segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Polias blindadas para o cortador de grama
Charlie Chaplin, o gênio.
Quase consegui terminar de pintar a cerca da casa na manhã de hoje. Mas começou a chover e tive que parar tudo. Eu já havia conseguido pintar metade da cerca até meados de setembro, mas uma série de coisas urgentes provocou a postergação do trabalho. Hoje resolvi encarar. Mas acabou não dando tempo. O principal motivo foi a chuva, mas também tive que sair para encontrar uma peça da máquina de cortar grama.
Descobri que a substituição de peças de máquinas é uma das atividades mais corriqueiras de quem mora em uma casa. Na minha época de apartamento, era raro ter que sair para consertar uma máquina. Em casa, rara é a semana que não quebra alguma coisa. Torneira, máquina de cortar grama, roçadeira, lavadora, geladeira, motor do portão, filtro da piscina, máquina de lavar louça, máquina de lavar roupa, bomba da caixa dágua, bomba do filtro da piscina, filtro da piscina, foram algumas das coisas que tive que trocar ou mandar trocar recentemente.
Meu gramado não é grande, agora, por causa das chuvas, uma vez por semana o jardineiro faz a manutenção com uma cortadora elétrica, daquelas de empurrar, e uma roçadeira a gasolina. Descobri que não vale a pena ter uma roçadeira a gasolina, é preciso muito cuidado no uso. Não basta instruir o jardineiro. Se a sua máquina quebrar ele vai dar de ombros e deixar o serviço para a semana seguinte. O melhor é ter uma roçadeira elétrica média, de 700w. É leve, fácil de controlar, permite acertos mais acurados sem problemas. A máquina a gasolina é mais potente e o jardineiro imagina que pode podar qualquer coisa com aquilo. Além disso, o recipiente de combustível deve ser totalmente gasto, não se pode deixar restos. É um cuidado simples, mas se você não vigiar o jardineiro, ele vai se esquecer desse detalhe e na próxima vez, sua máquina estará mais próxima da pane.
Os equipamentos também não são muito robustos. Mesmo as máquinas que ostentam PROFISSIONAL em letras maiúsculas, deixam muito a desejar em qualidade. A substituição de peças custa um absurdo, em geral não fica menos de um quarto do valor da máquina. Se houver danos no motor elétrico da coisa, então não fica por menos da metade. Mas tudo fica para a próxima, porque estou em Contenção de Despesas Nível Cinco, não comprarei máquinas novas tão cedo.
Então saí para ver se arrumava um rolamento para a polia da correia da cortadora de grama. Na loja de rolamentos o sujeito me explicou que a polia que eu levei é blindada e que a mera substituição do rolamento seria um paliativo de pouca duração. As polias blindadas blá, blá, blá e me indicou uma outra oficina de máquinas, um quarteirão adiante. Fui. Entrei na loja, o outro sujeito me repetiu a aula sobre as polias blindadas. Recomendou outra loja. Agradeci. Fui na outra loja, a terceira. Lá chegando, com a minha polia na mão, suja, as bilhas saindo, fui olhado com comiseração. Só não me chamaram de coitado.
_Ih, aqui não tem polia blindada desse tamanho. De que máquina é essa? É do cortador de grama, não é? Já te explicaram que não vale a pena trocar o rolamento? Mas se você quiser, a gente troca o rolamento. Vai querer? Não faça isso. Não vale a pena. Mas se você quiser, a gente troca. Quer?
_Não, muito obrigado. Não quero, estou de saída, tchau - eu disse.
Fui na outra loja que o sujeito da segunda loja também havia indicado. As oficinas do lugar são todas bem parecidas. As lojas possuem balcões simples, com prateleiras onde estão as peças novas. Na parte de trás das prateleiras funcionam as oficinas. Em todas as que entrei, o chão é quase preto de graxa, óleo, gasolina e sujeira. Sujeitos de macacão falam de futebol sem parar. Os mecânicos procuram identificar a peça na sua mão com uma única olhadela. Depois do diagnóstico, sempre feito em voz alta, eles voltam ao que estavam falando.
