quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Minha casa é o meu castelo
Don't Stop Me Now" - Queen
Durante os séculos 12 e 13 existiram cerca de 180 torres na cidade de Bolonha, na Itália. A altura variava entre 30 e 110 metros. Os historiadores não sabem dizer porque foram construídas tantas torres. A hipótese mais aceita é a de que muitas famílias ricas resolveram construir as torres por uma questão de segurança. Eram tempos bicudos, aqueles. Uma torre de 60 metros, de acordo com os especialistas, demorava de 3 a dez anos para ser construída.
A maioria das torres ruiu ou foi derrubada bem antes do século XX. Hoje ainda existem 21 torres em Bolonha, as mais famosas são Garisenda(48 m) e Asinelli(97m), que ficam bem próximas uma da outra. Dante cita as Duas Torres na Divina Comédia e é assim que elas são chamadas nos guias turísticos. As duas são inclinadas. A cidade também possui quatro grandes portões fortificados.
Meu sogro tem uma casa de dois andares numa cidade satélite. Os vizinhos tinham casas da mesma altura. Subitamente, começaram a fazer reformas. O vizinho da direita fez tudo bem rápido. Botou a casa abaixo e levantou outra, de quatro andares. O vizinho da esquerda ainda não conseguiu acabar a obra. Fez uma super-reforma. Agora tem 3 andares. A casa do meu sogro parece bem mais modesta, esprimida e baixinha entre os vizinhos.
_O senhor vai mandar subir mais um andar? - eu disse.
_Não. Já tem muita escada aqui em casa. Além disso, dois quartos estão vazios, estamos com espaço de sobra - ele disse.
Meu cunhado mora numa casa térrea, no Cruzeiro. Os vizinhos também foram atingidos pela síndrome bolonhesa. Rapidamente ampliaram as casas em dois andares. O fenômeno se esparramou para as casas da frente. Todos reformaram e ampliaram as casas. A casa do meu cunhado agora parece menor, baixinha.
_Vai reformar? - eu disse.
_Não, a casa já é bem grande, não precisa - disse o meu cunhado.
E é verdade. A casa é bem confortável, não precisa de nenhum andar extra. A não ser que se queira alugar quartos.
No ano passado, nessa época do ano, eu dava início à reforma da casa onde eu moro. Felizmente, tudo acabou bem. Ainda faltam algumas coisinhas, mas agora o ritmo é outro. Estou me sentindo muito bem. Passei quatro horas na oficina e terminei um carrinho auxiliar para a churrasqueira. Na última hora, pintei a madeira de preto. Talvez eu seja como os bolonheses, construindo e fazendo as coisas sem saber direito o motivo, mas com disciplina, engenho e método.
terça-feira, 8 de novembro de 2011
O honesto
Conta a lenda que a presidente mandou fazer uma pesquisa entre os 349 ministros para ver se havia algum honesto. A primeira pesquisa custou uma fortuna e não deu certo, porque o encarregado dispensou a licitação e contratou uma ONG amiga para cuidar do assunto. A ONG era especializada em ministrar cursos para manutenção de geladeiras no pólo sul e por isso subcontratou uma empresa especialista em palavras cruzadas para cuidar da elaboração da pesquisa.
Assim que o questionário ficou pronto, os diretores da ONG visitaram os ministros um a um para aplicar a pesquisa e vender o gabarito com as respostas. A presidente desconfiou que havia alguma coisa errada porque um ministro de bigodes, que ela não suporta, ligou para perguntar como se soletra honesto.
_Agá, ó...
_Mas o agá ainda não caiu? - disse o ministro.
_Não, sua anta, quem caiu foi o Pallhófi, o Jubim e outros que eu não me lembro agora - disse a presidente.
_E qual é a resposta para "quantos CPFs você pode ter?"
_Um, ué.
_Só isso! Mas é muito pouco.
