Minha mulher adora bolsas. E nestes mais de 15 anos de casados, ela já teve uma porção delas, tantas que perdi a conta. Basta dizer que ela costuma usar rotineiramente umas 4 bolsas, alternando o uso entre o trabalho e as outras saídas cotidianas. Multiplique pelos dias úteis da semana e você já sabe quantas bolsas ela usa por mês.
Homem é diferente, é claro. Eu só uso uma única bolsa, preta, tipo capanga com aba. Tem bem uns 10 anos. Antigamente eu usava uma pochete, mas este foi um dos itens condicionais para o matrimônio. Ela só aceitou a aliança depois que eu prometi que não usaria a pochete, o pulôver sobre os ombros e nem a capa de telefone celular(o Neo) clipada no cinto. Eu parecia o Batman, fala a verdade!
Mas isso acabou. Embora reconheça que minha mania de pochete fosse imensa. Era tão grande que demorei uns 10 anos só para deixar de procurar coisas na minha cintura. Em plena crise de abstinência de pochete aderi ao chaveiro-mosquetão. Ando sempre com dois. Tenho mais chaves que um guarda penitenciário de filme antigo. E cópias. Organizadas em chaveiros-mosquetão.
O pulôver foi mais fácil de parar de usar nos ombros, nem penso mais nisso, ainda mais agora que faz calor em plena temporada de chuva. Além disso, o pulôver nos ombros ficou marcado como coisa de coroa, e coroas como eu não querem parecer ainda mais coroas. Só ando com ele amarrado na cintura. Minha mulher se afasta rápido quando amarro o pulôver e age como se não me conhecesse, apressando o passo. Aí eu também ando mais rápido, tentando alcançá-la, é uma confusão. Uma vez um guardinha chegou a me abordar no shopping.
_A senhora conhece esse homem? - ele disse.
Minha mulher balançou a cabeça e o guardinha deu aquela pegada de pinça mecânica de caranguejo no meu pobre braço.
_É minha mulher! É minha esposa! - eu disse.
_Vamos conversar lá na salinha - disse o segurança.
_Eu posso provar, eu tenho a certidão de casamento aqui, ó - e eu puxo o documento, as certidões de nascimento das crianças, mostro o nome dela gravado na aliança. O guardinha, a contragosto, acabou se convencendo.
Só de pirraça, essa não foi a última vez que amarrei o pulôver na cintura. Ainda hoje, quando uso pulôver, eu amarro ele na cintura e minha mulher dispara a andar depressa só que eu não tento mais alcançá-la. Fico na minha, seguindo à distância, fingindo olhar as vitrines, atento às suas tentativas de se misturar com a multidão, como se eu fosse um agente secreto perseguindo uma espiã. Por alguns poucos minutos, coisa pouca mesmo, ela consegue escapar do meu campo de visão. Posso apostar que é nesse tempinho de nada que ela escolhe uma nova bolsa.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
Eu sou Charlie
Opinião não é crime. Pode ser um engano, um embuste, mau-gosto, errada, torta, enviesada, oblíqua, obtusa, mas não é crime.
Opinião também pode ser boa, excelente, enriquecedora, iluminadora, esclarecedora, bela, charmosa, inteligente, engraçada, crítica, simples, agradável, e nada disso é criminoso.
O exercício da opinião é libertador e essencialmente bom.
Nada justifica o terror, pois o terror jamais poderá ser justo ou justificado.
Opinião também pode ser boa, excelente, enriquecedora, iluminadora, esclarecedora, bela, charmosa, inteligente, engraçada, crítica, simples, agradável, e nada disso é criminoso.
O exercício da opinião é libertador e essencialmente bom.
Nada justifica o terror, pois o terror jamais poderá ser justo ou justificado.
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Corujas
Duas corujas "buraqueiras" se instalaram aqui em casa. Elas passam horas sobre uma luminária da janela do escritório e de vez em quando vão checar o ninho, feito dentro de uma saída pluvial no meio-fio. Acho que o cano deve estar entupido, pois tem chovido um bocado e as corujas continuam a entrar e sair do cano quando bem entendem.
É ótimo ter duas corujas em casa, o único inconveniente é que às vezes me esqueço delas. Outro dia, por exemplo, abri a janela do escritório distraído e comecei a escutar um barulho estranho, um "toc-toc-toc". Quando olhei para cima, uma das corujas estava com as asas abertas e ameaçava me atacar, fazendo "toc-toc-toc", um barulho que parecia vir de um bicho maior e mais violento do que uma coruja.