Nessa não foi diferente. O mecânico identificou a polia blindada e recitou a ladainha do manual.
_Olha, essa é uma peça blindada, não vale a pena trocar o rolamento...
_Sei, sei, vocês têm uma nova? - eu disse.
_Xii, vou verificar, mas acho que não tem. Zé, vem ver se tem dessa polia, faz favor - disse o sujeito.
E veio o Zé. Era corcunda, esse Zé. Magro, magro, e corcunda, corcunda. Não sei porque sempre associei corcunda a excesso de peso e cabeça grande. O Zé era magro, baixo e não tinha a cabeça grande. Ele também confirmou que não tinha daquela polia. Devo ter feito cara de desânimo nessa hora.
_Mas eu acho que devo ter uma usada - disse o Zé.
_Legal, pode verificar, por favor? - eu disse.
_Num instante.
Esperei dez minutos e o Zé voltou com uma polia igual à que eu tinha, mas com rolamento perfeito.
Ele não me cobrou nada.
Depois, quando já havia voltado e estava novamente pintando a cerca, eu fiquei pensando naquele orgulho dos mecânicos. No fundo, todos nós temos a mesma mania.
PS: O BLOG ULTRAPASSOU HOJE A MARCA DOS 100 MIL PAGEVIEWS. OBRIGADO A TODOS.
domingo, 30 de outubro de 2011
Artigo do Professor Marco Antônio Villa
República em frangalhos
Postado por Villa em 30/10/2011
Saiu hoje no Estadão:
República destroçada
30 de outubro de 2011 | 3h 06
Marco Antonio Villa - O Estado de S.Paulo
Em 1899 um velho militante, desiludido com os rumos do regime, escreveu que a República não tinha sido proclamada naquele mesmo ano, mas somente anunciada. Dez anos depois continuava aguardando a materialização do seu sonho. Era um otimista. Mais de cem anos depois, o que temos é uma República em frangalhos, destroçada.
Constituições, códigos, leis, decretos, um emaranhado legal caótico. Mas nada consegue regular o bom funcionamento da democracia brasileira. Ética, moralidade, competência, eficiência, compromisso público simplesmente desapareceram. Temos um amontoado de políticos vorazes, saqueadores do erário. A impunidade acabou transformando alguns deles em referências morais, por mais estranho que pareça. Um conhecido político, símbolo da corrupção, do roubo de dinheiro público, do desvio de milhões e milhões de reais, chegou a comemorar recentemente, com muita pompa, o seu aniversário cercado pelas mais altas autoridades da República.
Vivemos uma época do vale-tudo. Desapareceram os homens públicos. Foram substituídos pelos políticos profissionais. Todos querem enriquecer a qualquer preço. E rapidamente. Não importam os meios. Garantidos pela impunidade, sabem que se forem apanhados têm sempre uma banca de advogados, regiamente pagos, para livrá-los de alguma condenação.
São anos marcados pela hipocrisia. Não há mais ideologia. Longe disso. A disputa política é pelo poder, que tudo pode e no qual nada é proibido. Pois os poderosos exercem o controle do Estado - controle no sentido mais amplo e autocrático possível. Feio não é violar a lei, mas perder uma eleição, estar distante do governo.
O Brasil de hoje é uma sociedade invertebrada. Amorfa, passiva, sem capacidade de reação, por mínima que seja. Não há mais distinção. O panorama político foi ficando cinzento, dificultando identificar as diferenças. Partidos, ações administrativas, programas partidários são meras fantasias, sem significados e facilmente substituíveis. O prazo de validade de uma aliança política, de um projeto de governo, é sempre muito curto. O aliado de hoje é facilmente transformado no adversário de amanhã, tudo porque o que os unia era meramente o espólio do poder.
