Muitas coisas na vida da gente não dão certo. É como chegar do supermercado e perceber que aquele pacote com quatro lâminas de barbear que você comprou por uma ninharia não vão servir para nada. Você não tem o aparelho certo. As lâminas não encaixam. É uma sensação tão horrorosa quanto a perspectiva de ficar barbado para sempre. E justamente quando você achou que estaria levando a melhor sobre o sistema. Você volta ao supermercado e acaba comprando outro aparelho, porque não aceitam a devolução de produtos em promoção. Há sempre uma solução para tudo. E o mais importante é descobrir que as soluções que encontramos são absolutamente nossas. Sua e de quem te deu a idéia. Não dá para pensar em tudo, né?
Demorei muito a entender aquela coisa do livre arbítrio. Eu agora sei que muitas vezes não há uma recompensa para as decisões certas. Assim como muitas decisões erradas não acarretam punição, embora deixem uma sensação muito ruim no coração. Não há muita diferença entre Mach 3 e Sensor 3. Ambos servem para fazer a barba. Ou a careca. Mas é preciso ter o aparelho certo.
Tudo é metáfora. Tudo aquilo que aconteceu contigo no trote da faculdade deverá se repetir na sua vida profissional. Aquele ônibus errado que você pegou tem um significado extra. O motorista da sua vida não tem carteira de habilitação e está embriagado. Aqui se faz, aqui se enterra, diz o gato.
Adeus 2009, você já vai tarde.
Seja bem-vindo, 2010.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Mach 3 e Sensor 3
Eu gosto de ir ao supermercado. Minha mulher não gosta. Mas adora fazer compras. Para ela, seria melhor se o supermercado viesse até ela. Embora não tenha nada contra uma saidinha para ir ao shopping.
Felizmente, consegui me livrar da minha obsessão por prateleiras. A minha mania de ferramentas também está contida pela minha meta de economia. Desde que estabeleci controle mais rígidos para os meus impulsos gastadores, ir ao supermercado se tornou mais prazeroso. Não é que eu seja masoquista. Mas a verdade é que me sinto super bem ao olhar para uma ferramenta multiuso mini-retífica Dremmel e nem parar para ler as especificações técnicas. Passo direto. Também parei de analisar alicates, parafusadeiras, lixadeiras, plainas, serras tico-tico e furadeiras. Não fico mais tanto tempo na seção de ferramentas. Não analiso a composição de colas, tintas e material de bric-a-brac como antes. Para não dizer que estou completamente curado, de vez em quando compro uma caixa, pequena, de parafusos com bucha e fita isolante. Tenho uma gaveta quase cheia de fita isolante. Devo ser o único sujeito do mundo com fita suficiente para se isolar, de corpo inteiro, do elétrico universo circundante.
Pura poesia, né? Na verdade, se fosse possível qualificar o meu instinto poético eu diria que eu sou do tipo desconfiado. Desconfio tão intensamente das coisas que eu sinto, que chego a sentir as coisas que desconfio. (continua)
Felizmente, consegui me livrar da minha obsessão por prateleiras. A minha mania de ferramentas também está contida pela minha meta de economia. Desde que estabeleci controle mais rígidos para os meus impulsos gastadores, ir ao supermercado se tornou mais prazeroso. Não é que eu seja masoquista. Mas a verdade é que me sinto super bem ao olhar para uma ferramenta multiuso mini-retífica Dremmel e nem parar para ler as especificações técnicas. Passo direto. Também parei de analisar alicates, parafusadeiras, lixadeiras, plainas, serras tico-tico e furadeiras. Não fico mais tanto tempo na seção de ferramentas. Não analiso a composição de colas, tintas e material de bric-a-brac como antes. Para não dizer que estou completamente curado, de vez em quando compro uma caixa, pequena, de parafusos com bucha e fita isolante. Tenho uma gaveta quase cheia de fita isolante. Devo ser o único sujeito do mundo com fita suficiente para se isolar, de corpo inteiro, do elétrico universo circundante.