O ministro ainda tentou encompridar a conversa, mas a presidente disse que precisava ler um livro de receitas culinárias e mandou o bigodudo passear.
No dia seguinte, saiu o resultado da primeira pesquisa sobre a honestidade do ministério, com 350 ministros considerados honestíssimos. O ministro de bigodes disse que a pesquisa mostrou que ele era o mais honesto dos honestos com agá. Os diretores da ONG depois disseram que venderam o gabarito duas vezes para o ministro de bigodes.
A segunda pesquisa foi realizada apenas um mês depois da primeira e coincidiu com a queda de mais um ministro por denúncias de corrupção. A presidente desconfiou do resultado, porque desta vez 351 ministros foram considerados honestíssimos com estrelinha e SS parabéns. Desta vez, o ministro de bigodes comprou três gabaritos e disse que a honestidade dele estava progredindo mais e mais a cada dia. Por causa disso, talvez até precisasse de mais um CPF.
Depois disso, usando os gastos secretos do cartão da presidência, fizeram uma pesquisa séria e isenta com os 349 ministros. O ministro de bigodes quis trocar uns dois ou três dossiês falso pelo gabarito, mas não conseguiu. Por fim, a presidente descobriu entre seus ministros um que não tinha nenhuma denúncia de falcatrua. Era um ministro tímido, discreto, e ninguém nunca tinha ouvido falar de nenhum malfeito desse sujeito. Ele não era suspeito de nada. Ele não matava nem uma mosca. Ele não fazia festinhas em motéis e pagava com dinheiro de gabinete. Ele não comprava tapioca a crédito. Ele não estava cercado de otários. Ele não pegava grana em garagem. Ele não vendia emendas. Ele não favorecia amigos. Ele não aparecia em vídeo abraçando mentirosos. Ele não desviava dinheiro de merenda. Ele não conveniava cursos fajutos. Ele era não para tudo de ruim e desonesto.
A presidente ficou muito feliz com a descoberta. E chamou logo o secretário geral para uma reunião.
_Gil, apenas um ministro honesto. Eu queria todos iguais.
No dia seguinte, o ministro honesto foi demitido, é claro.
Assim que o questionário ficou pronto, os diretores da ONG visitaram os ministros um a um para aplicar a pesquisa e vender o gabarito com as respostas. A presidente desconfiou que havia alguma coisa errada porque um ministro de bigodes, que ela não suporta, ligou para perguntar como se soletra honesto.
_Agá, ó...
_Mas o agá ainda não caiu? - disse o ministro.
_Não, sua anta, quem caiu foi o Pallhófi, o Jubim e outros que eu não me lembro agora - disse a presidente.
_E qual é a resposta para "quantos CPFs você pode ter?"
_Um, ué.
_Só isso! Mas é muito pouco.
O ministro ainda tentou encompridar a conversa, mas a presidente disse que precisava ler um livro de receitas culinárias e mandou o bigodudo passear.
No dia seguinte, saiu o resultado da primeira pesquisa sobre a honestidade do ministério, com 350 ministros considerados honestíssimos. O ministro de bigodes disse que a pesquisa mostrou que ele era o mais honesto dos honestos com agá. Os diretores da ONG depois disseram que venderam o gabarito duas vezes para o ministro de bigodes.
A segunda pesquisa foi realizada apenas um mês depois da primeira e coincidiu com a queda de mais um ministro por denúncias de corrupção. A presidente desconfiou do resultado, porque desta vez 351 ministros foram considerados honestíssimos com estrelinha e SS parabéns. Desta vez, o ministro de bigodes comprou três gabaritos e disse que a honestidade dele estava progredindo mais e mais a cada dia. Por causa disso, talvez até precisasse de mais um CPF.
