quinta-feira, 30 de junho de 2011

Ouvindo Sails - Elton John



As férias estão chegando e as crianças estão mais ansiosas. E elas também se preocupam mais comigo. Hoje fui deixá-las no judô. Meu filho disparou na frente, correndo com a mochila nas costas. Minha filha puxou conversa.

_Paiê, você vai voltar pra casa?

_Vou, por quê? - eu disse.

_Você vai construir coisas, paiê?

_Acho que sim, vou terminar um armariozinho que estou fazendo - eu disse.

_O meu pai não tem emprego, ele constrói coisas - disse a minha filha.

Achei que ela tinha dito isso para um colega, mas não havia ninguém por perto.

_Paiê, você acha que vai conseguir um emprego? - disse a menina.

_Não sei, filha, acho que sim, estou tentando.

E depois disso ela apertou a minha mão, para me dar força. Depois disso eu fui tentar sacar a primeira parcela do seguro-desemprego, mas havia alguma coisa errada com o sistema. Perdi duas horas dentro da agência.

Fui pra casa e terminei de construir o armariozinho. Depois minha mulher trouxe as crianças do judô, nós jantamos juntos e fomos todos ler o "Diário de Um Banana" antes de dormir. De tanto pensar em emprego e seguro, acabei ficando com pena de mim mesmo, o que é terrível. Pra relaxar, tomei um bom copo de suco de uva La Fruite. Minha mulher só não gostou do fecho que coloquei no armariozinho. Ela disse que sabe onde encontrar uma tranca que deixará o móvel muito mais bonito. Amanhã nós sairemos juntos para procurar.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Pescaria nas férias

Eu e as crianças vamos pescar nessas férias. Estamos programando três dias numa represa, exercitando a pesca com molinetes. A animação é grande, embora às vezes eu tenha dificuldade em me imaginar colocando minhocas em anzóis para os meninos numa canoa de menos de quatro metros. Bom, vou tentar mesmo assim. Se as crianças ficarem muito inquietas, paciência, ficaremos nas margens da represa pescando lambaris. O local já é bem conhecido por outras pessoas da família, que também deverão participar da pescaria.

As crianças estão ansiosas pelas férias. Haverá uma grande apresentação dos alunos na próxima semana, numa festa que deverá marcar o encerramento do semestre. Os ensaios para a apresentação devem estar sendo exaustivos. Meu filho outro dia recitou TODAS as falas que serão ditas por uns 50 meninos e meninas. Ele e minha filha também cantam todas as músicas que serão apresentadas. Será uma festa longa e bacana.

_Pai, você também vai entrar de férias? - disse o meu filho.

_Não, filho. Só quem trabalha ou estuda é que tem um período de férias.

_Mas você trabalha, pai. Está sempre consertando ou fazendo alguma coisa.

_Só que esse tipo de trabalho não dá direito a férias - eu disse.

_Ué, pai, então é melhor você estudar.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O Careca entende um poema de Drummond

Durante algumas semanas minha unha do pé direito ficou me incomodando. Tentei todos os remédios caseiros e fiz muitos esforços pedicurísticos, mas nada funcionou. Hoje, quando fui pagar o estacionamento no shopping, passei em frente ao enorme placar do Dr. Feet e na hora meu dedão latejou. Era um sinal, dos doloridos. Tratei logo de entrar no podólogo.

Sim, é verdade. Sempre tive muita curiosidade para entrar no podólogo, mas nunca entrei antes porque as pessoas certamente iriam comentar:

_Lá vai um cara com chulé!

_Lá vai um cara com frieira!

_Lá vai um cara com pé-de-atleta!

E nenhuma das três alternativas está correta. Eu tenho é unha encravada e todo mundo sabe que isso não tem cura. Quero dizer, vai ver até que tem cura, mas ninguém da minha família acredita nisso. Não, senhor. Na minha família, as unhas encravadas são mais cultivadas que dor-de-cotovelo. Todos os homens têm e algumas mulheres também, embora não assumam. São dores quase secretas, curtidas no aconchego do lar, entre alicates, tesourinhas e água oxigenada. São especiais, não é coisa para se mencionar numa conversa com estranhos. E mesmo em família, as proezas encravadas só são mencionadas entre cochichos, até por respeito à dor alheia. Uma vez, no enterro de um tio meu, por exemplo, um primo mereceu reprimendas generalizadas por fazer alarde da unha encravada.