Pura poesia, né? Na verdade, se fosse possível qualificar o meu instinto poético eu diria que eu sou do tipo desconfiado. Desconfio tão intensamente das coisas que eu sinto, que chego a sentir as coisas que desconfio. (continua)
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Coisas a fazer antes da virada
Fiz uma lista hoje. Falta um montão de coisas para fazer antes da virada. A maior parte é organizar as coisas desse ano, que já acabou e não admite. E também pequenos consertos.
Já arrumamos os armários da cozinha. A máquina de lavar louça (que foi detonada pelo cara que arrumou os armários da cozinha). As lâmpadas do banheiro. As lâmpadas dicróicas que estavam de reatores queimados. Pendurei os dois painéis de metal que usamos para pendurar recados, fotos e outras coisas legais no quarto do meu filho e no meu quarto. Disfarcei todas as mordidas do Rafael nos móveis da sala (usei graxa de sapato preta, e quase não se percebe os cantos roídos e os outros arranhões).
Hoje arrumei o meu pc. Fui no cara que sempre consertava, mas ele fechou a loja. Mudou de ramo. Agora o negócio dele é tatuagem. Eu não preciso consertar a minha tatuagem. Até mesmo porque não tenho tatuagem, já quis ter, mas faltou coragem. Ele também faz piercing. Mas eu também não tenho piercing. Já quis ter um piercing no nariz, mas de manhã eu espirro muito, teria sido um transtorno dolorido.
Seja como for, o cara mudou de ramo. Encontrei um outro cara que abriu uma loja pertinho. Expliquei para ele que o computador havia parado de funcionar. Que não reinicializava nem a pau. E que eu suspeitava de um problema elétrico, uma perda de pilha, ou um problema na fonte. O cara fez hum, hum, como só os informáticos sabem fazer. Mas foi profissional, não me olhou como se eu fosse uma ameba que só sabe mexer no teclado. E num instante ele encontrou o problema do pc.
_O que aconteceu? - eu perguntei.
_Não tenho a menor idéia. Primeiro não ligou com a sua fonte. Ligou com outra fonte. Depois ligou com a sua fonte. Depois não ligou. Testei a fonte mas ela está legal. Agora ligou. Não sei o que aconteceu. Juro.
Por via das dúvidas, ligamos e desligamos o computador umas vinte vezes. Não falhou nenhuma vez.
_E quanto foi? - eu perguntei.
_Nada. Não possou cobrar pelo que não sei se fiz.
_Cobre pelo seu tempo.
Ele cobrou. Cheguei em casa e testei o pc. Está funcionando. Fiz a lista de coisas que ainda preciso fazer nele, no velho e bom pc. Ainda falta muita coisa.
Já arrumamos os armários da cozinha. A máquina de lavar louça (que foi detonada pelo cara que arrumou os armários da cozinha). As lâmpadas do banheiro. As lâmpadas dicróicas que estavam de reatores queimados. Pendurei os dois painéis de metal que usamos para pendurar recados, fotos e outras coisas legais no quarto do meu filho e no meu quarto. Disfarcei todas as mordidas do Rafael nos móveis da sala (usei graxa de sapato preta, e quase não se percebe os cantos roídos e os outros arranhões).
Hoje arrumei o meu pc. Fui no cara que sempre consertava, mas ele fechou a loja. Mudou de ramo. Agora o negócio dele é tatuagem. Eu não preciso consertar a minha tatuagem. Até mesmo porque não tenho tatuagem, já quis ter, mas faltou coragem. Ele também faz piercing. Mas eu também não tenho piercing. Já quis ter um piercing no nariz, mas de manhã eu espirro muito, teria sido um transtorno dolorido.
Seja como for, o cara mudou de ramo. Encontrei um outro cara que abriu uma loja pertinho. Expliquei para ele que o computador havia parado de funcionar. Que não reinicializava nem a pau. E que eu suspeitava de um problema elétrico, uma perda de pilha, ou um problema na fonte. O cara fez hum, hum, como só os informáticos sabem fazer. Mas foi profissional, não me olhou como se eu fosse uma ameba que só sabe mexer no teclado. E num instante ele encontrou o problema do pc.
_O que aconteceu? - eu perguntei.