Depois disso, usando os gastos secretos do cartão da presidência, fizeram uma pesquisa séria e isenta com os 349 ministros. O ministro de bigodes quis trocar uns dois ou três dossiês falso pelo gabarito, mas não conseguiu. Por fim, a presidente descobriu entre seus ministros um que não tinha nenhuma denúncia de falcatrua. Era um ministro tímido, discreto, e ninguém nunca tinha ouvido falar de nenhum malfeito desse sujeito. Ele não era suspeito de nada. Ele não matava nem uma mosca. Ele não fazia festinhas em motéis e pagava com dinheiro de gabinete. Ele não comprava tapioca a crédito. Ele não estava cercado de otários. Ele não pegava grana em garagem. Ele não vendia emendas. Ele não favorecia amigos. Ele não aparecia em vídeo abraçando mentirosos. Ele não desviava dinheiro de merenda. Ele não conveniava cursos fajutos. Ele era não para tudo de ruim e desonesto.
A presidente ficou muito feliz com a descoberta. E chamou logo o secretário geral para uma reunião.
_Gil, apenas um ministro honesto. Eu queria todos iguais.
No dia seguinte, o ministro honesto foi demitido, é claro.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Correr faz mal à saúde

Jimi Hendrix - Crosstown traffic
_Miler, Charles Miler - ele disse.
Estava estirado no chão. A perna esquerda dobrada numa posição impossível. O braço direito também. Tentou se mexer.
_Por favor, não tente se mexer, é melhor ficar imóvel até a ambulância chegar - eu disse.
Vi Charles Miler esparramado no chão hoje, por volta das sete e meia, logo depois que deixei as crianças na escola. Um carro bloqueava metade da pista e havia ligado o pisca alerta. Talvez eu tivesse passado direto e apenas feito aquela cara de solidariedade fajuta quando a gente vê um acidente. Mas o pouco que tinha visto de Miler era muito parecido com um vizinho. Na dúvida, resolvi parar um pouco mais à frente e ver no que eu poderia ajudar. Voltei correndo até onde estava o atropelado. Muitas pessoas estavam paradas em volta, sem ação, olhando de olhos arregalados a vítima no chão. Quando estava a quatro passos, tive certeza de que não era o meu vizinho. Mas aí já era tarde demais para não me envolver.
O motorista que havia bloqueado a pista gritou para mim que já havia chamado a ambulância, que eu não precisava me preocupar. Só então entendi que todas as pessoas ali pensavam que era parente da vítima, porque tinha corrido até Charles Miler. Resolvi ser útil e me aproximei bem do atropelado. As roupas estavam um pouco sujas de vermelho. A cabeça tinha uma marca quase redonda de sangue. Ele mexia o braço direito, devia estar sentindo uma dor maluca. Foi quando eu perguntei o nome dele.
_O senhor foi atropelado, seu Miler. A ambulância já foi chamada. Mora aqui perto? Tem alguém em casa para a gente avisar?
_Não, minha mulher está em São Paulo. Não tem ninguém em casa.
_Em São Paulo? Talvez fosse melhor ligar para alguém aqui em Brasília. Tem alguém que a gente possa chamar?
Um sujeito estóico. Nenhuma reclamação. Nem mesmo uma careta de dor.
_Tenho dois filhos aqui - ele disse.
_Me diga um telefone, por favor.
Nessa hora ele fez um esforço grande, mas não conseguiu se lembrar de nenhum número. Tentou apalpar o bolso da calça. Mas disse para si mesmo que não havia trazido nada. Estava correndo. Era apenas a corrida matinal de todos os dias, antes de ir para o trabalho.
_Não adianta, não consigo lembrar - ele disse.
_O senhor se lembra do número da sua mulher?
Ele disse o número rapidamente. Quando a mulher atendeu eu disse que era um vizinho, morador do mesmo bairro. E também avisei que as notícias não eram boas.
_É sobre o seu marido. Ele foi atropelado, estou do lado dele, no meio da rua. A ambulância está a caminho. Ele está consciente e pediu para avisar a senhora. Também vou precisar do telefone do seu filho.
_Atropelado? Posso falar com ele? - ela disse.
