quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Poemas prediletos
The Cat Empire - Nothing
Dizem que todo mundo tem um. O meu poema predileto de Drummond é Conclusão.
CONCLUSÃO
Os impactos de amor não são poesia
(tentaram ser: aspiração noturna).
A memória infantil e o outono pobre
vazam no verso de nossa urna diurna.
Que é poesia, o belo? Não é poesia,
e o que não é poesia não tem fala.
Nem o mistério em si nem velhos nomes
poesia são: coxa, fúria, cabala.
Então, desanimamos. Adeus, tudo!
A mala pronta, o corpo desprendido,
resta a alegria de estar só, e mudo.
De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?
Carlos Drummond de Andrade in Fazendeiro do Ar.
Reunião: 10 Livros de Poesia. RJ: José Olympio, 1969
O meu poema predileto de Fernando Pessoa às vezes é chamado de Poema em Linha Reta.
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Quem contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?
Então só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterônimo de Fernando Pessoa
terça-feira, 30 de outubro de 2012
IPAD no feriado
THE FEARLESS VAMPIRE KILLERS - LOADED GUN
Retomei somente hoje o trabalho com a mesa de apoio. Foi necessário lixar muita madeira, então passei a manhã usando máscara e avental. O calor estava horrendo, só foi chover no início da noite. Eu e meu irmão ficamos admirados com a cor da lua, estava vermelha como eu nunca havia visto. Mas num instante, logo depois da chuva rápida, o calor voltou com força total. Agora é como se vivesse a minha vida em banho-maria.
Amanhã, depois de um mês e um furo na mão esquerda, devo concluir esse projeto. É bem verdade que também fiz um pequeno armário sobre rodas, que revesti de estacas de massaranduba. Essa madeira havia sobrado da mesa que fiz para minha mãe. O quintal voltou a ser verde, a jabuticabeira está florida, mas estou sentindo falta das abelhas. No ano passado, elas enxameavam em volta da jabuticabeira. Sem elas, não teremos muitos frutos.
As crianças economizaram bastante e conseguiram comprar um IPAD 2G, com 64 GB, que chegou hoje dos EUA. Estamos decidindo como faremos a entrega do aparelho. É um equipamento poderoso, que custou aos dois um ano inteiro de pequenos sacrifícios de passeios, doces, brinquedos e cinema, além do dinheiro que ganharam dos tios e avós nos aniversários. Decidimos entregar o IPAD no feriado, até lá vamos ter que bolar uma disciplina para evitar disputas. Montei uma pequena rede em casa, para os laptops e games, talvez incremente a interação entre aparelhos e PCs com o uso do IPAD.
Lembro de ver na casa de um amigo uma rede bem interessante, com celular, TV e som integrados ao IPAD e ao ITunes. Fiquei deslumbrado com o cardápio audiovisual que era possível manipular e exibir rapidamente em um aparelho ou outro. Estou longe de ser capaz de montar uma rede tão interativa, mas é sempre possível tentar. Ainda não me adaptei ao horário de verão, às onze da noite os olhos começam a lacrimejar de sono.
Entre os novos projetos, acho que está na hora de começar a grande estante do escritório. A melhor pedida é fazer por módulos, utilizando pranchas de eucalipto mais grossas. Na parede ao lado do computador que uso, existe um pequeno beiral de 15 cm de largura que servirá de apoio para a primeira fila de módulos, cada um com oitenta centímetros de comprimento. Mas o essencial é fazer o primeiro, usando primeiro um verniz cor de mel e depois um mais escuro se for o caso.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Encontraram meu IPOD
HARRY - MY BORING LIFE
Depois de me assistir a revirar metade da casa atrás do meu IPOD, minha mulher ficou com pena e também tratou de procurar. Hoje de manhã, quando já havia desistido e lançava o IPOD na lista de Perdidos Para Semperê, ela surgiu triunfante com o IPOD na mão.
_Nossa! Nossa! Que bom, que bom, que bom. Eu já tinha entregado os pontos, reconhecido minha derrota depois de revirar a casa inteira duas vezes. Que bom que você encontrou! Só por curiosidade, onde é que estava?
_Não vou dizer.
_Ah, deixa disso. Desde a viagem a Uberlândia eu tenho revirado a casa inteira. Procurei dentro do carro, olhei atrás das estantes e dos armários, tirei até os colchões das camas das crianças para olhar por baixo. Pra você ter uma idéia, eu olhei até o armário da bagunça.