Neste universo sombrio, somente os áulicos - e são tantos - é que podem estar satisfeitos. São os modernos bobos da corte. Devem sempre alegrar e divertir os poderosos, ser servis, educados e gentis. E não é de bom tom dizer que o rei está nu. Sobrevivem sempre elogiando e encontrando qualidades onde só há o vazio.
Mas a realidade acaba se impondo. Nenhum dos três Poderes consegue funcionar com um mínimo de eficiência. E republicanismo. Todos estão marcados pelo filhotismo, pela corrupção e incompetência. E nas três esferas: municipal, estadual e federal. O País conseguiu desmoralizar até novidades como as formas alternativas de trabalho social, as organizações não governamentais (ONGs). E mais: os Tribunais de Contas, que deveriam vigiar a aplicação do dinheiro público, são instrumentos de corrupção. E não faltam exemplos nos Estados, até mesmo nos mais importantes. A lista dos desmazelos é enorme e faltariam linhas e mais linhas para descrevê-los.
A política nacional tem a seriedade das chanchadas da Atlântida. Com a diferença de que ninguém tem o talento de um Oscarito ou de um Grande Otelo. Os nossos políticos, em sua maioria, são canastrões, representam mal, muito mal, o papel de estadistas. Seriam, no máximo, meros figurantes em Nem Sansão nem Dalila. Grande parte deles não tem ideias próprias. Porém se acham em alta conta.
Um deles anunciou, com muita antecedência, que faria um importante pronunciamento no Senado. Seria o seu primeiro discurso. Pelo apresentado, é bom que seja o último. Deu a entender que era uma espécie de Winston Churchill das montanhas. Não era, nunca foi. Estava mais para ator de comédia pastelão. Agora prometeu ficar em silêncio. Fez bem, é mais prudente. Como diziam os antigos, quem não tem nada a dizer deve ficar calado.
Resta rir. Quem acompanha pela televisão as sessões do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal (STF) e as entrevistas dos membros do Poder Executivo sabe o que estou dizendo. O quadro é desolador. Alguns mal sabem falar. É difícil - muito difícil mesmo, sem exagero - entender do que estão tratando. Em certos momentos parecem fazer parte de alguma sociedade secreta, pois nós - pobres cidadãos - temos dificuldade de compreender algumas decisões. Mas não se esquecem do ritualismo. Se não há seriedade no trato dos assuntos públicos, eles tentam manter as aparências, mesmo que nada republicanas. O STF tem funcionários somente para colocar as capas nos ministros (são chamados de "capinhas") e outros para puxar a cadeira, nas sessões públicas, quando alguma excelência tem de se sentar para trabalhar.
Vivemos numa República bufa. A constatação não é feita com satisfação, muito pelo contrário. Basta ler o Estadão todo santo dia. As notícias são desesperadoras. A falta de compostura virou grife. Com o perdão da expressão, mas parece que quanto mais canalha, melhor. Os corruptos já não ficam envergonhados. Buscam até justificativa histórica para privilégios. O leitor deve se lembrar do símbolo maior da oligarquia nacional - e que exerce o domínio absoluto do seu Estado, uma verdadeira capitania familiar - proclamando aos quatro ventos seu "direito" de se deslocar em veículos aéreos mesmo em atividade privada.
Certa vez, Gregório de Matos Guerra iniciou um poema com o conhecido "Triste Bahia". Bem, como ninguém lê mais o Boca do Inferno, posso escrever (como se fosse meu): triste Brasil. Pouco depois, o grande poeta baiano continuou: "Pobre te vejo a ti". É a melhor síntese do nosso país.
HISTORIADOR, É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS(UFSCAR)
Postado por Villa em 30/10/2011
Saiu hoje no Estadão:
República destroçada
30 de outubro de 2011 | 3h 06
Marco Antonio Villa - O Estado de S.Paulo
Em 1899 um velho militante, desiludido com os rumos do regime, escreveu que a República não tinha sido proclamada naquele mesmo ano, mas somente anunciada. Dez anos depois continuava aguardando a materialização do seu sonho. Era um otimista. Mais de cem anos depois, o que temos é uma República em frangalhos, destroçada.
