sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O nome da rosa




Minha mãe ouviu o meu filho, de oito anos, reclamar que levou uma bolada no pinto.

_Meu filho, como você deixou isso acontecer? - ela me disse.

_Ué, mãe, foi no futebol de salão. Os pais não podem entrar em campo. E eu nem estava perto. Essas coisas acontecem. Sei lá - eu disse.

_Não é disso que eu estou falando. Como você deixa o seu filho falar "pinto"? Por quê você não ensinou ele a falar o nome certo?

_Eu também falo pinto. Bráulio. Qual é o nome certo?

_Pipiu ou piu-piu - ela me disse.

_Ah, ele não gosta de falar piu-piu. Ele prefere pinto.

_Mas pinto é muito feio.

_Minha mulher também acha. Ela ensinou ele a chamar de pirulú, que é uma espécie de abreviação de pirulito. Lá em São Paulo é muito comum chamar assim. Tem gente que fala peru e quando é muito grande, tem uns caras que chamam de benga, que é um encurtamento de bengala.

_Me respeite e deixe de graça. Pirulú também é muito feio. Bonito mesmo é pipiu - disse a minha mãe.

_Tudo bem, mãe, eu vou pedir pra ele falar pipiu, pelo menos quando a senhora estiver po perto - eu disse.

_Não, senhor, eu não quero que ele fale nem de pirulú e nem de pipiu perto de mim - ela disse.

_Sim, tudo bem, está entendido, ele não vai falar de pintos e nem de pipius. Mas acho que isso é pura implicância com um nome à tôa. E ele só falou do pinto porque a bolada doeu, normalmente pipiu não é assunto nem dele nem de ninguém lá em casa - eu disse.

_De ninguém? - disse a minha mãe.

_Bom, a senhora entendeu o que eu quis dizer. Fique tranquila - eu disse.

_E qual foi o nome que você ensinou para a menina?

_Borboleta. As vezes também chamamos de perereca - eu disse.

_Que horror, que horror! - ela disse.

_Ué, e qual é o nome que eu deveria ter ensinado?

_Vagina.

_Aí sou eu que acha um horror.

_Mas é o nome certo - disse a minha mãe.

_Mas pênis é o nome certo e a senhora prefere pipiu.

_Olha, cuidado com o que fala. Eu sou sua mãe, com mais de 70 anos bem vividos. Acontece que pênis é muito feio.

_Tudo bem, não tem o menor problema. Vou corrigir isso. Vagina para as meninas e piupiu para os meninos - eu disse.

Mas por via das dúvidas acho que vou entrar numa aula de mímica.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Aretha Franklin - Won't Be Long (Live 1964)



Parabéns Guina e Vanessa pela chegada de Bianca, com 3,765 kg de saúde!

Gisele proibida e o dólar na cueca



O vídeo acima é aquele da Gisele Bundchen, que é linda e não deve nada a ninguém, em propaganda inteligente e bem-humorada de roupa íntima. Minha mãe não gostou. Achou que ela não precisava aparecer só de calcinha e sutiã num comercial para vender calcinha e sutiã. Mas não falou nada sobre proibir o comercial. E nem achou uma ofensa à mulheres. Pelo menos à mulheres da maior idade.

_Nem acho a Gisele bonita. Para mim ela é muito magrinha - disse a minha mãe.

Eu discordo humildemente da minha mãe. Mas ela não quer saber de discussão.

_Ela precisa engordar um pouquinho - disse minha mãe.

Eu procuro uma saída negociada.

_Tudo bem, eu concordo, talvez com uma dieta rica em protéinas ela ficasse ainda mais bonita - eu disse.

_Agora sim, você está comigo. Acho que mais um ou dois quilos não fariam mal nenhum à moça - ela disse.

_Eu não diria tanto, mãe. Estava pensando em coisa pouca, umas cem gramas ali, cinquenta acolá - eu disse.

_Isso tudo! De jeito nenhum - disse o meu pai.

_É, talvez fosse demais. Mas parece que proibiram ou vão proibir o comercial - eu disse.

_Ué, e por quê? - disse a minha mãe.

_Alguém do governo considera esse comercial uma ofensa às mulheres - eu disse.

_Inveja agora mudou de nome. Eu fico ofendida é com a burrice de certa gente - disse minha mãe.

_Eles deveriam proibir o dólar na cueca - disse o meu pai.

_E nas meias. É, no mínimo, muita falta de higiene - disse a minha mãe.

_É contra a saúde pública - disse o meu pai.

_É pior do que a volta da CPMF - disse a minha mãe.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Semi-enterrado e A-S

Nós estávamos na garagem do edifício. Eu, meu pai e minha mãe. Fui fazer companhia aos dois, que iriam colocar aparelhos de monitoramento cardíaco. Dirigir é muito estressante, o que pode provocar alterações nos registros dos aparelhos, então me ofereci para bancar o motorista por 24 horas. No caminho, minha mãe ficou me ensinando onde virar e como chegar à clínica.

Meu filho nasceu no hospital em frente à clínica, mas em oito anos o lugar ficou muito diferente. Está tudo lotado e apertado. Sem ajuda, eu não encontraria a clínica. E se o edifício da clínica não tivesse estacionamento pago, eu não encontraria vaga. O estacionamento público e gratuito estava lotado. O gramado estava lotado. E os flanelinhas agiam ostensivamente. Essa cidade é muito legal, mas está ficando pequena para tanto automóvel. Estacionamento gratuito é coisa do passado.