_Não acredito. Eu nem abro aquele armário que pode cair alguma coisa na minha cabeça.
_Caiu na minha, acredite. Quase fui soterrado por uma sacola cheia de contas velhas e antigas declarações de renda.
_Machucou?
_Agora está tudo bem. Mas me diga, onde você encontrou o IPOD?
_Não posso.
_Eu olhei até no fundo do armário do banheiro, acho que não deixei nenhum lugar de lado.
_Deixa pra lá, o importante é que agora você está com o IPOD.
_O único lugar que não olhei foi na sua bolsa. Mas não precisava, pois eu te perguntei duas ou três vezes se você tinha olhado a bolsa. Você até ficou chateada com a minha insistência. Me desculpe. Eu ainda insisti mais uma vez, mas você foi categórica, não es-tá co-mi-go, você disse. Desculpe, desculpe. Eu não deveria ter duvidado de você e insistido à tôa. Você tinha toda razão em ficar irritada quando perguntei pela quarta vez e você me garantiu que já havia olhado a bolsa TRO-CENT-TAS e que o IPOD não estava com você. Eu sou muito insistente, eu sei, do tipo insistente chato. O importante é que o IPOD está de volta. Mas diga lá, por favor, onde é que estava?
_Na minha ojjsa.
_Desculpe, não entendi.
_Na BOLSA! ESTAVA NA MINHA BOLSA! ESTÁ FELIZ, AGORA?
Às vezes eu acho que a minha vida é uma novela com um enredo bem fraquinho.
domingo, 28 de outubro de 2012
sábado, 27 de outubro de 2012
Das coisas que eu já cansei
Clarice Falcão - Uma canção sobre amor, ah o amor...
Já me cansei de um monte de coisas, inclusive de algumas que ainda não fiz. Bungee Jump, por exemplo. Cansei de bumgee-jump. Não consigo mais me imaginar prendendo os tornozelos numa corda elástica e pulando de uma ponte a 400 metros de altura. Fico cansado só de imaginar as fivelas nos tornozelos, hoje em dia não passo daí. Mas antigamente eu pensava até bem mais longe. Eu me via respirando bem fundo debaixo do capacete. Eu até mesmo olhava para baixo, na beirada daquela ponte imaginária e via o riacho passar bem fininho lá no fundo. Podia fechar os olhos e me concentrar na batida do coração, depois respirar bem fundo e deixar o corpo cair. Nessa hora, na minha mente, eu ficava em dúvida sobre abrir os braços ou não. Tem gente que pula com os braços cruzados, as mãos praticamente segurando os ombros. Outras pessoas abrem os braços como se fossem asas e inclinam as mãos, como se fosse possível alterar a direção do vôo com apenas uma pequena mudança de posição da ponta dos dedos. Seja como for, parece haver uma preferência em mergulhar de cabeça no bungee-jump, mas hoje em dia não consigo mais pensar nisso, cansei.
Também estou cansado de pensar em asa delta. É muito demorado e é preciso chegar bem cedo aos lugares onde se pratica asa delta. Houve uma época em que para mim não parecia loucura ficar preso ao um triângulo de alumínio e lona e flutuar a 500 metros de altura, mas hoje isso também me cansa. Uma vez quase saltei, preso a um instrutor. Na hora h, olhando para o precipício, amarelei total e não consegui dar um só passo. O sujeito fingiu que entendeu, as outras pessoas na área também simularam e houve até alguém que disse que era comum aquilo acontecer. Seja como for, cansei de asa delta.
Mergulhar também me cansa. Nunca mergulhei, é verdade, a desculpa de ser míope sempre falou mais alto. Pô, eu só conseguiria enxergar os peixes e os corais que encostassem no meu nariz. Também sempre me aterrorizou a idéia de subir rápido demais e ficar doente, sem falar nas moréias. Tenho pavor de moréias. Pode ser das pequenas. Na última vez em que estivemos na Bahia, as crianças encontraram uma pequena moréia presa nos recifes. Todo mundo se aproximou, viu de perto, teve até alguém que encostou o dedo na moréia. Eu mantive uma distância prudente de dez metros. Então, esse negócio de mergulhar me dá uma canseira danada, não é comigo.
Mas hoje fiquei olhando um tempão uns caras tentando aprender ski aquático. Pareceu bem interessante como o calor que vem fazendo. E simples. Os caras na lancha puxam você por uma corda. Você só precisa segurar firme e manter os dois pés presos num pranchão. Caso você erre, cai dentro dágua. Pô, me pareceu bom demais.
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