Não é bem a volta do hífen. Seria mais correto falar da antiga regra de uso do hífen.
Sou um saudosista, confesso. Mas veja autorretrato. É assim que se escreve pela regra da reforma ortográfica. Eu prefiro mil vezes auto-retrato. Até o corretor automático de texto concorda comigo. Com autorretrato, ele fica vermelho de raiva. Eu também fico irritado com o novo auto-retrato. Parece fora de foco. Eu fico achando que é em 3D, sobra “r”.
Autossustentável é outra que me deixa mais vermelho que o corretor automático, quase roxo. O “s” extra que a nova regra obriga me deixa com a impressão de que um militante do movimento verde está se aproximando para me cuspir por causa de crimes ecológicos que eu nem cometi. É bem verdade que não sou nenhum santo. Mas os pecadilhos verdes que cometo não são tantos assim, eu juro que troquei as sacolas plásticos por caixas de papelão. O problema é que nunca tem caixa quando eu faço compras.
Autoanálise eu vivo fazendo, mas à moda antiga, amparado pelo hífen, ouvindo o conselho de poucos e bons amigos e amigas. Autocontrole nunca tive muito, por isso não importa a maneira como escrevo. Quanto a antirracista e antissocial , considero essas duas novas ortografias aberrações impostas pelo mau gosto de dicionaristas recalcados, que deveriam ser presos ou, no mínimo, obrigados a fugir pelos esgotos pluviais de obras do PAC em morros pacificados.
Minissaia também parece grande demais com o acordo ortográfico. Eu tiraria pelo menos um “s” para ficar de bom tamanho. Antivírus é outra. Dá vontade de espirrar todas as vezes que vejo escrita sem hífen. E por causa do espirro chegamos a ultrassom. A nova redação parece reforçar o poder sonoro, parece ecoar nos ouvidos não é ? Então. Só que ninguém nunca escutou o ultra-som. Rá. Rá. Ele é usado para formar imagens, lembra? Hein? Hein? Ultra-som, bebês, exames super-legais...ops.
Pela regra nova, hiper, inter e super só podem ser usados com hífen nas palavras que começam com h ou r. Acho um super-absurdo, um hiper-abuso que só pode ter partido de pessoas que deveriam estar er... in-ter-na-das, na falta de um inter melhor.
Outro que mudou com a nova regra é o velho e bom sub, que eu costumava usar a torto e a direito com qualquer substantivo ou infinitivo que eu quisesse hum, subverter. Agora só pode hífen depois de sub quando a segunda palavra começa com b, h ou r, como em sub-base de batráquios do sub-reino dos sub-humanos panacas que adoram mudar as regras por falta do que fazer. Além de ser uma regra prá lá de sub-besta, fica bem difícil inventar uma música para decoreba com essas iniciais sem ofender algum mineiro. Outra regra que complica a feitura de música é a que só deixa usar hífen com pan e circum com segundas palavras começadas com h, m, n ou as vogais a,e,i,o e u. Eu mesmo só sei disso porque fui esperto e mandei tatuar essas letras no meu pulso esquerdo, que eu sempre consulto quando estou em dúvida.
O uso obrigatório de hífen depois de qualquer vice, no entanto, me parece bastante aceitável. Posso conviver com ele. Só não sei se o Temer conseguirá. Rá.Rá.
Por último, não gosto do novo jeito de usar mini sem hífen, como em minirreforma. Não é preconceito. Só parece que não consertou nada. O r extra parece um tijolo colocado por pura preguiça por um pedreiro pirracento. Parece o sinal de uma infiltração perigosa, que fará a palavra inteira se desmoronar. Prefiro mini-reforma. Mini mesmo. E por ser tão pequena, bem que poderiam ter deixado isso de lado, né?
terça-feira, 30 de novembro de 2010
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
A vaidade dói
Ela é minha colega de trabalho. Na saída, em frente ao elevador, eu pergunto:
_Vai viajar?
_Não, por quê? - ela estranha.
_É por causa da mala de viagem à sua frente. Em geral, quando as pessoas estão com a mala de viagem, com alça telescópica e tudo, é porque pretendem viajar - eu disse.
_Ah, mas não é o caso. Estou com dor na coluna e a mala é só para levar e trazer os papéis para o trabalho - ela disse.
_Caramba, você trouxe a enciclopédia britânica aí?
_O quê?
_Nada. Mas essa bolsa enorme não pesa? - eu disse.
_Pesa - ela disse.
_E por quê não a prende na alça telescópica da mala? - eu disse.
_Vaidade - ela disse, com uma careta de dor.
-Cruzes - eu disse, sem querer.
_Vai viajar?
_Não, por quê? - ela estranha.
_É por causa da mala de viagem à sua frente. Em geral, quando as pessoas estão com a mala de viagem, com alça telescópica e tudo, é porque pretendem viajar - eu disse.
_Ah, mas não é o caso. Estou com dor na coluna e a mala é só para levar e trazer os papéis para o trabalho - ela disse.
_Caramba, você trouxe a enciclopédia britânica aí?
_O quê?
_Nada. Mas essa bolsa enorme não pesa? - eu disse.