Passei o celular para Miler. Só então vi a quantidade de sangue que havia no asfalto. Evitei olhar para a perna e o braço. Fraturas expostas não são coisas agradáveis de se ver. Miler mantinha a fleuma.
_Sim, sou eu. Não estou bem, não. Está feia a situação. Muito ruim. Estou quebrado, no chão. Diz o telefone dos meninos para ele. Eu não consigo lembrar.
Agora a mulher de Miler estava muito nervosa e também não conseguia se lembrar dos telefones. Começou a dizer um número mas mudou de idéia na metade. Eu me embolei com o teclado. Um outro sujeito apareceu ao meu lado com um celular.
_Vai ditando os números - ele disse.
A mulher de Miler queria me dizer outro número, mas eu disse que um só bastava. Também quis saber para onde o estavam levando. Mas a ambulância ainda não havia chegado. Eu disse que ela deveria ligar para os bombeiros depois. Agradeci ao outro sujeito que estendeu o telefone.
_Estou sem crédito, senão eu ligava - ele disse.
Disquei o número do filho de Miler. Atendeu ao segundo toque, com voz irritada.
_Quem é?
_É um vizinho. Seu pai foi atropelado. A ambulância está a caminho. Fale com ele.
Miler recuperou a fleuma totalmente.
_Sim. Fui. Estou com a perna e o braço quebrados. Também bati a cabeça - ele disse e me devolveu o telefone ao ouvir o barulho da ambulância.
_A ambulância está chegando. Daqui para frente é com os bombeiros e os paramédicos. Ligue para os bombeiros - eu disse.
A viatura da polícia chegou junto com os bombeiros. Os policiais estavam conversando com uma mulher aos prantos, que percebi ser a autora do atropelamento. Era de meia idade e não estava com roupa de trabalho. Usava moletom. Talvez voltasse da ginástica. No meio da rua, um dos tênis de Miller parecia colocar a língua de fora.
Olhei para trâs, mas não o vi. Os bombeiros e paramédicos fizeram um círculo de capas pretas e brancas em volta dele.
Caminhei até o meu carro. Só então percebi que um pouco mais à frente estava estacionado o carro do atropelamento. Faltava o espelho retrovisor do lado do passageiro. Daquele lado, a lataria estava um pouco amassada e o vidro do passageiro dianteiro estava trincado. Isso explicava o espelho retrovisor que eu havia visto no chão e a marca redonda de sangue na testa de Miler. Talvez o espelho retrovisor direito tivesse pegado no seu braço, com violência. O impacto o fez bater a testa no vidro do passageiro. Miler deve ter continuado o parafuso e caído com muita força no asfalto. O forte impacto provocou as fraturas do braço e da perna.
Ao chegar em casa, encontro o meu vizinho, que é mesmo bastante parecido com Miler. Contei o ocorrido rapidamente e meu vizinho falou que conhece o atropelado. E depois saiu para a sua corrida matinal.
Eu passei o dia com a vítima do atropelamento na cabeça. E basta fechar os olhos para que eu veja seu rosto ensanguentado e sua aparente tranqüilidade. Não consegui fazer muita coisa na oficina. O atropelado tomou conta dos meus pensamentos. Pensei, por exemplo, na forma como aquele velho conseguiu se manter firme e sem lamúrias mesmo espatifado no asfalto. Pensei em como ele pareceu ficar mais firme e resoluto quando falou com o filho no telefone. Pensei na maneira como conversou com a mulher, pedindo ajuda sem pedir, exortando firmeza e determinação. Pensei também no instante em que o vi olhando para mim pela primeira vez, ainda em dúvida se poderia confiar e me passar o telefone da sua mulher. Pensei também na motorista que o havia atropelado, uma dona-de-casa que saía cedo de casa. Para onde iria com tanta pressa? Ao supermercado? Ao amante? À missa? Comprar cigarros? Será que ficaria insegura para dirigir?