Tenho quase certeza de que uma delas é a mesma coruja que expulsei da oficina no final do ano passado, que eu fiquei chamando de Matilda. A outra, mais gordinha e um pouco menor, eu chamei de Gertrudes. Minha filha foi a primeira a observar que eu precisava mudar os nomes.
_Paiê, isso não está certo. É um casal de corujas. Um pai e uma mãe. Não pode ter dois nomes de menina - ela disse.
_Pensei nisso, pensei nisso. Mas veja bem. Eu não sei, e nunca vou saber, se essa que eu chamo de Matilda é uma menina ou menino. Pelo jeitão, pela agressividade - ela faz "toc-toc-toc" o tempo todo pra mim - ela bem que pode ser o homem da casa. Mas não tenho certeza. E se você quer saber, gostei de Matilde. Por outro lado, a Gertrudes é bem fofinha, parece que vai botar uns ovos, mas também pia forte e já me deu um rasante quando esqueci das duas e fui pegar o jornal na calçada. Então não dá pra ter certeza de que ela é ela. Ela pode ser ele. Por isso, ao invés de Gertrudes, eu pensei em um nome neutro, tipo Valdeci, que pode ser homem ou mulher, mas achei que não ficaria bem numa coruja. Pensando melhor, um nome neutro não fica bem em criatura nenhuma, né?
_E se a gente chamasse a Matilda de Alexandre? - ela disse.
_Ué, pode chamar. Mas para mim, vai continuar a ser Matilda.
_Mas aí não vale. Tem que ser um nome só.
_Aí é que você se engana. As duas são selvagens, a gente pode chamar do que for que elas nunca vão atender. Não é que nem o Rafa, elas nunca vão brincar de buscar e trazer com a gente.
_Bem que seria legal.
_E a Gertrudes, não vai trocar de nome? - eu disse.
_Harry - disse a minha filha.
_Harry? Como assim? Não foi você mesmo que disse que era um casal?
_E foi você que disse que não dá para saber o sexo de nenhuma das corujas.
_Não é sexo que se diz, é gênero - eu disse.
_Ah, sei lá, paiê, vai ver é um casal gay, ué.
É ótimo ter duas corujas em casa, o único inconveniente é que às vezes me esqueço delas. Outro dia, por exemplo, abri a janela do escritório distraído e comecei a escutar um barulho estranho, um "toc-toc-toc". Quando olhei para cima, uma das corujas estava com as asas abertas e ameaçava me atacar, fazendo "toc-toc-toc", um barulho que parecia vir de um bicho maior e mais violento do que uma coruja.
Tenho quase certeza de que uma delas é a mesma coruja que expulsei da oficina no final do ano passado, que eu fiquei chamando de Matilda. A outra, mais gordinha e um pouco menor, eu chamei de Gertrudes. Minha filha foi a primeira a observar que eu precisava mudar os nomes.
_Paiê, isso não está certo. É um casal de corujas. Um pai e uma mãe. Não pode ter dois nomes de menina - ela disse.
_Pensei nisso, pensei nisso. Mas veja bem. Eu não sei, e nunca vou saber, se essa que eu chamo de Matilda é uma menina ou menino. Pelo jeitão, pela agressividade - ela faz "toc-toc-toc" o tempo todo pra mim - ela bem que pode ser o homem da casa. Mas não tenho certeza. E se você quer saber, gostei de Matilde. Por outro lado, a Gertrudes é bem fofinha, parece que vai botar uns ovos, mas também pia forte e já me deu um rasante quando esqueci das duas e fui pegar o jornal na calçada. Então não dá pra ter certeza de que ela é ela. Ela pode ser ele. Por isso, ao invés de Gertrudes, eu pensei em um nome neutro, tipo Valdeci, que pode ser homem ou mulher, mas achei que não ficaria bem numa coruja. Pensando melhor, um nome neutro não fica bem em criatura nenhuma, né?
_E se a gente chamasse a Matilda de Alexandre? - ela disse.
_Ué, pode chamar. Mas para mim, vai continuar a ser Matilda.
_Mas aí não vale. Tem que ser um nome só.
_Aí é que você se engana. As duas são selvagens, a gente pode chamar do que for que elas nunca vão atender. Não é que nem o Rafa, elas nunca vão brincar de buscar e trazer com a gente.
_Bem que seria legal.
_E a Gertrudes, não vai trocar de nome? - eu disse.
_Harry - disse a minha filha.