_Pesa - ela disse.
_E por quê não a prende na alça telescópica da mala? - eu disse.
_Vaidade - ela disse, com uma careta de dor.
-Cruzes - eu disse, sem querer.
domingo, 28 de novembro de 2010
Copa do Mundo? Olimpíadas?
Sim, nós temos a hospitalidade. Sim, nós temos um povo maravilhoso. Mas convenhamos, não dá para fazer uma festa de arromba desse jeito. Em três anos e meio o Rio estará livre dos crônicos problemas de segurança, sem falar da infra-estrutura de recepção e hospedagem? Em três anos e meio, o Distrito Federal terá aeroporto, estádio e hotéis suficientes para abrigar 300 mil pessoas numa Copa do Mundo? São Paulo terá condições de fazer a mesma coisa? E ainda teremos transposição de São Francisco, trem-bala e pré-sal?
Não sei. Acho que não. Não vai dar pé.
Não custa lembrar que há dois anos se espera a conclusão do alargamento de uma pista de ligação entre Taguatinga e o Plano Piloto, aqui, no Distrito Federal. O lugar que tem educação, saúde e segurança bancados com recursos federais não oferece serviços de saúde e educação compatíveis. Em termos de segurança, só estamos bem até a próxima fatalidade. Os assassinatos mais terríveis ficam sem solução. Agora se descobre que o déficit do Governo do DF chega a 800 milhões de reais e já se fala em atraso no pagamento do 13 salário dos funcionários da educação, segurança e saúde. Ninguém tem culpa de nada. Ninguém é responsabilizado.
Na pressa para chamar a atenção e "garantir" a obra, o desmazelado governador tampão local mandou botar pra quebrar no estádio Mané Garrincha. Não era grande coisa, mas agora é só um punhado de cacarecos.
Novamente, ninguém será responsabilizado. Ninguém tem culpa de nada.
Acho que deveríamos, urgentemente, repensar a coisa, chamar a turma da Fifa e do COI e dizer, olha pessoal, foi mal, mas não vai dar.
Não sei. Acho que não. Não vai dar pé.
Não custa lembrar que há dois anos se espera a conclusão do alargamento de uma pista de ligação entre Taguatinga e o Plano Piloto, aqui, no Distrito Federal. O lugar que tem educação, saúde e segurança bancados com recursos federais não oferece serviços de saúde e educação compatíveis. Em termos de segurança, só estamos bem até a próxima fatalidade. Os assassinatos mais terríveis ficam sem solução. Agora se descobre que o déficit do Governo do DF chega a 800 milhões de reais e já se fala em atraso no pagamento do 13 salário dos funcionários da educação, segurança e saúde. Ninguém tem culpa de nada. Ninguém é responsabilizado.
Na pressa para chamar a atenção e "garantir" a obra, o desmazelado governador tampão local mandou botar pra quebrar no estádio Mané Garrincha. Não era grande coisa, mas agora é só um punhado de cacarecos.
Novamente, ninguém será responsabilizado. Ninguém tem culpa de nada.
Acho que deveríamos, urgentemente, repensar a coisa, chamar a turma da Fifa e do COI e dizer, olha pessoal, foi mal, mas não vai dar.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
A guerra contra os traficantes no Rio de Janeiro
Eu queria ter lançado hoje uma campanha pela volta do hífen. Mas as imagens do Rio de Janeiro não me saem da cabeça. Eu gosto do hífen à moda antiga, antes da reforma ortográfica. Dá uma coesão mais equilibrada para as palavras. Acho que nunca usei direito, mas gosto daquele hífen. Infra-estrutura, por exemplo. Acho que fica mais legal com hífen. E no Rio de Janeiro, falta muita infra-estrutura.
Não conheço muita coisa do Rio e não tenho a menor noção dos problemas da cidade. Mas acho que falta infra-estrutura. Simplesmente porque falta infra-estrutura em todas as grandes cidades do país. Também faltam oportunidades e empregos, a educação é precária, os hospitais estão lotados, o transporte público é uma droga,a população desconfia da polícia e a corrupção, o nepotismo e os baixos salários afetam negativamente a qualidade de tudo. Os políticos só se importam com o calendário eleitoral. Todo mundo quer o seu pirão primeiro.
Não consigo imaginar o que vai acontecer no Rio. O noticiário destaca que desta vez, diferentemente de outros incidentes espetaculares, a população consegue perceber claramente quem é do "bem" e apóia as ações dos policiais e militares. Mas se a situação é mesmo de guerra contra os narcotraficantes, a coisa está só começando. Até onde sei, também não vi nenhuma menção a diálogo entre a Prefeitura e as outras instâncias de governo. Só ouvi falar de Governo Federal e Governo Estadual conversando e combinando ações. Seja como for, tomara que uma instância não boicote a outra.
Também torço para que as tradicionais calamidades que assolam as grandes cidades(chuvaréu, deslizamentos e enchentes)não venham complicar ainda mais a vida do povo do Rio de Janeiro, onde tenho excelentes amizades. São pessoas do bem. Muitas delas nunca vi pessoalmente, só acho que conheço porque frequento os blogs. Sou besta e de tanto ler as coisas dessas pessoas, acabo por considerá-las amigos e amigas do peito. Tomara que estejam todos bem e em segurança.