Tentei fazer piada de tudo, que é a melhor coisa para o esquecimento. Portanto, me imaginei contando essa história para o Cabeça.
-Big head, correr faz mal à saúde - eu diria, no início da história do dia em que fiz umas ligações celulares para uma pessoa atropelada.
Mas eu conheço o Cabeça. Do jeito que ele é, ele ouviria tudo na maior atenção, e depois diria que eu comecei a história da maneira errada.
_O certo é "atropelamento faz mal à saúde" - ele diria.
domingo, 6 de novembro de 2011
A música que meu filho mais escuta
The Beatles - Roll Over Beethoven (with Jimmy Nicol)
Existe uma grande competição para a venda de botijões de gás onde eu moro. De meia em meia hora, passa um daqueles carrinhos chineses ou indianos, carregado de botijões. Nesses carrinhos o lugar do motorista é bem apertado, os caras têm que andar de cabeça baixa. Uma das empresas, eu já reparei, parece selecionar os motoristas pelo tipo físico. Todos parecem jóqueis halterofilistas. Eu ia escrever nanicos mas ando muito politicamente correto.
Hoje, por exemplo, eu estava folheando aquela revista que sempre traz notícias que derrubam ministros e parei no anúncio dos três homens azuis. Sempre achei os homens smurfs patéticos, toda aquela tinta deve dar um trabalhão para tirar. Na foto, o primeiro aparece com olhos esbugalhados, o segundo parece que levou uma dedada, e o terceiro está olhando para o segundo como se ainda estivesse lhe aplicando uma. Eu ia fazer um comentário sobre a foto com a minha mulher, mas a onda politicamente correta me conteve.
Eu também ia fazer um comentário sobre o novo escândalo no ministério e a provável nova demissão, mas preferi ficar calado. Não gosto de parecer boca de sapo. Acho chato dizer "eu já cantei essa pedra" e também não gosto de ouvir. Isso é só para quem tem vocação de Cassandra.
A competição pela venda de gás por estas bandas possui vários denominadores em comum, além do transporte em carrinho estrangeiro. O preço é bem parecido, varia entre 50 centavos e um real. É preciso conferir se o botijão está mesmo com o lacre de segurança intacto. Ninguém nunca tem troco. E todas as empresas usam a mesma musiquinha para anunciar o gás: "Pour Elise", de Beethoven.
No início pensei que era apenas a empresa que usa os jóqueis do gás. Depois de algum tempo morando aqui me dei conta de que todas as empresas usam a mesma música. E é batata, todas as vezes que precisei trocar o botijão aproveitei a passagem do carrinho. Dá pra ouvir de longe o pianinho. Nas duas primeiras foram os jóqueis e nas vezes seguintes foram motoristas com o pescoço torto. Todas as vezes paguei o mesmo preço, porque os jóqueis e os motoristas não tinham moedas. Numa das vezes, o jóquei me mostrou que eu não tinha percebido o lacre violado. Ele disse que não haveria problema em trocar o botijão. E também disse que se eu quisesse ficar com o botijão com o lacre violado o preço ficava pela metade. Eu preferi pagar o preço por um botijão inteiro, lacrado. E depois disso examino todos os botijões que chegam aqui em casa.
_Pai, como chama aquela música dos carrinhos de gás?
_Pour Elise, de Ludwig von Beethoven. Por quê?
_É que na escola querem saber qual é a música que eu mais escuto. É essa música, pai. A dos carrinhos de gás. Toca todo dia, umas três ou quatro vezes.
A resposta impressionou a professora de música. E amanhã, na hora em que um caminhãozinho de gás passar, quem sabe um outro ministro não terá caído?
sábado, 5 de novembro de 2011
Aprendendo com Clint Eastwood
Sei que vocês que me lêem são pessoas inteligentes e maduras, que não enfrentam os dilemas bestas e as angústias pequeninas que me afligem e vivem recheando os pixels desse modesto blog. Sei, por exemplo, que vocês não ficam preocupados com o presente de aniversário da pessoa amada. Eu fico, é um problema anual, chego a ficar com insônia. Fico pensando em coisas diferentes, em novidades da atualidade e sempre me enrolo todo.