Constituições, códigos, leis, decretos, um emaranhado legal caótico. Mas nada consegue regular o bom funcionamento da democracia brasileira. Ética, moralidade, competência, eficiência, compromisso público simplesmente desapareceram. Temos um amontoado de políticos vorazes, saqueadores do erário. A impunidade acabou transformando alguns deles em referências morais, por mais estranho que pareça. Um conhecido político, símbolo da corrupção, do roubo de dinheiro público, do desvio de milhões e milhões de reais, chegou a comemorar recentemente, com muita pompa, o seu aniversário cercado pelas mais altas autoridades da República.
Vivemos uma época do vale-tudo. Desapareceram os homens públicos. Foram substituídos pelos políticos profissionais. Todos querem enriquecer a qualquer preço. E rapidamente. Não importam os meios. Garantidos pela impunidade, sabem que se forem apanhados têm sempre uma banca de advogados, regiamente pagos, para livrá-los de alguma condenação.
São anos marcados pela hipocrisia. Não há mais ideologia. Longe disso. A disputa política é pelo poder, que tudo pode e no qual nada é proibido. Pois os poderosos exercem o controle do Estado - controle no sentido mais amplo e autocrático possível. Feio não é violar a lei, mas perder uma eleição, estar distante do governo.
O Brasil de hoje é uma sociedade invertebrada. Amorfa, passiva, sem capacidade de reação, por mínima que seja. Não há mais distinção. O panorama político foi ficando cinzento, dificultando identificar as diferenças. Partidos, ações administrativas, programas partidários são meras fantasias, sem significados e facilmente substituíveis. O prazo de validade de uma aliança política, de um projeto de governo, é sempre muito curto. O aliado de hoje é facilmente transformado no adversário de amanhã, tudo porque o que os unia era meramente o espólio do poder.
Neste universo sombrio, somente os áulicos - e são tantos - é que podem estar satisfeitos. São os modernos bobos da corte. Devem sempre alegrar e divertir os poderosos, ser servis, educados e gentis. E não é de bom tom dizer que o rei está nu. Sobrevivem sempre elogiando e encontrando qualidades onde só há o vazio.
Mas a realidade acaba se impondo. Nenhum dos três Poderes consegue funcionar com um mínimo de eficiência. E republicanismo. Todos estão marcados pelo filhotismo, pela corrupção e incompetência. E nas três esferas: municipal, estadual e federal. O País conseguiu desmoralizar até novidades como as formas alternativas de trabalho social, as organizações não governamentais (ONGs). E mais: os Tribunais de Contas, que deveriam vigiar a aplicação do dinheiro público, são instrumentos de corrupção. E não faltam exemplos nos Estados, até mesmo nos mais importantes. A lista dos desmazelos é enorme e faltariam linhas e mais linhas para descrevê-los.
A política nacional tem a seriedade das chanchadas da Atlântida. Com a diferença de que ninguém tem o talento de um Oscarito ou de um Grande Otelo. Os nossos políticos, em sua maioria, são canastrões, representam mal, muito mal, o papel de estadistas. Seriam, no máximo, meros figurantes em Nem Sansão nem Dalila. Grande parte deles não tem ideias próprias. Porém se acham em alta conta.
Um deles anunciou, com muita antecedência, que faria um importante pronunciamento no Senado. Seria o seu primeiro discurso. Pelo apresentado, é bom que seja o último. Deu a entender que era uma espécie de Winston Churchill das montanhas. Não era, nunca foi. Estava mais para ator de comédia pastelão. Agora prometeu ficar em silêncio. Fez bem, é mais prudente. Como diziam os antigos, quem não tem nada a dizer deve ficar calado.
