terça-feira, 31 de março de 2009

O pensamento da força


A força do pensamento
Vi na Internet as notícias sobre o robô japonês que é movido pelo pensamento. Às vezes, eu me sinto bem retrô, como os japoneses, que desde sempre amam a tecnologia, os desenhos animados, os dinossauros godzillas e os robôs. Todas aquelas crianças de olhos puxados do Oriente tomarão conta do mundo, em breve.
Ainda lembro do tempo em que eu queria saber japonês, aprender mandarim.
Diz a notícia : “técnica lê padrões das correntes elétricas pelo couro cabeludo da pessoa, bem como pelo fluxo sanguíneo cerebral; com isso, o equipamento identifica quatro movimentos simples: mover a mão direita, a esquerda, trotar e comer. A Honda conseguiu analisar tais padrões de pensamento e, em seguida, transmitir-lhes como comandos sem fios para o robô Asimo.”
Fico pensando: e se a máquina só lê pensamento de japonês? E se o meu pensamento disparar algum mecanismo de auto-destruição do robô? E se, por um erro de tradução, o robô começar a se coçar, feito um chimpanzé? E se eu pensar em japonês e o robô mover a mão com sotaque?
Já imaginaram uma máquina dessas em casa? Você nem precisaria abrir a boca. Robô, limpe tudo. Robô, traz uma gelada. Robô, vá passear com o cachorro. Caramba! Puro Jetsons-Akira.

Um piquenique na beira do abismo
Estamos nessa há muito tempo, mas só agora reparamos que as formigas já terminaram com os picles.

O declínio do império norte-americano
Sim, é um declive. Mas quem é que está por cima?

segunda-feira, 30 de março de 2009

Toca aquela, toca aquela!