_Você viu o Carlaile?

_Vi, o exibido. Enrolou o dedão com gaze e esparadrapo.

_Isso não se faz. Uma coisinha à tôa daquelas.

_Pois é, estou com dois dedões em muito pior estado.

_E eu? Só tenho um mindinho bom. E estou de sapato bico fino.

_Eu nem fiz curativo nem nada, meus pés estão em brasa.

E por aí afora. Naquele dia eu também conversei com o meu primo.

_Carlaile, que exagero de curativo!

_Nada, primo, precisei levar três pontos.

_Mas para usar chinelo o mínimo é cinco pontos, você sabe.

_Nada disso, no ano passado o Ivo Júnior andou de chinelão exibindo o dedão operado e nem tinha levado pontos.

_Não era caso de unha, era dedo quebrado, é outra coisa.

Mas não teve jeito. O Carlaile não quis ouvir ninguém. Por isso, ninguém achou ruim quando o Ivo Júnior pisou no dedão do Carlaile "sem querer" e com rodada, ou meio giro de sola. O enterro ameaçou virar pancadaria mas as minhas tias foram logo pisando nos dedões dos mais alvoraçados e todos se aquietaram.

De modo que ali estava eu, de frente para o Dr. Feet, pensando em tudo isso e sentindo o dedo doer. Pensei, refleti muito e resolvi mandar as doloridas tradições familiares para o inferno.

Durante a sessão, a moça teve que pedir candidamente, quatro vezes, que eu não tentasse tirar o pé durante os procedimentos.

_Moça, eu não estou tirando o pé, estou tentando tirar o dedo!

Mas como ela estava armada com um bisturi, acabei cedendo aos argumentos. Portanto, aqui estou, minha querida kombi de leitores, livre da minha unha encravada. Ela agora é como aquela foto na parede do poema do Drummond. Estou com o pé pendurado. E até quando eu como, dói.

domingo, 26 de junho de 2011

Distribuindo o peso

Estávamos hoje conversando um pouco, depois do almoço generoso de domingo.

_Caramba, há oito anos não se passa nem uma única semana sem um escândalo - disse o meu cunhado.

_Pois é, o super-ministro caiu tem umas duas semanas e nesse meio tempo já surgiram coisas do arco da velha - eu disse.

_O que foi agora?

_Teve a emenda do sigilo da licitação, o sigilo da informação do governo, os hackers, a relação Cabral-empreiteira da Bahia, a libertação do assassino italiano, a agonia do turista na Lapa, teve um monte de coisa.

_Dá até canseira de tanto escândalo - disse o cunhado.

_Fica chato comentar. Parece implicância da gente.

_O que será que vai pintar nessa semana?

_Não sei, mas poderiam mandar um criminoso para a cadeia, só pra variar.

Acabou que ficamos meio em silêncio porque estávamos cansados de falar das coisas que não funcionam direito, das mudanças que nunca acontecem, das roubalheiras que continuam acontecendo, do desrespeito aos cidadãos, da agressão diária à dignidade e à inteligência de todos nós.

_O almoço aqui na sogra estava muito bom, mas acho que vou embora mais cedo hoje - eu disse.

_Dá uma carona? - disse a minha cunhada.

_Será que cabe todo mundo? - eu disse.

_Somos oito, as crianças menores vão no colo.

_Fico pensando no peso - eu disse.

_Você está chamando alguém aqui de gorda? - disse a minha cunhada.

As luzes do robô de Perdidos no Espaço começaram a piscar loucamente, os braços moles com mãos de gancho balançando fortemente: perigo, perigo, perigo.

_Imagine - eu disse.

_Eu também não me acho gorda. Tudo é uma questão de distribuição. Eu e a Gisele Bundchen pesamos a mesma coisa. A diferença são uns vinte centímetros a mais. Analisando bem a coisa, eu não sou gorda, sou baixinha.

Tive que concordar com o ponto de vista. E depois coube todo mundo no carro. Ah, e ninguém soube dizer qual será o escândalo desta semana. Tudo pode acontecer.

Frase do dia