Resta rir. Quem acompanha pela televisão as sessões do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal (STF) e as entrevistas dos membros do Poder Executivo sabe o que estou dizendo. O quadro é desolador. Alguns mal sabem falar. É difícil - muito difícil mesmo, sem exagero - entender do que estão tratando. Em certos momentos parecem fazer parte de alguma sociedade secreta, pois nós - pobres cidadãos - temos dificuldade de compreender algumas decisões. Mas não se esquecem do ritualismo. Se não há seriedade no trato dos assuntos públicos, eles tentam manter as aparências, mesmo que nada republicanas. O STF tem funcionários somente para colocar as capas nos ministros (são chamados de "capinhas") e outros para puxar a cadeira, nas sessões públicas, quando alguma excelência tem de se sentar para trabalhar.
Vivemos numa República bufa. A constatação não é feita com satisfação, muito pelo contrário. Basta ler o Estadão todo santo dia. As notícias são desesperadoras. A falta de compostura virou grife. Com o perdão da expressão, mas parece que quanto mais canalha, melhor. Os corruptos já não ficam envergonhados. Buscam até justificativa histórica para privilégios. O leitor deve se lembrar do símbolo maior da oligarquia nacional - e que exerce o domínio absoluto do seu Estado, uma verdadeira capitania familiar - proclamando aos quatro ventos seu "direito" de se deslocar em veículos aéreos mesmo em atividade privada.
Certa vez, Gregório de Matos Guerra iniciou um poema com o conhecido "Triste Bahia". Bem, como ninguém lê mais o Boca do Inferno, posso escrever (como se fosse meu): triste Brasil. Pouco depois, o grande poeta baiano continuou: "Pobre te vejo a ti". É a melhor síntese do nosso país.
HISTORIADOR, É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS(UFSCAR)
sábado, 29 de outubro de 2011
O mal vence várias vezes
Em frente ao Parque da Água Mineral, em Brasília, inventaram um bairro novo chamado Setor Noroeste. Era uma região coberta de cerrado. Hoje é uma área de várias construções aceleradas, com vários esqueletos levantados. Quando foi lançado, o metro quadrado construído no local chegou a mais de dez mil reais. Houve um imbroglio legal, a criação do bairro foi questionada por ferir o Plano de Desenvolvimento e Ordenamento Territorial do DF. Com isso o preço baixou um pouco. Hoje está por volta de oito mil reais, o que é super-exorbitante.
Passei hoje em frente ao Setor Noroeste. As vias de ligação estão sendo asfaltadas, parece que o embargo judicial para a continuidade da obras foi suspenso. Ou então está sendo simplesmente desrespeitado. Isso não é raro por essas bandas. Mas as notícias sobre o novo setor são escassas, não sei o que acontece, procuro nos jornais e nada.
As ruas do Distrito Federal estão esburacadas e muito remendadas.
A Terracap, estatal que cuida da comercialização das terras no DF, anunciou que vai tocar as obras do estádio de 700 milhões de reais para a Copa sem financiamento do BNDES. Empréstimos do BNDES devem, obrigatoriamente, passar por auditoria externa de tempos em tempos. Se vai utilizar recursos próprios, isso significa que não haverá auditoria externa sobre a utilização dos recursos.
O mal vence várias vezes por aqui. VEnce principalmente quando a gente pensa que perdeu.
Passei hoje em frente ao Setor Noroeste. As vias de ligação estão sendo asfaltadas, parece que o embargo judicial para a continuidade da obras foi suspenso. Ou então está sendo simplesmente desrespeitado. Isso não é raro por essas bandas. Mas as notícias sobre o novo setor são escassas, não sei o que acontece, procuro nos jornais e nada.
As ruas do Distrito Federal estão esburacadas e muito remendadas.
A Terracap, estatal que cuida da comercialização das terras no DF, anunciou que vai tocar as obras do estádio de 700 milhões de reais para a Copa sem financiamento do BNDES. Empréstimos do BNDES devem, obrigatoriamente, passar por auditoria externa de tempos em tempos. Se vai utilizar recursos próprios, isso significa que não haverá auditoria externa sobre a utilização dos recursos.