Vai chegando o aniversário da minha mulher e eu corro para a banca de revistas. Isso é importante. Dica de um filme que vi do Clint Eastwood. O Clint diz numa cena que aprendeu tudo sobre as mulheres lendo revistas femininas. Eu também. O problema é que eu tenho uma memória muito ruim. Todo ano preciso ler de novo.
Tenho sempre uma sensação de assombro quase pornográfico ao abrir e folhear as revistas femininas. Muitas delas tratam de abrir generoso espaço para intensos debates sobre a discussão da relação. Outras me dão a impressão de que nem mesmo as revistas masculinas que se dedicam a exibir closes de mulheres depiladas conseguem falar tanto de sexo. É sério. Essas revistas femininas não têm, por exemplo, uma sessão de esportes. Nem de política. E nem de rock. Elas só querem saber daquilo.
Ou então é preconceito meu, não sei. A verdade é que não me sinto muito confortável com essas revistas. Tenho a impressão de estar escutando conversas na antesala do ginecologista. As manchetes são de tirar o chapéu. "Ser traída foi a melhor coisa que já me aconteceu" -dizia um artigo de uma revista nas bancas. Ela dividia a capa com a mesma mensagem subliminar invertida: "Homens melhoram depois de um pé na bunda". Putz. Clint não tinha falado disso.
Eu me imagino conversando com o Clint.
_Pô, Clint! Que dica mais furada. Essas revistas são a mais pura sacanagem.
_What?
_Essas revistas femininas, Clint. São da pesada. Sexo, sexo e mais sexo.
_Forget the articles, asshole, just look at the photographs - diz o Clint.
Tem razão, o Clint. As melhores dicas para presentes estão nas fotos. E quase sempre nos pés. Desta vez vou me arriscar. E se não der certo, ponho a culpa no Clint.
Vai chegando o aniversário da minha mulher e eu corro para a banca de revistas. Isso é importante. Dica de um filme que vi do Clint Eastwood. O Clint diz numa cena que aprendeu tudo sobre as mulheres lendo revistas femininas. Eu também. O problema é que eu tenho uma memória muito ruim. Todo ano preciso ler de novo.
Tenho sempre uma sensação de assombro quase pornográfico ao abrir e folhear as revistas femininas. Muitas delas tratam de abrir generoso espaço para intensos debates sobre a discussão da relação. Outras me dão a impressão de que nem mesmo as revistas masculinas que se dedicam a exibir closes de mulheres depiladas conseguem falar tanto de sexo. É sério. Essas revistas femininas não têm, por exemplo, uma sessão de esportes. Nem de política. E nem de rock. Elas só querem saber daquilo.
Ou então é preconceito meu, não sei. A verdade é que não me sinto muito confortável com essas revistas. Tenho a impressão de estar escutando conversas na antesala do ginecologista. As manchetes são de tirar o chapéu. "Ser traída foi a melhor coisa que já me aconteceu" -dizia um artigo de uma revista nas bancas. Ela dividia a capa com a mesma mensagem subliminar invertida: "Homens melhoram depois de um pé na bunda". Putz. Clint não tinha falado disso.
Eu me imagino conversando com o Clint.
_Pô, Clint! Que dica mais furada. Essas revistas são a mais pura sacanagem.
_What?
_Essas revistas femininas, Clint. São da pesada. Sexo, sexo e mais sexo.
_Forget the articles, asshole, just look at the photographs - diz o Clint.
Tem razão, o Clint. As melhores dicas para presentes estão nas fotos. E quase sempre nos pés. Desta vez vou me arriscar. E se não der certo, ponho a culpa no Clint.
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