_Harry? Como assim? Não foi você mesmo que disse que era um casal?
_E foi você que disse que não dá para saber o sexo de nenhuma das corujas.
_Não é sexo que se diz, é gênero - eu disse.
_Ah, sei lá, paiê, vai ver é um casal gay, ué.
domingo, 4 de janeiro de 2015
Fazendo sala
Os conselhos maternos são sábios e os bons exemplos também. Me arrependo profundamente de não ter aprendido com a minha mãe a fazer uma boa sala. Oportunidade não faltou. Ela até hoje faz uma sala fantástica, cheia de atenções e mimos, com o cafezinho chegando na hora certa, no tempo justo e perfeito. Não é só uma questão de encaixar uma boa conversa, fazer as perguntas no momento adequado, ouvir pacientemente e manter a cara de interessado no assunto quase sempre rotineiro e insípido das conversas cotidianas. É fazer tudo isso de coração aberto, coisa que não se finge nem se encena, é meio que um exercício de poesia. Ou todos os versos são bons e compõem uma coisa boa, ou tudo desanda e se acaba em rima pobre, a visita se irrita e quer sair logo da casa da gente.
Vendo a minha mãe, passei a dividir as pessoas em "saleiras" e "não-saleiras", não tem meio termo. Quem faz sala mais ou menos é ruim de xinfra, o "saleiro" de verdade não tem dia ruim, é quase sempre bom e muitas vezes excelente. Por isso, embora de vez em quando eu possa acertar mais do que errar, reconheço que sou do tipo "não-saleiro". Já tentei atribuir meus fracassos à minha mãe, que desde os meus tempos de menino sempre recebeu muita visita, tanta que eu acabava indo para os fundos da casa, cansado e entediado da conversa adulta que não entendia e que não me interessava. Mas um dia finalmente aprendi que os filhos culpam os pais por suas próprias falhas e que a maturidade só nos chega quando paramos de apontar para os outros e batemos no peito, arrependidos e com humildade sincera, e assumimos os nossos malfeitos e as decisões estúpidas.
O problema é que agora eu já estou meio chucro, feito pau torto, desaprendo mais do que aprendo as coisas. Então eu faço sala para as visitas observando a minha mulher, que é bem "saleira" e sabe tirar café na hora mais adequada. Sozinho eu me atrapalho todo, fico oferecendo coisas sem parar, interrompo conversa embalada, levanto antes da hora ou lembro de coisas urgentíssimas e sem a menor importância e perco o fio da meada no meio de um papo bacana.
_(...) E então, o que você acha? - perguntou outro dia uma visita importante, uma pessoa muito querida que veio me visitar.
_Hum, sobre isso não tenho opinião formada - eu disse.
_Como assim?
_Preciso refletir mais sobre o assunto. Ainda é cedo para ser assim...taxativo - eu disse, bem sério.
_Eu só perguntei se você acha que vai chover, criatura!
_Talvez. Que tal um cafezinho?
Sou eu, "não-saleiro".
Vendo a minha mãe, passei a dividir as pessoas em "saleiras" e "não-saleiras", não tem meio termo. Quem faz sala mais ou menos é ruim de xinfra, o "saleiro" de verdade não tem dia ruim, é quase sempre bom e muitas vezes excelente. Por isso, embora de vez em quando eu possa acertar mais do que errar, reconheço que sou do tipo "não-saleiro". Já tentei atribuir meus fracassos à minha mãe, que desde os meus tempos de menino sempre recebeu muita visita, tanta que eu acabava indo para os fundos da casa, cansado e entediado da conversa adulta que não entendia e que não me interessava. Mas um dia finalmente aprendi que os filhos culpam os pais por suas próprias falhas e que a maturidade só nos chega quando paramos de apontar para os outros e batemos no peito, arrependidos e com humildade sincera, e assumimos os nossos malfeitos e as decisões estúpidas.
O problema é que agora eu já estou meio chucro, feito pau torto, desaprendo mais do que aprendo as coisas. Então eu faço sala para as visitas observando a minha mulher, que é bem "saleira" e sabe tirar café na hora mais adequada. Sozinho eu me atrapalho todo, fico oferecendo coisas sem parar, interrompo conversa embalada, levanto antes da hora ou lembro de coisas urgentíssimas e sem a menor importância e perco o fio da meada no meio de um papo bacana.
_(...) E então, o que você acha? - perguntou outro dia uma visita importante, uma pessoa muito querida que veio me visitar.
_Hum, sobre isso não tenho opinião formada - eu disse.