_Não tenho a menor idéia. Primeiro não ligou com a sua fonte. Ligou com outra fonte. Depois ligou com a sua fonte. Depois não ligou. Testei a fonte mas ela está legal. Agora ligou. Não sei o que aconteceu. Juro.
Por via das dúvidas, ligamos e desligamos o computador umas vinte vezes. Não falhou nenhuma vez.
_E quanto foi? - eu perguntei.
_Nada. Não possou cobrar pelo que não sei se fiz.
_Cobre pelo seu tempo.
Ele cobrou. Cheguei em casa e testei o pc. Está funcionando. Fiz a lista de coisas que ainda preciso fazer nele, no velho e bom pc. Ainda falta muita coisa.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Rafael é um cão diferente
Choveu muito nesses dias de festa. E o Rafael, o cãozinho shi tsu daqui de casa, se esbaldou de correr para um lado e para outro. Especialmente no dia 25 de dezembro, quando ele passou o dia inteiro correndo atrás do Prince, um falso poodle-toy de propriedade da prima da minha filha. Rafa é só um filhote de seis meses, da mesma idade do poodle que não é toy, é um poodle normal. Mas que foi comprado como "toy". Pois o Rafa e o Prince passaram o dia correndo um atrás do outro, foi uma canseira danada.
_Careca, olha só o que o seu cachorro está fazendo com o cachorro da minha filha! - disse o meu co-cunhado.
_Caramba! Tapem os olhos das crianças! Isso é filme triple x!
_Desempata que é briga! - disse a minha cunhada.
_Não, repara bem. Love is in the air!
_E o Rafa é tão baixinho!
_Parece que o Prince deu pezinho pra ele alcançar!
_É safardanagem descarada!
_Quiéisso! São dois filhotes inocentes!
_É, é só uma sacanagem inocente!
_Inocente, nada. O Prince já está pedindo preservativos com sabor morango...
A coisa durou umas sete horas, no máximo, foi esse o tempo que passei na casa do meu co-cunhado. Na saída, ele ainda ofereceu para ficar com o Rafael, quando estivermos viajando. Minha mulher e eu agradecemos ao cunhado, mas nós achamos melhor deixar o Rafa em outro lugar.
De volta à casa, foi preciso lavar o Rafael com sabão de coco e secar bem. No dia seguinte, ele estava feliz e bem disposto. E acabou se molhando e ficando um bocado sujo com as crianças no parquinho. Hoje, segunda-feira, nós escoltamos o pequeno shitsu até o pet-shop para uma lavada caprichada.
Uma hora depois, eu fui buscá-lo no pet-shop. O atendente quis, primeiro, me empurrar um outro shitsu, com manchas amarelas e pinta de ser uma fêmea. O Rafa é inconfundível, com manchas pretas e um jeitão brincalhão. Rafa protestou na gaiola e só sossegou quando eu o peguei.
Mas alguma coisa aconteceu com o cãozinho. Ele está bem tristonho e sonolento. Brinquei com as crianças, dizendo que o Rafa de verdade tinha ficado no pet-shop, aquele era um falso Rafa.
_É mesmo, paiê. Esse não é o Rafa. O Rafa é mais alegre e me lambe quando eu abraço ele, assim,ó, viu? - disse a minha filha, dona do cãozinho.
Mas é mesmo o Rafa. Fizemos todos os testes possíveis de reconhecimento no bicho. E ele achou a tigela de comida rapidinho. Só está meio brocochô. Queria que fosse apenas saudades do Prince, mas acho que o pobrezinho foi maltratado no pet-shop. É muito triste, bicho triste.
_Careca, olha só o que o seu cachorro está fazendo com o cachorro da minha filha! - disse o meu co-cunhado.
_Caramba! Tapem os olhos das crianças! Isso é filme triple x!
_Desempata que é briga! - disse a minha cunhada.
_Não, repara bem. Love is in the air!
_E o Rafa é tão baixinho!
_Parece que o Prince deu pezinho pra ele alcançar!
_É safardanagem descarada!
_Quiéisso! São dois filhotes inocentes!