Quase tudo na vida é metáfora. Como já disse o Fernando Pessoa, a gente finge tão completamente que aquilo acaba sendo aquilo mesmo. E uma das melhores metáforas da vida é aquela história do amigo músico. Todo mundo já teve ou tem um amigo que foi ou é músico, coitado, que numa época da vida acreditou em Papai Noel e também que seria possível viver de música.
Não estou sendo irônico, nem nada.
Isso aconteceu com um monte de amigas e amigos meus. Eles embarcaram nessa canoa e somente uns três ou quatro navegaram até o porto seguro dos mares da melodia. A maioria deu com os burros n’água. Outros desistiram antes da lama chegar até a canela, o que poupou alguns vexames bancários, mas deixou a vida dessas pessoas mais sem-graça. Ao menos para mim, que gostava de vê-los tocar e de cutucar mocinhas bonitas na platéia dizendo que era chapa dos músicos. Tudo muda. Sucesso não tem fórmula e as coisas que ficam ninguém sabe, até que ficam. De vez em quando alguns deles ainda tocam, chamam a gente para as apresentações. Mas eles estão ficando cada vez mais velhos e cheios de manias. E esquecidos também.
_Toca aquela! Toca aquela! – eu sempre pedia para os meus amigos músicos, ao final de uma apresentação. E quase sempre era uma música que eu gostava e que não tinha nada a ver com o repertório da moçada. Eles me olhavam com espanto, mas eu não me achava inconveniente.
Outra parte dos meus amigos que eram músicos tentou conciliar duas atividades até onde desse, a vida careta com a vida de artista da música. Esses sofreram mais tempo. Pois chega uma hora em que é preciso optar, ou se deslancha uma ou a outra atravanca. E o sofrimento decorre de se achar que se perdeu tempo precioso.
A verdade é que estamos sempre sob o dilema do diletantismo. Todo mundo quer fazer só o que gosta. Mas até mesmo o que se gosta às vezes torra “El saquito”, o que exige um esforço considerável para auto-superação.
Estou falando tudo isso porque não sei tocar nada, nem campainha. E isso já me gerou imensa frustração, até tentei aprender a tocar violão, uma época. Depois eu quis aprender a tocar bateria. Depois bongô, pandeiro e triângulo. Hoje sou metido a desenhista. Carrego um moleskine sketchbook para todo lugar. E em todo lugar, faço uma pausa para um rabisco qualquer. Puro exibicionismo, é verdade. Mas todo mundo tem orgulho do que faz.
É uma mania assumida, que durante anos sufoquei com rabiscos em guardanapos, nas costas de filipetas e na parte não impressa dos folhetos. Sempre rabisquei. Aí, quando me lembrava, carregava aquelas folhas xumbregas para casa, que num instante eram confundidas com o lixo que efetivamente eram e jogadas fora. Durante anos fiz ilustrações apressadas que acabaram numa lixeira de um prédio de apartamentos ou no cesto de papéis do carro. Tenho certeza de que fiz grandes desenhos, mas os meus principais críticos foram os roedores ou insetos cascudos.
Um dia eu decidi que iria guardar os desenhos. E para não desperdiçar os rabiscos e valorizar o que eu fizesse, o suporte teria que ser caro. Por isso escolhi os moleskines, que são adoráveis, mas custam uma fortuna. Apesar de usar caneta gel preta, nunca rascunho os desenhos. Eles têm que nascer limpos, prontos para o moleskine. Algum dia farei uma seleção, publico num outro blog, sei lá. Estão ali. Não jogo fora. Tenho orgulho deles. Tenho controle completo e absoluto sobre o que desenho nos cadernos.
_Por que você não desenha aquilo? – pergunta uma pessoa, quando eu mostro o meu moleskine.
_Aquilo eu não quero desenhar – eu explico. E digo também que sou um exibicionista pernóstico, que mostra os desenhos e desdenha a crítica.
_Ah, você não sabe, né? - desdenha a pessoa.
_Não, eu não quero desenhar aquilo - eu repito a mesma frase em outra ordem.
_Tenho um primo que sabe desenhar aquilo muito bem - volta a desdenhar a pessoa, com a mesma lógica.
_Então, pede pra ele - eu digo, sem pensar.
_Além de bom desenhista, meu primo também é muito educado - encerra a pessoa.
Eu desisti de tentar vencer batalhas verbais depois que um idiota quebrou o meu nariz só porque eu estava namorando a mesma garota que ele. De qualquer modo, só agora, depois de muitos moleskines preenchidos, é que eu entendo o olhar sobranceiro que o tocador de violão sempre me dava quando eu pedia uma música qualquer, fora do repertório.
_Posso desenhar aqui, paiê? – pergunta a minha filha de quatro anos, cada vez mais linda.
E para ela também digo não. Mas estendo uma folha em branco, mais pesada, que uso como mata-borrão, para que ela também desenhe com uma caneta gel. Os desenhos dela e também os do meu filho, guardo num envelope que os moleskines têm, na contracapa. No caderninho, todos os desenhos são meus.

sábado, 28 de março de 2009

As leis da ergonomia

Está impossível digitar nos últimos dias. A sala ainda está inconclusa. As paredes estão um pouco piores. Mas olhando com otimismo, falta pouco.

Olhando com pessimismo a visão é outra. Falta pouco para o meu colapso.

De qualquer modo, o meu assunto é ergonòmico. Sempre achei teclado de laptop a coisa mais chata do mundo para digitar. E como estou improvisando com um laptop montado próximo à saída do cabo de rede, que também é cabo da tv a cabo, estou me sentindo um pouco corcunda.

Tentei fazer diferente, rascunhando o texto no papel, mas é muito diferente. No papel fico preciosista, mais cuidadoso, não sei o motivo. E também fico sem ritmo. Tenho navegado um bocado. Opinado pouco. O mundo real anda tomando todo o meu tempo. Estamos nos habituando a espaços menores, aos poucos. E com a sala e a varanda em obras, nos refugiamos no quarto do primogenito, onde as duas crianças agora dormem.

Me dá um orgulho danado perceber que somos flexíveis, podemos suportar algum sacrifício com estoicismo. Ninguém se queixa e continuamos a levar a vida normalmente. Só não consigo ficar sem me queixar da posição horrorosa desse teclado.