_Como assim?
_Preciso refletir mais sobre o assunto. Ainda é cedo para ser assim...taxativo - eu disse, bem sério.
_Eu só perguntei se você acha que vai chover, criatura!
_Talvez. Que tal um cafezinho?
Sou eu, "não-saleiro".
sábado, 3 de janeiro de 2015
Maçãs
Depois que eu vi a cena na internet, fiquei relutante em relação a maçãs. Neste vídeo a moça explica que as maçãs dos supermercados e até das feiras estão sendo vendidas com grossas camadas de cera. Para demonstrar, a moça pega uma maçã do cesto de frutas e com uma faquinha faz uma raspagem de leve. A faquinha fica coberta de cera. Então ela lava a maçã com uma esponja macia e depois raspa com a faquinha. O resultado é bem parecido com o primeiro. Em seguida é a vez da bucha grossa, que a gente usa para arear panela. A moça usou o muque e esfregou com toda a força. Lavou, lavou, lavou. Nova raspagem e a cera continuava lá, na casca da fruta. E a cera se acumula no organismo, provoca uma série de problemas, blá, blá, blá.
Nesse ponto eu achei que era sacanagem, pouca coisa resiste a uma esponja grossa, mas continuei a ver o vídeo assim mesmo. A moça explicou que não havia remédio. Ou casca, ou cera. O que é uma pena porque boa parte dos nutrientes e vitaminas da maçã ficam na casca, como reza a ciência das donas-de-casa. Ela ainda mencionou a alternativa de se comprar maçãs orgânicas, mas já haviam se passado seis minutos e, de acordo com pesquisas científicas fidedignas, esse é o máximo de tempo que um homem consegue prestar atenção na conversa de uma mulher, seja ao vivo ou em vídeo.
É científico, brigue com a ciência, não comigo.
Fiquei com o vídeo na cabeça e depois resolvi fazer o teste aqui em casa. É incrível. A cera não sai nem com água quente e esponja de limpeza pesada. E é muita cera. Eu consumia umas duas maçãs enceradas por dia e, fazendo uma conta rápida, devo ter cera acumulada suficiente para umas duas quadras poliesportivas ficarem brilhando.
Então resolvi diminuir o consumo da fruta. O que é muito ruim, pois adoro maçãs.
Minha mulher percebeu e quis saber o motivo. Fiz o teste da faquinha e ela ficou mais impressionada do que eu. Então eu comecei a falar dos malefícios da cera acumulada no organismo, das maçãs orgânicas e minha mulher continuou a prestar atenção. Tive certeza então de que a recíproca não é verdadeira, pois eu fiquei falando bem mais de seis minutos, eu cronometrei, deu bem uns nove, dez minutos. Ou seja, homem pode falar à beça que mulher escuta, não tem limite de tempo cientificamente fidedigno.
Nesse ponto eu achei que era sacanagem, pouca coisa resiste a uma esponja grossa, mas continuei a ver o vídeo assim mesmo. A moça explicou que não havia remédio. Ou casca, ou cera. O que é uma pena porque boa parte dos nutrientes e vitaminas da maçã ficam na casca, como reza a ciência das donas-de-casa. Ela ainda mencionou a alternativa de se comprar maçãs orgânicas, mas já haviam se passado seis minutos e, de acordo com pesquisas científicas fidedignas, esse é o máximo de tempo que um homem consegue prestar atenção na conversa de uma mulher, seja ao vivo ou em vídeo.
É científico, brigue com a ciência, não comigo.
Fiquei com o vídeo na cabeça e depois resolvi fazer o teste aqui em casa. É incrível. A cera não sai nem com água quente e esponja de limpeza pesada. E é muita cera. Eu consumia umas duas maçãs enceradas por dia e, fazendo uma conta rápida, devo ter cera acumulada suficiente para umas duas quadras poliesportivas ficarem brilhando.
Então resolvi diminuir o consumo da fruta. O que é muito ruim, pois adoro maçãs.
Minha mulher percebeu e quis saber o motivo. Fiz o teste da faquinha e ela ficou mais impressionada do que eu. Então eu comecei a falar dos malefícios da cera acumulada no organismo, das maçãs orgânicas e minha mulher continuou a prestar atenção. Tive certeza então de que a recíproca não é verdadeira, pois eu fiquei falando bem mais de seis minutos, eu cronometrei, deu bem uns nove, dez minutos. Ou seja, homem pode falar à beça que mulher escuta, não tem limite de tempo cientificamente fidedigno.
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