O edifício da clínica devia ter uns seis andares, contando os subsolos. Os subsolos eram estacionamentos caros, coisa de quatro reais a hora. Sem opção e em cima da hora, seguimos para o estacionamento pago. Depois de algumas manobras inusitadas acabei conseguindo uma boa vaga. Seguimos para o elevador e esperamos.

_Mãe, qual é o andar? - eu disse.

_A-S - ela disse.

_Não, mãe. O andar. Qual é o andar?

_A-S, está escrito aqui.

Eu pensei ter ouvido errado novamente e o elevador chegou. No painel, os botões de números 1,2 e e e mais SE, AS, SS1 e SS2. Dentro do elevador, uma coroa e uma garota. A menina usava óculos redondos e prateados, tipo John Lennon, e era obviamente Síndrome de Down.

_Mãe, qual é o andar? - eu disse.

_Não sei, parece AS, mas vamos para o térreo - ela disse.

Olhei para o meu pai, que concordou. Apertei o botão que eu achava que era o térreo, nível do chão. Mas não era ali. Descemos num corredor amplo. A mulher e a menina mongol continuaram no elevador.

_Não é aqui - disse a minha mãe.

Eu vi um sujeito dentro de um cinzeiro gigante.

_Ô da portaria, esse aqui é o A-S?

_Não, aqui é o S-E.

_E que diabos é S-E?

_Semi-enterrado - ele disse.

_Semi-enterrado?- eu disse.

_Semi-enterrado - ele disse, novamente.

_Pai, estamos no semi-enterrado - eu disse para o meu pai, que continuava esperando por mim e por minha mãe, dentro do elevador.

_Semi-enterrado? - ele disse.

_Isso mesmo- eu disse.

_Que coisa fúnebre - ele disse.

A menina com síndrome de Down olhava para nós, alegremente. A mãe estava furiosa.

_Mãe, não é aqui, vamos para o A-S - eu disse. E apertei o botão.

Todos do elevador desceram no A-S. Era o andar certo.

Esperamos uma eternidade e depois os dois entraram e colocaram os aparelhos. Eu fiquei desenhando no meu caderno moleskine de desenhar em sala de espera de consultório. É um caderno dedicado à Mona Lisa. Só desenho Monas Lisas nesse caderno. Tenho esperado uma eternidade em consultórios. Já desenhei mais de trinta Monas. Muitas nem se parecem com a Mona Lisa. Depois de meia hora, meu pai saiu do consultório usando um rolter. E alguns minutos depois minha mãe saiu com uma máquina de mapeamento cardíaco, não sei o nome.

_Descobriu o que é A-S? - perguntou a minha mãe.

_Não, depois do S-E fiquei com medo de perguntar - eu disse.

Na saída, no elevador, encontramos a menina Down e a mãe. A menina continuava com o mesmo ar de felicidade. E a mãe continuava furiosa. Pagamos o ticket e fomos até o carro. Depois quando estávamos saindo, vimos a mãe e a menina Down na bilheteria do estacionamento. A menina continuava feliz. Depois fiquei pensando que A-S significa Acima do Semi.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Pra não dizer que não falei de Oswaldo Montenegro

Havia um ninho sobre uma das lâmpadas da varanda da casa. Descobri ainda antes da mudança e pedi para que o jardineiro o retirasse logo nos primeiros dias. Hoje reparei que um novo ninho foi feito no mesmo lugar. O ninho fica sobre uma lâmpada que quase não acendemos. Fica bem ao lado da pérgula. Acho que é um ninho de rolinhas, mas pode ser de coruja, ainda não vi o pássaro.

Quase tirei o ninho eu mesmo na tarde de hoje. Mas fiquei com pena, porque talvez ele já tenha sido usado para desova. Pensei em verificar mas fui fazer outra coisa e quando me lembrei já era noite.

_Você viu o ninho? - disse a minha mulher.

_Vi - eu disse.

_Não vai tirar de lá?

_Talvez amanhã - eu disse.

_Viu se tinha ovo?

_Não - eu disse.

_E por que não?

_Sei lá, tenho medo de haver alguma lei que proíba a gente de olhar ninho à noite. Tem lei pra tudo, hoje em dia. E ninguém pode dizer que desconhece a lei.

_Pode ir tranquilo que sobra lei mas falta fiscal.

_Certo, mas é uma questão de princípios. Eu não gosto de cometer infrações.

_Você está com preguiça.

_Nunca, jamais - eu disse.

_Então vá lá e veja se o ninho está com algum ovo.

_E se estiver? O que farei com os ovos? E se for de uma coruja? E se eu for atacado por uma coruja daquelas do meu corujoporto?

_Daquela pequetitinha?

_Pequena?! Pequena nada. Aquela coruja tinha pelo menos um metro e setenta só de envergadura!

_Uma ova! Era uma corujinha anã, outro dia eu vi.

_Anã? Se existisse campeonato de tamanho de coruja aquela subiria ao pódio com medalha de ouro. Era um corujão, sim, senhora.

_Ah, sei, do tamanho de um condor.

_Con... putz, não fala isso, eu sempre lembro do Oswaldo Montenegro.

Frase do dia