Obrigado a todos pelas mensagens de incentivo. Em abril, acho que o Careca voltará com mais gás, digitando na varanda renovada.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Mais sobre a reforma

Pessoal, estamos sobrevivendo. A sala está com contrapiso novo. As paredes estão quebradas. Já consegui dominar a compulsão para o choro convulsivo. Mais umas semanas e estarei internado, digo, e tudo terá terminado.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Mulher nunca dá passagem

Sou um cara que procura conviver razoavelmente bem com os outros seres humanos, respeitadas as devidas diferenças, sem apologias e sem desdém para o que é minoritário, para o que é de foro íntimo e para as diferenças no corpo-humano, da cor da pele ao número de membros inteiros. Não sou anti-gay, nem pró-boiola, estou mais para misantropo. Não sou anti-índio, nem pró-reserva, mas queria uma Lei do Índio melhor e uma Reforma Agrária bem-feita, inteligente.
Fora do contexto, com a mera observação de frases isoladas, como qualquer ser humano, sou aparentemente sexista. Como na frase “mulher ao volante nunca dá passagem”.
Tirante o fato de que isso é a mais pura verdade e que essa convicção está firmemente calcada na experiência do dia-a-dia, posso dizer, com tranqüilidade, que admiro e gosto muito da maioria das mulheres que conheço. No meio do balde, como em qualquer balde, existem algumas maçãs atrás do volante que não são muito boas, o que se há de fazer. Agora, não seja ingênuo ou melindrosa. Se você entrar na frente de uma mulher, acreditando que ela há de diminuir e dar passagem, esteja em dia com o seguro.
Toda essa longa introdução tem o objetivo maior de tecer comentários sobre dois palpitantes assuntos dessa semana, ó minha Kombi de leitores: a demarcação de terras na Raposa do Sol e o prêmio cultural pró-gay LGBT 2009 do Minc. A idéia do prêmio é reconhecer projetos que tenham contribuído para o combate à homofobia e para o aumento da visibilidade e da valorização do setor LGBT – clique no link :
Não acho legal usar recurso público para enfatizar e reforçar opção sexual e nem para combater homofobia ou agorafobia. Prêmio cultural é uma maneira bacana de dar dinheiro para os escritores, cineastas, poetas, jabazeiros e amigos sem grana que a gente gosta. Esse é um propósito nobre e para isso se constroem as networks, as igrejinhas e panelinhas. Mas é preciso disfarçar melhor a maneira como isso é feito. Até para motivar uma discussão mais inócua e elevada entre os intelectuais sobre critérios e outras filosofices.
Veja bem, um projeto que contribui para o combate à homofobia, como, por exemplo, hum, o filme “300” , é da maior validade. Só não acho que isso acrescente algo à minha parca e porca cultura. Também fico imaginando o Comitê de Avaliação de Projetos Inscritos para receber o prêmio. As discussões da tchurma.
_Meu querido, nunquinha que aquele projeto combateu a homofobia.
_Afe, não só combateu como até nocauteou a coitadinha.
_Não combateu.
_Combateu, combateu, combateu.
A mesma coisa vale para a reserva contínua de terras da Serra Raposa do Sol. Não acho legal que a terra da fronteira do MST seja distribuída para os arrozeiros. Por outro lado, os índios têm toda razão em querer ter um país só para eles. Mas para não perder território, deveríamos invadir algum país mais próximo do primeiro-mundo, senão jamais chegaremos lá.
Para encerrar, devo dizer que acredito que aqui se faz, aqui se paga. E nem quero aqui começar a acreditar em duendes e fadinhas após denunciar esse terrível hábito do mulherio em recusar a passagem no trânsito em qualquer lugar desse país. Existem exceções que confirmam a regra, é claro, mas elas estão concorrendo ao prêmio do MinC.
Ouvi dizer que na Argentina é diferente, mas mente-se muito sobre a Argentina e suas mulheres. E lá, o que é diferente, costuma ser pior. Maradona, por exemplo, é um Rivelino mais baixinho e sem bigode. Agora, na Espanha e nos EUA, eu sei que a regra brasileira é super-válida: mulher também não dá passagem.

Reforma do Apê do Careca: Apesar da extraordinária audiência desse blog, são tantos e tantos e-mails que só consigo responder a dois ou três, quero agradecer de público as centenas de mensagens que tenho recebido de empresas fantasmas e golpistas me oferecendo apoio, incentivo e pedindo dinheiro. Valeu!

Frase do dia