Começarei outro dia a campanha pela volta do hífen.
Não conheço muita coisa do Rio e não tenho a menor noção dos problemas da cidade. Mas acho que falta infra-estrutura. Simplesmente porque falta infra-estrutura em todas as grandes cidades do país. Também faltam oportunidades e empregos, a educação é precária, os hospitais estão lotados, o transporte público é uma droga,a população desconfia da polícia e a corrupção, o nepotismo e os baixos salários afetam negativamente a qualidade de tudo. Os políticos só se importam com o calendário eleitoral. Todo mundo quer o seu pirão primeiro.
Não consigo imaginar o que vai acontecer no Rio. O noticiário destaca que desta vez, diferentemente de outros incidentes espetaculares, a população consegue perceber claramente quem é do "bem" e apóia as ações dos policiais e militares. Mas se a situação é mesmo de guerra contra os narcotraficantes, a coisa está só começando. Até onde sei, também não vi nenhuma menção a diálogo entre a Prefeitura e as outras instâncias de governo. Só ouvi falar de Governo Federal e Governo Estadual conversando e combinando ações. Seja como for, tomara que uma instância não boicote a outra.
Também torço para que as tradicionais calamidades que assolam as grandes cidades(chuvaréu, deslizamentos e enchentes)não venham complicar ainda mais a vida do povo do Rio de Janeiro, onde tenho excelentes amizades. São pessoas do bem. Muitas delas nunca vi pessoalmente, só acho que conheço porque frequento os blogs. Sou besta e de tanto ler as coisas dessas pessoas, acabo por considerá-las amigos e amigas do peito. Tomara que estejam todos bem e em segurança.
Começarei outro dia a campanha pela volta do hífen.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Greve de jardineiro engorda
Brasília é uma das cidades mais cheias de gramados que eu conheço. Todas as superquadras são gramadas. E é realmente um privilégio poder andar de manhã, bem cedo, em volta do gramado. Todos os dias eu passeio com o Rafa, o cãozinho shit-tsu da minha filha. No início, quando essa tarefa sobrou para mim, achei um saco. Mas hoje curto à beça o passeio com o cachorrinho.
A quadra é bem arborizada, existem algumas árvores frutíferas, como mangueiras, e de manhã é bem bacana porque é possível ver e escutar muitos pássaros. Já vi de tudo. Do currupião ao canário. De vez em quando chove, e por isso eu passeio de guarda-chuva. Mas no Planalto Central, basta uma chuvinha de nada para a grama crescer feito doida e virar matagal. Em poucos dias, o gramado amarelo ressecado se transformou em verde esmeralda.
Aí começou uma greve na empresa que cuida dos jardins da cidade. Era Novacap, mudou para Belacap, ou um nome parecido. Dezenas de jardineiros cruzaram os braços. O gramado da minha quadra sobe rapidamente. De manhã, o Rafa mergulha entre as moitas de gramado. Os pássaros enlouquecem. Cada pulo em moita levanta uma nuvem de insetos, comida fácil para os passarinhos. Os bichos estão gordões. Outro dia vi um João-de-Barro com dificuldades para entrar na casa dele.
A grama alta também dificulta o passeio com o Rafa. É que muita gente põe o empregado para passear com o cachorro. E os empregados não colocam a mão na massa, não recolhem o cocô do cachorro do patrão nem que a vaca tussa. Mas além dos empregados, muito patrão também faz cara de paisagem. Eu vejo muito marmanjo e muita dondoca fingindo que o cachorro não fez nada. Nessa hora dá vontade de ter um pitbull.
A quadra é bem arborizada, existem algumas árvores frutíferas, como mangueiras, e de manhã é bem bacana porque é possível ver e escutar muitos pássaros. Já vi de tudo. Do currupião ao canário. De vez em quando chove, e por isso eu passeio de guarda-chuva. Mas no Planalto Central, basta uma chuvinha de nada para a grama crescer feito doida e virar matagal. Em poucos dias, o gramado amarelo ressecado se transformou em verde esmeralda.
Aí começou uma greve na empresa que cuida dos jardins da cidade. Era Novacap, mudou para Belacap, ou um nome parecido. Dezenas de jardineiros cruzaram os braços. O gramado da minha quadra sobe rapidamente. De manhã, o Rafa mergulha entre as moitas de gramado. Os pássaros enlouquecem. Cada pulo em moita levanta uma nuvem de insetos, comida fácil para os passarinhos. Os bichos estão gordões. Outro dia vi um João-de-Barro com dificuldades para entrar na casa dele.
A grama alta também dificulta o passeio com o Rafa. É que muita gente põe o empregado para passear com o cachorro. E os empregados não colocam a mão na massa, não recolhem o cocô do cachorro do patrão nem que a vaca tussa. Mas além dos empregados, muito patrão também faz cara de paisagem. Eu vejo muito marmanjo e muita dondoca fingindo que o cachorro não fez nada. Nessa hora dá vontade de ter um pitbull.
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