O mal vence várias vezes por aqui. VEnce principalmente quando a gente pensa que perdeu.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Frank Sinatra & Antonio Carlos Jobim
Frank Sinatra & Antonio Carlos Jobim Live - Quiet Nights of Quiet Stars (Corcovado) 1967
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Manga Rosa, o Teórico da Conspiração
Quase todas as turmas possuem um sujeito dedicado a elaborar uma boa teoria da conspiração. A minha não é diferente. Nós o chamamos de Manga Rosa, ou simplesmente Manga. Ele está sempre antenado com os acontecimentos. Lê uns dez jornais por dia, fora a Internet. Manga nunca fez um comentário nos blogs e sites dos conhecidos e desconhecidos. Como qualquer teórico da conspiração, Manga é paranóico assumido e convicto, além de supersticioso. Somos amigos há muito tempo e por isso não poderia jamais dar qualquer pista da aparência do Manga. Isso, para ele, seria o mesmo que entregar o seu questionário do IBGE. Aliás, o Manga não participou do último censo.
Eu respeito o Manga. Ele possui teorias do balacobaco, mas eu respeito. As teorias versam sobre uma infinidade de assuntos. Uma delas diz que existem programas de transferência de recursos públicos para ONGs que ministram cursos de qualificação em turismo em lugares que não recebem visitantes. Para Manga, está em curso a operação anti-sabugosa, que consiste em autosabotar os exames de avaliação do ensino. Funciona assim: as provas de avaliação são vazadas para alunos escolhidos a dedo. Os piores entre os piores são transformados em dirigentes do MEC. E se forem muito, muito ruins, podem ser indicados para as eleições em São Paulo.
Em outra teoria mirabolante, Manga dizia que o governo estava pagando fortunas para que ONGs amigas do alheio distribuíssem lanche estragado para criancinhas indefesas. Mas antes, as crianças tinham que fazer polichinelos e flexões. Ele também foi o primeiro a dizer que tecnicamente o mensalão não existiu, uma vez que os pagamentos eram semanais e até diários.
Mas a principal teoria do Manga é que para cada um dos 389 ministérios, existe uma operação específica, onde o que importa é fugir do lugar comum, para um paraíso fiscal, sem esquecer sacolas de dinheiro em quartos de hotel, por favor.
Outro dia encontrei o Manga. Ou melhor, o Manga me encontrou. De outro modo, a paranóia dele entra em ação, ele finge que não é o Manga, é super-chato. Eu o vi no shopping, fui até ele e o cara simplesmente passou direto pela minha mão estendida. Dias depois ele me ligou de um lugar barulhento, devia ser telefone público, e pediu desculpas, mas tinha que ter certeza de que o encontro não havia sido planejado por mim, que ele precisava tomar cuidado, com certeza estava sendo seguido, o telefone estava grampeado, aquelas coisas. Eu disse que tudo bem, sem problemas e ele desligou. Isso foi há mais de um mês, eu até já havia esquecido do Manga, cada louco com sua mania, e ontem ele apareceu. O Manga veio me visitar.
Ele estava no portão, não tocou o interfone. Eu agora tenho interfone e estou muito orgulhoso dele, tem até câmera de vídeo. Foi um presente, é claro, estou em contenção de despesas nível cinco. Para você ter uma idéia do que é isso, basta dizer que no nível três eu só gasto com pão e água. No nível quatro eu respiro fundo. Pois o Manga também é super-econômico.
_Manga, que surpresa boa, vamos entrar? - eu convidei.
_Tudo bem, tudo bem, vamos lá para o quintal - ele disse, e foi entrando rapidinho, subiu as escadas correndo e foi para o jardim dos fundos da casa, debaixo do pé de jabuticaba. Carreguei duas cadeiras de plástico até lá e sentamos.