_É, é só uma sacanagem inocente!
_Inocente, nada. O Prince já está pedindo preservativos com sabor morango...
A coisa durou umas sete horas, no máximo, foi esse o tempo que passei na casa do meu co-cunhado. Na saída, ele ainda ofereceu para ficar com o Rafael, quando estivermos viajando. Minha mulher e eu agradecemos ao cunhado, mas nós achamos melhor deixar o Rafa em outro lugar.
De volta à casa, foi preciso lavar o Rafael com sabão de coco e secar bem. No dia seguinte, ele estava feliz e bem disposto. E acabou se molhando e ficando um bocado sujo com as crianças no parquinho. Hoje, segunda-feira, nós escoltamos o pequeno shitsu até o pet-shop para uma lavada caprichada.
Uma hora depois, eu fui buscá-lo no pet-shop. O atendente quis, primeiro, me empurrar um outro shitsu, com manchas amarelas e pinta de ser uma fêmea. O Rafa é inconfundível, com manchas pretas e um jeitão brincalhão. Rafa protestou na gaiola e só sossegou quando eu o peguei.
Mas alguma coisa aconteceu com o cãozinho. Ele está bem tristonho e sonolento. Brinquei com as crianças, dizendo que o Rafa de verdade tinha ficado no pet-shop, aquele era um falso Rafa.
_É mesmo, paiê. Esse não é o Rafa. O Rafa é mais alegre e me lambe quando eu abraço ele, assim,ó, viu? - disse a minha filha, dona do cãozinho.
Mas é mesmo o Rafa. Fizemos todos os testes possíveis de reconhecimento no bicho. E ele achou a tigela de comida rapidinho. Só está meio brocochô. Queria que fosse apenas saudades do Prince, mas acho que o pobrezinho foi maltratado no pet-shop. É muito triste, bicho triste.
domingo, 27 de dezembro de 2009
A virada está quase aí
Toda vez que eu penso em passagem de ano eu me lembro das viagens de automóvel, com a família. Nós ficávamos de olho nas placas das divisas entre os Estados e quando faltava cinco quilômetros para a divisa todo mundo começava a berrar a sigla do Estado de saída:
_DF,DF,DF,DF,DF,DF,DF,DF,DF,DF,DF,DF,DF,DF...
E assim que passávamos debaixo do arco de metal com a placa de divisa, na saída do Distrito Federal, o coro mudava para GO,GO,GO,GO. Era um prazer bem infantil. Uma bobagem divertida. Por isso mesmo mantida com o devido carinho com os meus filhos. Em toda viagem que fazemos de carro, o ato de berrar a sigla do estado "sainte" e a do estado "chegante" é exaustivamente repetido. Quanto mais longa a viagem, melhor.
Em final de ano eu fico quase do mesmo jeito. Fico com aquela expectativa infantil sobre o que pode surgir depois da badalada final de 2009. Felizmente, é uma expectativa positiva. E quando eu olho para trás, para o ano que passou, agradeço pelas coisas boas que aconteceram.
2009, 2009, 2009, 2009,2009, 2009, 2009, 2009,2009, 2009, 2009, 2009,...
_DF,DF,DF,DF,DF,DF,DF,DF,DF,DF,DF,DF,DF,DF...
E assim que passávamos debaixo do arco de metal com a placa de divisa, na saída do Distrito Federal, o coro mudava para GO,GO,GO,GO. Era um prazer bem infantil. Uma bobagem divertida. Por isso mesmo mantida com o devido carinho com os meus filhos. Em toda viagem que fazemos de carro, o ato de berrar a sigla do estado "sainte" e a do estado "chegante" é exaustivamente repetido. Quanto mais longa a viagem, melhor.
Em final de ano eu fico quase do mesmo jeito. Fico com aquela expectativa infantil sobre o que pode surgir depois da badalada final de 2009. Felizmente, é uma expectativa positiva. E quando eu olho para trás, para o ano que passou, agradeço pelas coisas boas que aconteceram.
2009, 2009, 2009, 2009,2009, 2009, 2009, 2009,2009, 2009, 2009, 2009,...
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