê? Você quer que eu assista a um filme sobre um jogador de futebol que se apaixona? Mas nem amarrado eu saio de casa pra ver isso! Como se chama? O romance do jogador de futebol americano? Amei uma bola? Rá,rá! Não senhora, vamos ver um filmaço de ficção científica, cheio de efeitos especiais, um filme que custou o PIB de um país do Caribe só em ambientação e figurinos, nem os mensaleiros conseguiram roubar tanto dinheiro! É esse que eu quero ver.
_Ficção científica é muito chato - disse a minha mulher.
_Esses filmes futuristas são sempre uma projeção do presente. E eles também inspiram as pessoas a comprar um monte de badulaques. Parecem comerciais de Marlboro em Portugal, nunca se venderam tantos cavalos.
_Vamos ter de tirar no par ou impar - ela disse.
Eu ganhei. Tive que trapacear, é verdade. Mas ela não percebeu. Ou percebeu e deixou pra lá. Chegamos um pouco em cima da hora, tinha uma longa fila para a pipoca, mas conseguimos bons lugares. Fazia tempo que não ia a filme tão lotado. Vimos alguns treilers, inclusive aquele que conta a história do Renato Russo.
_Será que ele sabia que seria tão famoso? - disse a minha mulher, bem baixinho.
_Acho que sim. Acho que ele se achava predestinado a ser grande. Todas as músicas dele são meio pomposas, não é mesmo? Mesmo assim eu gosto muito - eu disse.
Começa o filme com o Tom Cruise e daí a pouco minha mulher me dá uma cotovelada.
_Essa não! - ela disse.
_O que foi? O que foi?
_Eles estão em 2077 e é tudo anos 60, o homem vai trabalhar fora, a mulher é que faz o jantar - ela disse.
_É mesmo - eu disse.
E acabei ficando o resto do filme pescando os clichês. Estavam lá, todos eles. No final, tive que reconhecer que saí de casa para ver o filme do romance do astronauta.
_Mas os efeitos especiais também foram superlegais - eu disse, puxando brasa para minha sardinha.
_É, mas aquele parecia o avião do Sportacus- disse minha mulher.
_Quem é Sportacus?
_Aquele atleta do bigodinho de Lazy Town.
_Putz! É mesmo!
_E o ET? Pô, parece o olho vermelho do HAL, do filme do Kubrick.
_É, é igualzinho ao computador de 2001, uma odisséia...
_E aquela piscina espacial? Onde foi que apareceu uma piscina com fundo de vidro? Vai me dizer que você gostou da motoca elétrica? E o vôo a toda velocidade no cânion? Igualzinho a Guerra nas Estrelas? Sentiu a força? E aqueles óculos escuros? Credo! O Tom Cruise não usava desde Top Gun, achei que o Charlie Sheen ia aparecer também...
domingo, 28 de abril de 2013
sábado, 27 de abril de 2013
sexta-feira, 26 de abril de 2013
O filtro
Fun - We Are Young (Acoustic)
“Por que lembrar um detalhe como esse agora? Não há razão, nenhuma razão em que ele possa pensar, a não ser o fato de que razão e memória estão quase sempre em conflito(...)”(Paul Auster, Sunset Park, pág. 142, Cia das Letras, 2012)
Os telefonemas comerciais costumam nos encontrar em momentos bem inadequados. Os exemplos são inúmeros, um amigo meu na Bahia tentava se proteger de um tiroteio quando o celular tocou. Era uma promoção imperdível de um campeão de audiência. Agachado atrás de um fiat 1998, vermelho, ele recusou educadamente, com medo de uma bala perdida. Quem nunca foi interrompido no meio de uma discussão por uma tentadora oferta de proteção anti-vírus da sua provedora favorita de internet? Quem nunca parou o bife à parmegiana na metade para recusar o pedido daquela legião de benfeitores? E, não poderia faltar, quem nunca perdeu as estribeiras com a mulher do filtro de água?
_Mas o seu filtro está vencido, meu senhor!
_Não, não, ele está perfeito.
_Mas aqui diz que o senhor comprou o filtro já tem mais de oito meses. Depois de seis meses os fungos começam a aparecer...
_Não tem fungo nenhum na minha água!
_O senhor vai colocar a vida da sua família em risco? Vai?
_O quêê?
_Nunca ouviu falar de bactérias? Germes?
_A senhora é uma terrorista! Eu não quero comprar filtro! Aliás, eu quero muito comprar filtro, mas jamais vou entrar na sua loja! Hoje mesmo vou comprar dois filtros e passar aí na sua lojinha e mostrar pro seu gerente que eu não comprei os filtros aí por sua causa, e que eu nunca, nunca, nunca na minha vida vou comprar filtros nessa loja, nem eu nem meus amigos, vizinhos e parentes... alô...desligou.
_Nossa, benhê, fosse quem fosse, não precisava berrar assim.
_Era a mulher do filtro.
_Ah, bom, essa eu também não aguento. Na semana passada ela disse que nossa água devia estar cheia de giárdias e nematóides.
_Putz!
_E eu pedi para que ela apagasse o meu nome do registro.
_Ela deve ter apagado o seu nome, mas não o meu.
_Eles nunca vão apagar seu nome porque você já caiu nessa conversa.
_Eeuu?]
_É, você, sim, senhor. Assim que a gente se mudou para o velho apê.
_Mas isso já faz muito tempo.
_Eles têm seu nome no computador. Deve ter uma marquinha de "VAI QUE COLA" no seu nome.
_Pô, também não precisa esculhambar, amor.
_Vai ver é uma cor. Os caras que compram são marcados em laranja na planilha. Eles ligam três vezes por semana até você se distrair e comprar.
_Comigo não vai funcionar de novo.
_Ou então eles fazem isso com todos os homens. A grande maioria é marido distraído, que cai logo na conversa da vendedora. Homem é tudo meio bobo com as coisas de casa.
Ela continuou falando mas deixei de prestar atenção. Eu estava de olho no copo, olhando na contra-luz, com cuidado, só pra ter certeza de que não veria um bichinho qualquer vibrando um cílio ou botando o probóscito pra fora.
_Benhê, benhê, é pra você.
Era um cara oferecendo cartão de crédito.
Assinar:
Postagens (Atom)