_Aceita uma água? - eu disse.
_Tem outra coisa? - ele disse.
_Bom, tem água gelada - eu disse.
_Aceito - ele disse.
Então eu levantei e fui buscar uma jarra de água gelada. Olhei para trás e vi o Manga examinando o pé de jabuticaba, atentamente. Será que procurava microfones? Quando voltei com a água ele já estava mais calmo. Só queria um ouvido para escutar suas histórias, quase todas impublicáveis, é claro. Segredos fantásticos e sacações incríveis que só aquele teórico da conspiração poderia ter sacado.
Eu respeito o Manga. Ele possui teorias do balacobaco, mas eu respeito. As teorias versam sobre uma infinidade de assuntos. Uma delas diz que existem programas de transferência de recursos públicos para ONGs que ministram cursos de qualificação em turismo em lugares que não recebem visitantes. Para Manga, está em curso a operação anti-sabugosa, que consiste em autosabotar os exames de avaliação do ensino. Funciona assim: as provas de avaliação são vazadas para alunos escolhidos a dedo. Os piores entre os piores são transformados em dirigentes do MEC. E se forem muito, muito ruins, podem ser indicados para as eleições em São Paulo.
Em outra teoria mirabolante, Manga dizia que o governo estava pagando fortunas para que ONGs amigas do alheio distribuíssem lanche estragado para criancinhas indefesas. Mas antes, as crianças tinham que fazer polichinelos e flexões. Ele também foi o primeiro a dizer que tecnicamente o mensalão não existiu, uma vez que os pagamentos eram semanais e até diários.
Mas a principal teoria do Manga é que para cada um dos 389 ministérios, existe uma operação específica, onde o que importa é fugir do lugar comum, para um paraíso fiscal, sem esquecer sacolas de dinheiro em quartos de hotel, por favor.
Outro dia encontrei o Manga. Ou melhor, o Manga me encontrou. De outro modo, a paranóia dele entra em ação, ele finge que não é o Manga, é super-chato. Eu o vi no shopping, fui até ele e o cara simplesmente passou direto pela minha mão estendida. Dias depois ele me ligou de um lugar barulhento, devia ser telefone público, e pediu desculpas, mas tinha que ter certeza de que o encontro não havia sido planejado por mim, que ele precisava tomar cuidado, com certeza estava sendo seguido, o telefone estava grampeado, aquelas coisas. Eu disse que tudo bem, sem problemas e ele desligou. Isso foi há mais de um mês, eu até já havia esquecido do Manga, cada louco com sua mania, e ontem ele apareceu. O Manga veio me visitar.
Ele estava no portão, não tocou o interfone. Eu agora tenho interfone e estou muito orgulhoso dele, tem até câmera de vídeo. Foi um presente, é claro, estou em contenção de despesas nível cinco. Para você ter uma idéia do que é isso, basta dizer que no nível três eu só gasto com pão e água. No nível quatro eu respiro fundo. Pois o Manga também é super-econômico.
_Manga, que surpresa boa, vamos entrar? - eu convidei.
_Tudo bem, tudo bem, vamos lá para o quintal - ele disse, e foi entrando rapidinho, subiu as escadas correndo e foi para o jardim dos fundos da casa, debaixo do pé de jabuticaba. Carreguei duas cadeiras de plástico até lá e sentamos.
_Aceita uma água? - eu disse.
_Tem outra coisa? - ele disse.
_Bom, tem água gelada - eu disse.
_Aceito - ele disse.
Então eu levantei e fui buscar uma jarra de água gelada. Olhei para trás e vi o Manga examinando o pé de jabuticaba, atentamente. Será que procurava microfones? Quando voltei com a água ele já estava mais calmo. Só queria um ouvido para escutar suas histórias, quase todas impublicáveis, é claro. Segredos fantásticos e sacações incríveis que só aquele teórico da conspiração poderia ter sacado.
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